ambiente
AMBIENTE ATMOSFÉRICO A atmosfera é um recurso essencial que permite a vida e cria as condições climáticas que determinam muitos dos recursos naturais e o nosso modo de vida. A sua composição, estrutura e fenómenos que nela ocorrem determinam a distribuição da energia solar pela superfície do Globo e a função reguladora e moderadora do clima através do efeito de estufa atmosférico que permite a retenção de parte significativa da energia solar absorvida e reemitida pela superfície terrestre. Por um lado, a camada de ozono exerce um efeito de filtragem da radiação ultravioleta assimilável pela biosfera. Por outro lado, a interacção forte entre a atmosfera e a hidrosfera, tendo como elemento forçador a energia solar, determina a existência do ciclo hidrológico e, através do mecanismo da precipitação, o abastecimento de água potável. O aumento da concentração de alguns componentes minoritários, ou a injecção de componentes inexistentes na atmosfera, devidos à actividade humana, sobretudo desde a segunda metade do século xx, colocaram em evidência o risco de uma mudança climática global originada pelo reforço do efeito de estufa atmosférico e pela diminuição da concentração do ozono estratosférico. Este risco traduzir-se-á, segundo os cenários mais credíveis, em alterações graduais na distribuição dos elementos e das zonas climáticas e na diminuição da diversidade biológica. A poluição atmosférica tem também efeitos às escalas local e regional devido à acção directa dos poluentes ou ao seu transporte pela atmosfera para locais afastados das fontes contaminadoras.
A circulação geral da atmosfera, que compreende todos os tipos de movimentos da atmosfera e todos os aspectos da sua energética, é um dos factores decisivos do clima pois delimita e controla as zonas climáticas da Terra, nomeadamente a que abrange os Açores. A sua localização oceânica, e nas latitudes médias, determina uma distribuição dos elementos do clima que condiciona, ou gera, muitos dos recursos disponíveis do arquipélago. Numa escala interanual, detecta-se a ocorrência de anomalias climáticas, através da existência de algumas sequências de dias muito chuvosos e secos ou de áreas de geração de grande agitação marítima que impõem fortes constrangimentos à vida da população açoriana e submetem os ecossistemas a tensões fortes que se traduzem, por exemplo, na alteração dos ciclos da produção agrícola, da pecuária e das pescas. Numa escala de maior variabilidade (estacional ou inferior), destacam-se as perturbações atmosféricas com efeitos severos ou extremos que produzem vento e ondulação bastante fortes e precipitação muito intensa em intervalos de tempo curtos e que originam estragos e, por vezes, efeitos catastróficos nas diversas componentes do ambiente açoriano. Anthimio de Azevedo (Nov.1995)
AMBIENTE MARINHO Litoral O litoral pode ser definido como a zona de transição entre o meio marinho e o meio terrestre. Esta transição é feita através de um gradiente ambiental complexo, ao longo do qual as condições tipicamente marinhas se vão gradualmente atenuando, ao mesmo tempo que se reforçam as condições caracteristicamente terrestres. O ambiente litoral é, portanto, condicionado pela sua posição na interface oceano/meio terrestre, marcada pelo ritmo das marés, pela agitação marítima, bem como por factores de ordem climática e edáfica. As marés nos Açores são do tipo semidiurno regular, isto é, ocorrem duas preia-mar e duas baixa-mar, de amplitude semelhante, por dia. A amplitude média oscila entre 0,5 m nas marés mortas (quando a Lua está em quarto crescente ou minguante) e 1,44 m nas marés vivas (coincidentes com as fases de lua cheia e lua nova), sendo de 1,91 m o valor máximo previsível (IH, 1981). Devido à posição dos Açores em relação ao ponto anfidrómico do Atlântico Norte, as marés são mais marcadas no grupo oriental que no grupo ocidental.
