América, viagens para a descoberta da
A descoberta de ilhas ou de um continente na margem ocidental do Atlântico, que hoje denominamos América, esteve desde os meados do século xv nos horizontes dos portugueses e em particular de alguns homens directamente ligados à história dos Açores. As informações disponíveis, embora forneçam indícios que podem apontar para a possibilidade de se terem avistado terras americanas, não o provam, contudo, já que não se conhece qualquer documento que testemunhe o registo de localização de terras ou revele uma apropriação. Se houve portugueses que viram terras ocidentais antes de 1492, eles não foram capazes de lá regressar e de as registar devidamente, não podendo concretizar, assim, o que poderemos classificar como um descobrimento sociológico.
Na primeira fase dos Descobrimentos portugueses são escassos os indícios de viagens em busca de ilhas a ocidente dos Açores, embora desde cedo a curiosidade em desvendar os enigmas do oceano se tivesse começado a manifestar. Um caso que merece atenção é o de um hipotético contacto com uma terra americana por volta de 1447. Ele está assinalado em várias fontes, embora em todas elas se verifiquem graves problemas no registo das informações. António Galvão e Cristóvão Colombo, que se referem a essa viagem acidental, identificam como tendo sido a Antília, ou a ilha das Sete Cidades, aquela onde teria ido parar um desgovernado navio português. Poderá ter sido essa ilha aquela que foi procurada por Diogo de Teive, por volta de 1452, e, por outros navegadores às ordens do infante D. Fernando, o filho adoptivo e herdeiro do infante D. Henrique. Os dados sobre a viagem de Diogo de Teive limitam-se às informações recolhidas por Cristóvão Colombo em Santa Maria de La Rábida, de acordo com as indicações que lhe foram facultadas por um Pêro Vásquez de la Frontera. Aquele escudeiro e navegador henriquino partiu da ilha do Faial e viajou em direcção sudoeste mais de 150 léguas, atingindo a região correspondente ao mar dos Sargaços. Como não encontrou terra, regressou aos Açores, tendo então descoberto a ilha das Flores, guiado pelo voo das aves. De seguida rumou para noroeste, podendo ter-se aproximado dos bancos da Terra Nova, que teve de abandonar, por se estar em Agosto e se aproximar o Inverno, o que é uma realidade nessa zona. O estabelecimento desta última parte da viagem foi sugerido por Jaime Cortesão. Mesmo com os problemas que rodeiam a interpretação de qual possa ter sido a rota seguida por Diogo de Teive podemos estabelecer que ele foi o primeiro navegador português, cujo nome chegou ao nosso conhecimento, a ultrapassar os Açores. De salientar que embora ele não tenha continuado as suas explorações, acabou por se radicar no Norte da ilha Terceira, onde foi um dos seus primeiros povoadores. Encontram-se, também, relacionados com a mesma ilha os navegadores Fernão Dulmo e Pêro de Barcelos, que procederam a explorações atlânticas no Atlântico ocidental e norte, ou apresentaram projectos de exploração nessas áreas.
Por um documento de 21.6.1473 sabemos que Rui Gonçalves da Câmara, fidalgo da casa do duque de Viseu, pediu e recebeu a doação antecipada de «uma ilha que ele per si ou seus navios achar», com a importante ressalva de que ela não se poderia situar «além do cabo Verde». Podemos admitir que Rui Gonçalves da Câmara não manteve «o seu desejo e vontade» de «buscar nas partes do mar oceano umas ilhas pera as haver de povoar e aproveitar», tendo preferido radicar-se nos Açores.
Foi no período entre 1472 e 1474 que alguns autores têm admitido a possibilidade da realização de uma viagem de João Vaz Corte-Real e Álvaro Martins Homem à Terra dos Bacalhaus, isto é, a Terra Nova. Não é crível que tal viagem se tenha realizado, pois ela é apenas referida por Gaspar Frutuoso (1522-91), autor que merece pouca confiança em muitas das informações que regista sobre Corte-Real, sendo manifesta a confusão de Frutuoso ao atribuir ao pai a ida à Terra Nova, facto que apenas foi realizado pelos seus filhos Gaspar e Miguel.
