americanização

A americanização da cultura açoriana não é, ao contrário do que se poderia esperar depois de quase dois séculos de emigração para os Estados Unidos, um fenómeno marcante da cultura açoriana, sobretudo porque se trata de uma migração unidireccional e de fixação definitiva, com um número pouco significativo de regressos. Sem dúvida, a influência dos Estados Unidos da América na economia local tem sido considerável, na medida em que tem permitido um escape para excessos populacionais das camadas mais desfavorecidas em períodos de crise económica ou depois de tragédias sísmicas. Além disso, a economia do arquipélago recebe o influxo contínuo das remessas dos emigrantes, bem como dos chamados «turismo e mercado da saudade». É incalculável ainda o montante de produtos americanos trazidos pelos emigrantes e pelos açorianos que à América vão de visita, ou que regularmente são remetidos para os Açores, sobretudo nas carreiras regulares do navio Pauline Marie, a partir de New Bedford, Massachusetts. Mas a adopção propriamente dita de características culturais norte-americanas, essa manteve-se superficial até há relativamente pouco tempo. A americanização, que uma década após o 25 de Abril português se foi tornando mais e mais notória, passando de um anti-americanismo generalizado a um grande interesse pela América sobretudo entre as camadas jovens, não procede por via da emigração. Ela provém da adopção do modelo das classes médias e superiores portuguesas que, por sua vez, o importam da Europa, onde a modernização passa cada vez mais pela assimilação de certas facetas fundamentais do American way of life. Os Açores são uma pirâmide inclinada com o vértice a tender para a Europa e a base voltada para a América. As classes média e alta açorianas sempre se pautaram pelos padrões de Lisboa e até a base mais desfavorecida dessa pirâmide emula as classes que não emigram, sendo através delas que a sua aculturação se processa. O que não significa que o sonho americano não constituísse um elemento importante do seu imaginário. Mas esse sonho visava emigrar e não necessariamente americanizar-se.

Mesmo no caso da Terceira, onde a presença da base aérea americana das Lajes remonta aos finais da Segunda Guerra Mundial e onde vive um contingente de cerca de dois mil americanos, que chegou a ser muito maior, a americanização não foi muito além da que atrás se descreve. Os americanos vivem num enclave com pouquíssimo contacto com os locais.

Nas comunidades emigrantes a americanização também é, em regra, muito lenta e reduzida ao essencial necessário à sobrevivência. As comunidades criam as suas redes de contacto intragrupal em espécie de ilhas portuguesas rodeadas de América por todos os lados - a L(USA)lândia - com os seus mercados, igrejas, clubes, associações desportivas, culturais e de socorros mútuos, estações de rádio e televisão, que funcionam como apoio psicológico mas também como agente reactivo contra a assimilação e dissolução no mar da cultura dominante. São os imigrantes mais jovens os passíveis de uma mais rápida assimilação, bem como, obviamente, os filhos dos emigrantes - esses já luso-americanos, parte dos chamados americanos hifenados - que, embora ligados ainda à cultura de origem, funcionam segundo padrões de vida fundamentalmente americanos, se bem que mais ou menos tenuamente associados a determinadas manifestações da cultura açoriana e portuguesa.

O linguajar português dos Açores adoptou alguns termos sobretudo no sector da baleação, visto tratar-se de uma actividade económica totalmente importada dos Estados Unidos. São exemplos disso os termos «bote» (de boat, lancha), ou «esparto» (de spout, jacto da baleia ao respirar). Nalgumas ilhas entraram no uso corrente vocábulos como «soera» ou «soela» (de sweater, camisola de lã), «esporim» (de spring, mola) e «alvarozes» (de overalls, fato-macaco). Um grande número de outros termos adaptados do inglês pelos emigrantes é conhecido mas não usado correntemente. Entram naturalmente na literatura, nas reproduções da fala de emigrantes.

A literatura açoriana, sendo naturalmente um produto da classe média, em termos económicos, e alta em termos culturais, não reflecte muito o fenómeno da emigração para os Estados Unidos da América. As excepções principais são dos últimos dez anos - e praticamente não acusam nenhuma influência linguística ou estética directa. Onésimo Teotónio Almeida (Dez.1996)

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