A variação periódica do nível do mar faz que seja teoricamente possível demarcar três faixas horizontais no litoral (Hawkins et al., 1990; Neto, 1992): uma faixa superior que está normalmente emersa, sofrendo em maior ou menor grau os efeitos da humectação com água salgada, e que corresponde ao andar supralitoral; uma faixa central que sofre períodos alternados de emersão e imersão, muitas vezes designada por zona entremarés ou «zona intertidal», correspondente ao andar médio-litoral; e uma faixa inferior, normalmente imersa e portanto ocupada unicamente por organismos marinhos, correspondente ao andar infralitoral. As fronteiras entre estas faixas não são fixas, devido aos efeitos modificadores dos ciclos de maré e à influência da agitação marítima. Este último factor é, nos Açores, particularmente importante, uma vez que, mesmo nos meses mais calmos, a ondulação oceânica que chega à costa tem muitas vezes uma altura superior à própria amplitude da maré (Chapman, 1954; Arruda, 1979; IH, 1981).
Os factores climáticos (como a temperatura, a insolação, a precipitação e o vento) são particularmente importantes ao nível dos andares supra e médio-litoral por condicionarem, por exemplo, a temperatura corporal e o grau de dessecação dos organismos marinhos expostos ao ar. As poças que se formam na baixa-mar e que constituem, de certo modo, extensões do andar infralitoral, são também influenciadas pelos factores climáticos, pois que estes afectam significativamente os parâmetros físico-químicos da água. O efeito das variações climáticas ao longo do ano (Bettencourt, 1979) na distribuição dos organismos litorais é certamente importante, embora nunca tenha sido devidamente estudado (A. I. Neto, com. pes.).
As variáveis geológicas e geomorfológicas são também determinantes do ambiente litoral açoriano. À escala das ilhas, é característica a geralmente elevada inclinação da zona litoral, responsável pela sua pequena extensão no plano horizontal (Brito, 1955). Numa escala menor, existem em cada ilha zonas de erosão activa, caracterizadas por substrato de rocha compacta, por vezes de acentuada verticalidade, e zonas de deposição, com substrato móvel constituído por partículas de dimensões variáveis, desde blocos grosseiros, passando pelo calhau rolado até à areia.
A complexidade do relevo, associada às variáveis climáticas e oceanográficas, é responsável pela elevada heterogeneidade do litoral açoriano (Hawkins et al., 1990; Morton, 1990; Neto, 1992). Esta é uma característica muito própria, merecedora de um estudo mais aprofundado e forçosamente pluridisciplinar. José Manuel N. Azevedo (Jul.1996)
Oceânico O arquipélago dos Açores ergue-se no flanco leste da dorsal médio-atlântica, entre os 36° e os 40° de latitude norte, numa região caracterizada por profundidades máximas de 3500 m. Em torno de todas as ilhas o declive de fundo é elevado, com a isóbata dos 200 m a ocorrer a distâncias da costa que variam entre 1 e 10 km. Nesta região a temperatura da superfície da água do mar varia, em termos médios, entre 14,5 e 15,5°C no Inverno (temperaturas mínimas em Março) e 21,5 e 22,5°C no Verão (temperaturas máximas em Agosto), ocorrendo os valores mais elevados no grupo oriental (Bettencourt, 1975; IH, 1981). A salinidade à superfície varia entre os 35,9 e 36,5 g de sal por 1 kg de água do mar (IH, 1981). Estes valores caracterizam a camada superficial do oceano, onde ocorre uma forte mistura vertical devido à acção do vento local, da agitação marítima e dos processos de transferência de calor entre o oceano e a atmosfera - camada de mistura -, cuja espessura varia, nesta região, entre 30 e 60 m no Verão e cerca de 200 m no Inverno (Bettencourt, 1975; Boussard, 1995). Ao largo dos Açores, o oceano apresenta uma cor azul-esverdeada e a luz solar incidente à superfície penetra até profundidades de 130-170 m, sendo atenuada em cerca de 90 % nos primeiros 30-50 m (Fasham et al., 1985; Cunningham et al., 1992). O arquipélago situa-se na zona de transição entre as regiões onde ocorre um fluxo de calor positivo da atmosfera para o oceano (a sul e sudeste) e as regiões onde o oceano perde calor para a atmosfera (a norte e nordeste) (Bunker, 1980; Stramma e Isemer, 1986). As correntes superficiais ao largo dos Açores são relativamente fracas (velocidades médias inferiores a 2 km/h-1) e dirigidas para sul e sudeste (IH, 1981; Gould, 1985). Este regime de corrente insere-se no contexto da circulação geral, forçada pelo vento, na parte central do Atlântico Norte, a qual é caracterizada por uma célula subtropical de circulação anticiclónica (sentido dos ponteiros do relógio). A sul da região, entre os 32°N e os 36°N, ocorre uma corrente relativamente intensa, dirigida para sudeste - a *corrente dos Açores (Gould, 1985; Sy, 1988; Klein e Siedler, 1989). Próximo das ilhas e sobre os altos fundos a sul da região (e.g. Banco Princesa Alice) as correntes estão associadas a ramificações da corrente dos Açores e ao forçamento pelo vento local, encontrando-se ainda intensificadas por efeitos topográficos. A maré, que na região dos Açores é dominada pela componente semidiurna, pode igualmente originar correntes relativamente intensas na zona litoral em torno das ilhas ou sobre regiões de bancos. A topografia abrupta que caracteriza esta região introduz modificações do sinal da maré com a profundidade (Siedler e Paul, 1991), contrariamente ao que se passa nas regiões abissais próximas (bacia Ibérica, bacia das Canárias).