Em 1486, D. João II aprovou o projecto que foi o mais completo de quantos se conhece, visando o encontro de terras a ocidente e norte dos Açores. Esse projecto foi idealizado pelo flamengo Fernão Dulmo, que se radicara nos Açores, onde afirmou as suas pretensões à capitania das Quatro Ribeiras, no norte da Terceira. O seu projecto contava com a colaboração do alemão Martin Behaim, um dos defensores de que a via marítima mais eficaz para se alcançar a Ásia era através do Atlântico ocidental, e o apoio financeiro de João Afonso do Estreito, da Madeira. A forma como Dulmo apresentou o seu projecto sugere que possuía algumas noções sobre as terras para onde tencionava dirigir-se, mas não é possível determinar como as poderia ter obtido. Na carta que D. João II lhe concedeu com a promessa de doação da capitania das terras a descobrir, datada de 3.3.1486, verifica-se que Dulmo declarara que «nos queria dar achada uma grande ilha ou ilhas ou terra firme per costa que se presume ser a ilha das Sete Cidades e isto tudo à sua própria custa e despesa». O acordo era tão rigoroso que admitia «que sendo caso que se não queiram sugigar (sic) as ditas ilhas e terra em nos mandaremos com o dito Fernão Dulmo gentes e armadas de navios com nosso poder pera sogigar as ditas ilhas e terra firme». Lendo atentamente o documento e os aditamentos que lhe foram feitos, fica-se com a noção de que o planeamento rigoroso que rodeava a expedição pressupunha dados actualmente desconhecidos.
Dulmo terá começado a planear a realização da viagem depois de ter recebido a autorização para esse efeito, mas em breve teria verificado que não dispunha dos capitais suficientes para investir na armação dos dois navios que seriam necessários para realizar a viagem prevista. No sentido de viabilizar a expedição, estabeleceu um contrato com João Afonso do Estreito, o qual foi aceite e confirmado pelo rei em 24.7.1486. Nesse contrato, Dulmo era referido como capitão que ia «a descobrir a ilha das Sete Cidades per mandado del rei nosso senhor». Embora a expedição fosse de iniciativa particular, esta última expressão revela que havia uma intervenção régia. A expedição de Dulmo deveria ficar preparada para partir da Terceira «per todo o mês de Março» de 1487. A expedição deveria ir apetrechada para a realização de uma viagem de seis meses, mas Dulmo acreditava que quarenta dias seriam suficientes para encontrar a terra que ia procurar. O plano de Dulmo não se concretizou, dele nada mais se sabendo depois de 1487.
Documentos descobertos por Ernesto do Canto revelam que, passados alguns anos, outras explorações oceânicas teriam partido da Terceira. Tais explorações foram realizadas por Pêro de Barcelos e João Fernandes Lavrador. O que sobre eles se sabe é muito pouco e envolto em problemas de difícil resolução, que entroncam na problemática das viagens portuguesas para ocidente, antes de 1500, e nas viagens empreendidas por João Caboto, em 1497 e 1498, à América do Norte. Os dois navegadores teriam andado a descobrir durante três anos, que se podem situar em 1492-95. Sabe-se ainda que D. Manuel recompensou com privilégios um filho de Pêro de Barcelos, alegando para o efeito os serviços prestados pelo pai no descobrimento do Norte. Este facto e o de o nome de João Fernandes Lavrador ter ficado ligado ao Norte do Canadá, além de outros dados derivados da cartografia, permitem pensar que as suas explorações teriam visado a Gronelândia e terras do Nordeste americano.
Parece muito provável que Pêro de Barcelos se tivesse desinteressado de tais empreendimentos marítimos depois de 1495, considerando os parcos resultados das suas explorações e os dissabores (as suas terras ocupadas) que o esperavam na Terceira, quando lá regressou pouco antes de Abril de 1495. José Manuel Garcia (Out.1996)
Bibl. Peres, D. (1983), História dos Descobrimentos Portugueses. 3.ª ed., Porto, Ed. Vertente. Cortesão, J. (1966), Os Descobrimentos pré-colombinos dos portugueses, Lisboa, Portugália Ed. Lima, M. C. B. (1946), Deux voyages portugaises de découverte dans lAtlantique Occidental. Coimbra, Coimbra Ed. Arruda, M. M. V. (1989), Colecção de documentos relativos ao descobrimento e povoamento dos Açores. 2ª ed., Ponta Delgada, Instituto Cultural.
