alma-de-mestre
HISTÓRIA NATURAL Nome vulgar da ave marinha Oceanodroma castro. Família pertencente à ordem Procellariiformes (Hydrobatidae). Parece não haver dúvidas de que é a esta espécie que Chagas se refere, na sua obra Espelho Cristalino em Jardim de várias Flores, designando-a por *angelito. Bannerman e Bannerman, no entanto, designam-na por alma-de-mestre, e este nome vulgarizou-se desde então (curiosamente, este termo havia sido empregue por Acúrcio Garcia Ramos, em 1869, quando se referia aparentemente a Bulweria bulwerii - Thalassidroma Bulwerü, segundo aquele autor). Por outro lado, Bannerman e Bannerman optaram por referir Bulweria bulwerii por *anjinho (um nome algo insólito, já que a ave em questão é completamente negra, e esta cor não é geralmente associada a designações angelicais). Não obstante ser aparentemente mais correcto recuperar o termo angelito para Oceanodroma castro, a potencial confusão com anjinho parece aconselhar outra opção. Uma hipótese razoável seria a de manter alma-de-mestre (para O. castro), substituindo, para B. bulwerii, a algo insólita denominação de anjinho por *alma-negra (aliás já utilizada na Madeira, e que parece mais lógica, tendo em conta o aspecto da espécie).
A alma-de-mestre é uma ave de pequenas dimensões, semelhantes às de um painho, não apresentando dimorfismo sexual. De aspecto geral escuro, possui a zona uropigial, na base da cauda, branco-puro. As asas são longas, a cauda levemente forcada, o bico curto e atarracado. As plumagens de adulto e juvenil são semelhantes. Durante grande parte do ano apresenta hábitos pelágicos, vivendo no alto-mar. Alimenta-se de organismos marinhos, capturados à superfície. Durante a época de nidificação regressa a terra, criando em buracos e sendo gregária neste período. Fundamentalmente nocturna, reduz a actividade em noites de lua cheia. Durante vários anos suspeitou-se que esta espécie nidificaria nos Açores, muito embora a presença da mesma já tenha sido confirmada em 1903 (Hartert e Ogilvie-Grant). A reprodução parece começar bastante tarde (Bannerman e Bannerman falam mesmo na hipótese do seu começo em Setembro!). Recentemente (fim da década de 80 e datas posteriores) a mesma foi confirmada; Monteiro et al. comprovaram-na em ilhéus ao largo de Santa Maria e Graciosa, provavelmente perto de S. Jorge também, estimando-se a população nidificante em pouco mais de 800 casais. A postura é de um ovo, faltando detalhes sobre a biologia de reprodução nestes locais. Os Açores representam o limite norte de distribuição desta espécie no oceano Atlântico. É interessante que os registos de Chagas (meados do século xvii) refiram grande abundância destas aves marinhas na ilha do Corvo, mencionando que havia crias em Setembro e Outubro, e que as mesmas eram consumidas para alimentação (conservadas em salmoura) e também exploradas para óleo de alimentação. Luís F. Matos (Out.1996)
ETNOLOGIA O nome vulgar de alma-de-mestre dado a estas pequenas aves marinhas procede da superstição da gente do mar, segundo a qual elas são as almas dos capitães (ou mestres) de navios naufragados, cujos corpos ainda não deram à costa e se encontram à deriva nos oceanos, à espera de que alguém os recolha e lhes dê sepultura cristã. Garrett, no Camões, canto v, estrofe iii, recorda os «longos pios» desta «ave triste» ouvidos de noite, no mar, como se fossem «o carpir fúnebre / do nauta que suspira por um túmulo / na terra de seus pais». Eduíno de Jesus (1998)
Bibl. Bannerman, D. A. e Bannerman, W. M. (1966), Birds of the
