Alpendre

ARQUITECTURA O termo, de etimologia incerta, significa «tecto suspenso por colunas ou pilastras, pelo menos de um lado, formando saliência por cima da porta principal de um edifício» (Morais, 1947). Mas o sentido geral articula-se com outros temas construtivos, como: telheiro, pórtico, galilé, pátio coberto.

Nos Açores o alpendre surge sobretudo nas casas rurais com dois pisos (ou nas «casas de vila»), em S. Miguel (Mosteiros), na Terceira (Silveira) ou em S. Jorge (Urzelina), coberto com telhas, no topo das escadas exteriores de acesso - mas não é de modo algum sistemático. Terá provável origem na tipologia alpendrada da Península (Norte, Beiras, Estremadura). A forma «balcão» (espaço coberto, no topo superior das escadas ou no térreo das entradas) é, essa sim, universal nas ilhas. Em S. Jorge usou-se a designação «balcão de sombra» para o alpendre (Vasconcelos, 1975). Mais específico das ilhas será o alpendre aparentado às galilés de capelas (em Santa Maria e S. Miguel) que estrutura os «Impérios», nomeadamente marienses (como o «teatro» de Almagreira) - e que curiosamente vamos encontrar depois reproduzidos nas áreas de migração açórica (lagoa da Conceição, ilha de Santa Catarina, Brasil): duas a quatro colunas de pedra ou madeira, moldurando três vãos abertos, e sustentando a cobertura de quatro águas de uma pequena construção quadrada (cerca de 5 m de lado), ligada àquele culto (Janeiro e Fernandes, 1988). No contexto urbano devem destacar-se os alpendres em pedra vulcânica de algumas câmaras municipais, como em Praia da Vitória (e na antiga de Angra, demolida), rematando as escadas. José Manuel Fernandes (Nov.1995)

ETNOLOGIA Na ilha de Santa Maria, a casa do Império do Espírito Santo reduz-se a um teatro, ou triato, de alvenaria, de construção simples, que se situa perto das igrejas ou das ermidas. A coroa é aí colocada, após a coroação, em nicho próprio e, então, o trinchante serve no alpendre o menino da mesa e corta e distribui o pão da mesa e a rosca. O mesmo que cadafalso. M. Breda Simões (Set.1996)

Bibl. Cabral, J. C. (1924), Festas do Espírito Santo na Ilha de Santa Maria. Archivo dos Açores. Ponta Delgada, XIV. Janeiro, M. L. e Fernandes, J. M. (1988), Um Percurso da Arquitectura Açoreana, do Arquipélago ao Brasil. Angra do Heroísmo, Instituto Histórico da Ilha Terceira, XLV. Simões, M. B. (1987), Roteiro Lexical do Culto e Festas do Espírito Santo nos Açores. Lisboa, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa. Vasconcelos, L. (1975), Etnografia Portuguesa. Lisboa, Imp. Nacional - Casa da Moeda, VI: 302.