alpardo

s. Crepúsculo (matutino ou vespertino). De ar pardo (ar escuro, lusco-fusco), expressão que já se usava em português no século xv, segundo vem numa cantiga de Gil de Castro datável de 1480: «Como vires o ar pardo / que ja quere anoutecer [...]» (Cancioneiro Geral, II: 93). Ainda se usava pelo menos no século xvi, pois Morais respiga-o de Diogo do Couto: «Ainda era o ar pardo» e «já era ar pardo». A expressão ar pardo, tomada como um só vocábulo (arpardo), passou a alpardo por dissimilação do r. Aliás, a passagem do r a l (ar pardo > al pardo) tem outros exemplos em português (vid. almário, alvoredo, etc.). A forma alpardo não se fixou no português do Continente, encontrando-se apenas na Madeira e em algumas ilhas dos Açores. Cf: «Não faltava à missa; mesmo de semana, que chovesse, que ventasse, lá ia ela, ainda alpardo, arrimada à sua cana, amarelecida já do uso, que lhe servia de bengala, a caminho da igreja» (Dias, 1945: 203). Nos Açores também se diz alpardinho e na Madeira alpardinha com o mesmo sentido. Ver alpardecer. Eduíno de Jesus (Out.1997)

Bibl. Silva, A. M. (1949), Alpardo In Grande Dicionário da Língua Portuguesa [«Dicionário de Morais»]. 10.ª ed., Lisboa, Ed. Confluência.