Ao largo do arquipélago o regime de ondulação predominante é de noroeste (IST, 1987; Falcão et al., 1990), ocorrendo as maiores vagas entre Janeiro e Março e as menores entre Junho e Agosto (ed. IH, 1987). Na sua propagação para a costa as ondas encontradas ao largo vão refractar-se e dissipar-se devido à variação da profundidade. Contudo, em virtude de a variação abrupta de profundidade se realizar a pequena distância da costa, a dissipação por atrito no fundo é pequena e as ondas podem bater a costa com uma energia elevada (Falcão et al., 1990). João Vitorino (Out.1996)
AMBIENTE E SOCIEDADE Homem e ambiente urbano As transformações mais profundas da paisagem pelo homem estão ligadas à constituição de aglomerações urbanas. O baixo índice de urbanização dos Açores faz que não sejam muito intensas as consequências deste fenómeno (poluição, impermeabilização dos terrenos, congestionamento do trânsito, lixos abundantes). Mas os seus efeitos começam a tornar-se sensíveis. As cidades açorianas situam-se no litoral e a implantação dos seus portos modifica a configuração deste; é o que acontece, designadamente, em Ponta Delgada, onde o molhe, abrigando as águas do porto e sucessivamente alongado, assentou na ponta que deu o nome à cidade, na Horta e na Praia da Vitória, cujo porto, o mais recente dos três referidos, foi concebido com largueza e implicou obras consideráveis. Ponta Delgada foi crescendo para o lado do mar por sucessivos aterros, desde o caminho de terra batida que assim se chamava («o aterro»), até à moderna Avenida Marginal, que lhe ficou adjacente a partir dos anos 50 e foi recentemente prolongada para leste. Mas, mais em geral, é nos outros sentidos que o crescimento das cidades vai progressivamente transformando a paisagem em seu redor e englobando nelas algumas povoações da periferia. A indústria não assume grande relevância nas aglomerações urbanas dos Açores; pelo contrário, os serviços têm presença significativa. Como é vulgar, faz-se sentir trânsito intenso em determinadas horas do dia e em especial no centro, que é visível nas duas cidades mais importantes, Ponta Delgada e Angra do Heroísmo, sobretudo na primeira, a maior, e que tem planta menos regular. Começam assim a suscitar-se problemas de circulação e estacionamento das viaturas.
