almas, pão das
Pão que, no concelho do Nordeste (ilha de S. Miguel), era costume dar de esmola pelas alminhas do Purgatório, quando estas o solicitavam. Uma pessoa sabia que a alma de um familiar seu (ou de alguém da sua amizade) lhe pedia que fizesse uma destas esmolas de pão (esmola branca), quando uma cozedura não lhe saía bem. Sobretudo quando isso se repetia sem outra causa, era certo que uma alminha em aflição estava pedindo ajuda. Aliás, podiam ser várias alminhas a solicitarem ao mesmo tempo ser sufragadas por esse meio. Em qualquer dos casos, o que havia a fazer era prometer-lhe(s) um pãozinho da fornada seguinte. Este seria o primeiro que saísse do forno e deveria ser colocado à porta da rua, do lado de fora, sobre uma cadeira, coberto com um guardanapo. A porta e todas as janelas da casa do ofertante voltadas para a rua tinham de ficar fechadas durante um certo tempo, a fim de ninguém da casa poder espreitar quem viesse a levar a esmola, pois de outro modo esta perderia o mérito. A primeira pessoa que passasse por ali e visse a cadeira com o pão em cima devia ajoelhar e rezar pelas almas antes de o levar para casa, deixando o guardanapo muito bem dobrado em cima da cadeira. Sendo o passante um indigente, ficaria com o pão para si, obrigando-se a, depois de o comer sozinho ou com os seus, rezar o terço por intenção das mesmas almas; sendo pessoa com meios de fortuna ou, simplesmente, não necessitada, dá-lo-ia a um pobre qualquer do seu conhecimento, dizendo-lhe onde fora achado, para que o pobre pudesse depois rezar em casa o terço pela(s) alma(s) em intenção de quem tinha sido feita a esmola. Havia pobres que, noutro tempo, percorriam as ruas do concelho do Nordeste logo de manhãzinha na esperança de virem a ser eles os primeiros a descobrir algum pão das almas. Este antigo costume já tendia a desaparecer por meados do século xx. Eduíno de Jesus (Out.1997)
Bibl. Côrtes-Rodrigues, A. (1952), O Pão das Almas. Insulana, Ponta Delgada, VIII, 3-4: 433-434.