Homem e paisagem natural O ordenamento da paisagem rural dos Açores revela um ajustamento às condições naturais, marcadas designadamente pelo relevo acidentado e pelos valores elevados da humidade relativa e das chuvas, sobretudo nas áreas de maior altitude, que constituem o domínio dos pastos. Assim, as culturas desenvolveram-se apenas até 450-550 m, seguindo-se o andar silvopastoril até 800 m e, para cima, matos espontâneos. Desde os relatos de Gaspar Frutuoso, no final do século xvi, que há notícia dos primórdios desta transformação da paisagem natural pelo homem. As matas também se implantaram em áreas baixas, interrompendo a faixa das culturas, e nesta expandiu-se uma policultura muito rica, até 100-150 m, enquanto mais acima o milho ganhou o predomínio, tornando-se quase exclusivo. Condições específicas de relevo e clima, factores económicos de diversa ordem interferiram com este esquema. Quanto ao segundo, ele encontra-se afectado pelo recente alargamento das pastagens, com decréscimo sensível da superfície cultivada. No que se refere a factores físicos, o relevo das várias ilhas exerce notória influência. É assim que S. Jorge, onde as terras baixas são escassas, tem 89 % da SAU (superfície agrícola utilizada) com prados e pastagens permanentes (segundo o recenseamento agrícola de 1989), enquanto na Graciosa, cujas altitudes não ultrapassam 400 m, aquele valor é de 67 %. As povoações situam-se nas áreas mais baixas, inferiores a 350 m, e só vão além desta cota em S. Jorge.
As actividades do homem podem conduzir a situações de desequilíbrio. Se o lapili (bagacina) é suficientemente espesso, a sua exploração torna-se susceptível de ocasionar desabamentos, seguidos por movimentos individuais das partículas, a que se dá o nome de creep (Rebelo, 1985). Movimentações dos terrenos são também favorecidas pela abertura de caminhos em que ficam cortados, de forma perpendicular, sectores de maior declive (Marques e Madeira, 1975) e pelas deslocações de solos tendo em vista a implantação de pastagens (id., 1977). A falta de cobertura arbórea ou arbustiva pode condicionar certas formas de ravinamento (Rebelo, 1985). Estes fenómenos estão também relacionados com determinadas condições, a nível de declive e precipitações, por exemplo. Mas o conhecimento aprofundado do enquadramento físico, e eventuais cautelas que determine, permitem regular devidamente a intervenção do homem na paisagem natural. A fragilidade dos ecossistemas açorianos tem sido referida por alguns autores (v.g. Raposo, 1990). Carlos Alberto Medeiros (Mai.1996)
Conservação da natureza A conservação do património natural do arquipélago tem vindo a merecer atenção governamental e actualmente estão sob protecção ou em vias disso quase todas as grandes áreas terrestres e costeiras de interesse (Martins, 1993). Porém, em muitos casos aguarda-se regulamentação apropriada e a maioria carece de vigilância adequada. No foro marinho, para além do conjunto Formigas-Dollabarat (DLR 11/88/A), não existe protecção a qualquer outro banco submarino. Ilhéus ou trechos de costa foram classificados sobretudo com critérios recreativos, excepção feita ao ilhéu de Vila Franca do Campo, em S. Miguel, por causa do cagarro (Calonectris diomedea) (DLR 3/83/A) e à caldeira da fajã de Santo Cristo, em S. Jorge, devido à existência da amêijoa (Venerupis decussata) (DLR 6/89/A e Port. 63/89). Estudos científicos fundamentam novas propostas de criação de reservas; dignas de menção são as que incluem ilhéus das Flores, Graciosa e Santa Maria como refúgios do garajau-rosado (Sterna dougalli). Santos et al. (no prelo) revêem o problema da conservação marinha nos Açores, e Morton e Cunha (1995) e Morton et al. (1996) estudam as fajãs de Santo Cristo e dos Cubres, propondo a sua inclusão numa única reserva natural.
As áreas terrestres protegidas visam sobretudo bolsas de laurissilva, sendo de realçar o pico da Vara (SRAP) e a lagoa do Fogo (DLR 10/82/A) em S. Miguel, a caldeira de Santa Bárbara na Terceira (SRAP), a montanha do Pico (DLR 1 5/82/A), a caldeira do Faial (DLR 14/82/A) e várias lagoas nas Flores (SRAP).
No intuito de melhor gerir as áreas protegidas, a Secretaria Regional do Turismo e Ambiente prepara legislação para a criação de um parque regional que englobe as ilhas Faial/Pico/S. Jorge e dois parques naturais - Terceira/Graciosa e S. Miguel/Santa Maria -, prevendo semelhante acção para Flores e Corvo; mantêm-se, no entanto, as reservas florestais naturais sob administração da Secretaria Regional da Agricultura e Pescas (SRAP).
As espécies marinhas pelágicas gozam, nos Açores, do estatuto de protecção adoptado internacionalmente; a caça ao cachalote está interdita desde 1989, estando igualmente proibida a captura de outros mamíferos marinhos (DL 316/89; Livro Vermelho I, 1990). Algumas espécies de peixes sujeitas a forte exploração, como o cherne (Polyprion americanus), o goraz (Pagellus bogaraveo) e o pargo (Pagrus pagrus), estão ameaçadas, e o mero (Epinephelus marginatus) goza de estatuto especial (DLR 15/83/A). Igualmente regulamentada está a captura de invertebrados marinhos costeiros como a *amêijoa (Ruditapes decussatus) (DLR 15/88/A), as lapas (Patella spp.) (DLR 14/93/A), o cavaco (Scyllarides latus) e a lagosta (Palinurus elephas) (Port. 19/83) (Costa et al., 1993).
Várias espécies de aves marinhas nidificam nos Açores; das mais comuns apenas o garajau-rosado está ameaçado, nidificando no arquipélago 60 % da população mundial desta espécie.
Dos vertebrados terrestres apenas o priolo (Pyrrhula murina) está em grave risco de extinção. Restringido à zona da Tronqueira/pico da Vara, em S. Miguel, esta espécie foi recentemente estudada por Ramos (1993), sendo actualmente objecto de várias iniciativas de protecção apoiadas pela União Europeia.
Os invertebrados terrestres têm, em geral, merecido pouca atenção devido à falta de estudos de sistemática apropriados, excepção feita aos moluscos, dos quais 50 % das espécies são endémicas (Martins, 1992). De especial importância neste aspecto é a ilha de Santa Maria, que possui o maior número de endemismos, um dos quais (Helix obruta Morelet), tido como extinto, foi recolhido vivo (Martins et al., 1991). Uma listagem das espécies açorianas integrará o Livro Vermelho dos Moluscos Terrestres, que a IUCN prepara.
Duas espécies de plantas são tidas como extintas (Viccia dennesiana e, talvez também Veronica dabney) e muitas outras estão fortemente ameaçadas; dentre elas salientam-se a ginjeira-brava (Prunus lusitanicus azorica), Chaerophylum azoricum, Euphrasia grandiflora, o bafo-de-boi (Ranunculus cortusifolius), a *alfacinha (Lactuca watsoniana), a erva-do-capitão (Sanicula azorica), o pé-de-pomba (Ammi huntii), o não-me-esqueças (Myosotis azorica), o pau-branco (Picconia azorica), a erva-leiteira (Euphorbia azorica) e o trovisco-macho (Euphorbia stygiana) (Oliveira, 1992). A. M. Frias Martins (Set.1996)
Exploração dos recursos naturais Os povoadores, ao desembarcarem nas ilhas dos Açores, não tiveram à sua disposição recursos naturais diversos para explorarem. Seguramente, depararam, em terra, com o coberto vegetal, o solo, os inertes, a água e algumas aves e, no mar, com os peixes, os moluscos e os crustáceos.
Desses recursos, o coberto vegetal foi, certamente, o primeiro a ser explorado porque proporcionava combustível e material de construção e a sua remoção era necessária à preparação de solos para a agricultura e pastorícia. Algum tempo depois terá começado a exploração de inertes para obras de construção civil e militar. Todas estas actividades, a que, naturalmente, se juntaram outras, não mais cessaram.
Do ponto de vista ambiental, a substituição do coberto vegetal primitivo provocou, primeiramente, a destruição dos habitats e da fauna que eles suportavam, de que hoje restam apenas pequenos fragmentos, eventualmente, protegidos por lei. Seguidamente, o crescimento da actividade agro-pecuária e também silvícola desencadeou processos complexos de degradação e erosão do solo, este também uma componente do habitat, e de poluição que se tornaram acelerados com a introdução de técnicas de mecanização e de gestão daquelas actividades económicas.
A exploração de inertes (basalto, bagacina e areia), sem a necessária recuperação dos locais de extracção, pelo menos pontualmente, descaracterizou a paisagem e ocasionou perdas de solo produtivo e perturbações nos processos naturais de infiltração e drenagem das águas pluviais. Todavia, a grande precipitação e as características geológicas e pedológicas predominantes nas ilhas favorecem a recarga dos aquíferos que, geralmente, parecem suficientes para o abastecimento público se devidamente geridos e protegida a qualidade da sua água. Assim, ainda nos nossos dias, os hábitos das populações e o desconhecimento dos problemas ambientais provocados por certos costumes têm contribuído para o aparecimento de situações evidentes de degradação do ambiente. A esta situação não são alheias as ausências de uma prática de educação para o ambiente e de uma política governamental de exploração sustentada dos recursos naturais. No mar, os efeitos da actividade piscatória sobre os recursos pesqueiros são mal conhecidos (ver Atlântico, recursos pesqueiros), mas não é provável que tenham efeitos sobre a qualidade do ambiente marinho na região dos Açores. Luís M. Arruda (Jul.1996)
QUALIDADE DO AMBIENTE Qualidade do ar Até agora, a vigilância da qualidade do ar na região não tem sido alvo de um controlo sistemático, pelo que não está definido com rigor o estado da poluição atmosférica.
Contudo, uma vez que o parque industrial é reduzido, o impacte ambiental resultante das actividades industriais restringe-se a situações localizadas (Menezes e Oliveira, 1991). No entanto, nas cidades de Ponta Delgada e Angra do Heroísmo o tráfego automóvel já é considerável, podendo ser considerado como potencial poluidor do ambiente urbano (Carretas, 1987). Há a considerar também, para além da poluição devida a fontes naturais como as partículas vegetais, as poeiras do solo, os vulcões e os gases resultantes das decomposições, mas à qual se atribui menor importância (dados não publicados), a contribuição dada pelos poluentes conservativos, veiculados pela circulação atmosférica, podendo mesmo verificar-se poluição transfronteira (Carretas, 1987).
Não obstante o que foi dito, em termos ecológicos, os Açores estão a beneficiar ainda, sublinhe-se, do seu pouco desenvolvimento industrial, contribuindo assim para uma homeostasia homem-ambiente.
Qualidade oceânica Os Açores podem ainda considerar-se uma região com uma elevada qualidade física do ambiente marinho, devido essencialmente a dois factores: o isolamento e a larga dispersão do arquipélago (Martins e Santos, 1991). A poluição do mar que se tem verificado é de natureza essencialmente biológica e cinge-se praticamente à vizinhança dos locais de lançamento de efluentes, sobretudo domésticos, e de resíduos sólidos (Menezes e Oliveira, 1991). A poluição por microrganismos fecais é favorecida pelos aglomerados populacionais que assentam sobre formações de subsolo porosas ou fissuradas e que utilizam fossas rotas para rejeição das águas residuais domésticas. Casos houve em que se detectou infecções gastrintestinais e de pele em pessoas que frequentavam zonas balneares próximas de localidades que lançavam os seus efluentes directamente no mar (Carretas, 1987). Além disso, já foram também detectadas alterações em peixes e diminuição do número de espécies (Carretas, 1991).
A propósito da alteração da qualidade do ambiente físico marinho, há que salientar a contribuição dada pelos materiais que são trazidos pelas correntes marítimas. De entre estes materiais sobressaem os resíduos flutuantes e os hidrocarbonetos provenientes, em grande parte, da lavagem de navios. No que se refere aos derrames de combustíveis, estes têm sido raros. Na verdade, as rotas normais dos petroleiros são bastante afastadas da região, pelo que poucos acidentes têm afectado os Açores.
Por fim, é de referir o facto de os mares açorianos serem ricos em mercúrio, tendo-se como causa principal as erupções vulcânicas (dados n. publ.). Os Açores estão na crista médio-atlântica, uma zona em que três placas tectónicas confluem e onde as erupções vulcânicas submarinas são contínuas.
Qualidade dos solos A redução das culturas agrícolas, em favor do aumento da área de pastagens que em 1985 ocupava 82,2 % da superfície agrícola útil, sem a devida análise das potencialidades e limitações de cada lugar, tem conduzido a problemas de poluição do solo (Carretas, 1991) específicos das pastagens e da produção animal que suportam.
O uso de fertilizantes nas pastagens, principalmente de adubos azotados (Pinheiro e Rodrigues, 1991), associados à falta de controlo de doses e à fraca sanidade animal e vegetal tem levado a que a escorrência das águas pluviais arrastem elevados teores de determinados compostos químicos (Garcia e Furtado, 1991), nomeadamente de nitratos. Em locais específicos, a presença de compostos azotados no solo, resultado de pastagens fertilizadas ou de habitações com fossa rota, tem levado a situações de contaminação de águas subterrâneas devido ao arraste de contaminantes pelas águas de infiltração (Carretas, 1987).
A prática do regime de pastoreio directo, durante todo o ano, tem feito com que o solo seja o meio receptor de milhares de toneladas diárias de excrementos frescos, cuja composição determina elevados teores de nutrientes e microrganismos fecais (Carretas, 1987). O arraste pelas águas de infiltração destes materiais fecais presentes no solo ou a percolação através de acumulações de excrementos do gado tem contribuído significativamente para a contaminação das águas subterrâneas com microrganismos de origem fecal (Menezes, 1987). Este tipo de poluição - biológica - tem sido considerado o principal factor de degradação da qualidade dos solos nos Açores (Menezes, 1987). Sónia Santos (Abr.1996)
Qualidade da água As águas subterrâneas dos Açores ocorrem em dois tipos distintos de situações hidrogeológicas que também determinam em boa parte as características das águas: (a) aquíferos suspensos, geralmente intercalados em formações de elevada condutividade hidráulica ou em rocha fracturada, contendo águas que em geral se assemelham muito, pela sua composição química, às da chuva, embora por vezes acrescentada por teores moderados de sílica e outros compostos resultantes da lixiviação das rochas das percoladas. Nestes aquíferos, os principais problemas de qualidade derivam da contaminação a partir da superfície, sendo a presença de microrganismos fecais, em geral de origem bovina, o mais comum. Nalguns casos tem sido detectada a presença de nitratos provenientes de fertilizantes; (b) aquíferos basais, formados devido ao mecanismo de Ghyben-Herzberg sobre a interface entre a água do mar e a água doce, contendo águas que em alguns casos estão profundamente infuenciadas pelo ambiente geotérmico. Nestes aquíferos, são frequentes as plumas-térmicas, de que resulta a presença no aquífero de águas de temperatura elevada, o que lhes aumenta o poder solvente, levando por vezes à presença de elevado teor mineral. Por outro lado, a heterogeneidade e a anisotropia da fracturação das rochas, associadas a regimes de exploração inadequados, têm levado à penetração de cunhas salinas, provocando em alguns casos aumento excessivo da mineralização, em particular do teor em cloreto de sódio. Excepções ao atrás apontado são as águas provenientes de locais onde a presença de fluidos geotérmicos se faça sentir à superfície, caso das águas termais, onde as águas apresentam composições muito variadas em resultado da mistura com esses fluidos, e das zonas onde depósitos de rochas vulcânicas de muito fácil lixiviação, normalmente piroclastos traquíticos, provocam enriquecimentos anormais em sílica, flúor e outros compostos e elementos. Álamo de Menezes (Jul.1997)
Bibl. Arruda, L. M. (1979), On the study of a sample of fish captured in the tidal range at Azores, Boletim da Sociedade Portuguesa de Ciências Naturais, 19: 5-36. Bettencourt, M. L. (1975), A pesca do atum e alguns aspectos da interacção oceano-atmosfera na região dos Açores. Lisboa, Serviço Meteorológico Nacional. Id. (1979), O clima dos Açores como recurso natural, especialmente em agricultura e indústria do turismo. O Clima de Portugal, Lisboa, Instituto de Meteorologia, 18. Boussard, A. (1995), Classification des profiles hydrologiques sur la région Açores. Service Hydrographique et océanographique de la marine, rapport détude n.º 004/95. Brito, R. S. (1955), A ilha de São Miguel. Estudo geográfico. Lisboa, Centro de Estudos Geográficos / Instituto de Alta Cultura. Bunker, A. F. (1980), Trends of variables and energy fluxes over the
