alho
Nome vulgar de Allium sativum (Liliaceae). Também se dá a designação de alho ao bolbo desta espécie, vulgarmente conhecido como «a cabeça de alho».
HISTÓRIA NATURAL É um bolbo ovóide, achatado na parte inferior, com 3 a 6 cm de diâmetro, contendo 5 a 18 bolbilhos, os «dentes de alho». Externamente, o bolbo encontra-se envolvido por uma túnica, a que se dá o nome de «casca do alho». As folhas lineares podem atingir 60 x 3 cm, são planas na parte superior e aquilhadas na parte inferior. As flores dispostas em umbelas paucifloras, às vezes inteiramente bolbilhíferas, têm os estames inclusos, com as tépalas de tonalidades que variam do branco ao púrpura, podendo também apresentar-se esverdeadas. Não existe no estado espontâneo, mas é cultivado e usado na alimentação humana desde épocas muito recuadas.
INTERESSE ECONÓMICO E CULTURA TRADICIONAL A cultura do alho foi introduzida na Europa nos primórdios da agricultura. As suas qualidades foram reconhecidas pelos grandes médicos da Antiguidade. Os Egípcios introduziam-no largamente nas refeições dos construtores da pirâmide de Gizé, devido às suas propriedades estimulantes. Na Idade Média foi considerado um tempero de grande valor, mas praticamente não foi usado como medicamento. Os soldados russos na última Guerra Mundial traziam consigo dentes de alho que esmagavam nos bordos das feridas para evitar infecções. Vários autores afirmam que se pouparam milhares de vidas com este simples expediente. A alicina, substância sulfurada que dá ao alho o cheiro e paladar especiais, é também a responsável pelas suas qualidades germicidas. Preparado na altura de ser utilizado, o sumo de alho tem uma acção mais intensa. Assim, o alho, depois de ter sido considerado largos anos como um bom tempero, voltou a recuperar a merecida fama dum excelente medicamento. Nos Açores, o leite no qual se fervem dentes de alho é largamente usado como remédio para a tosse. O alho entra praticamente em todos os pratos e sopas, mas é imprescindível nas «sopas do Espírito Santo» e «alcatras», no «vinha de alhos» que precede a preparação de linguiças e torresmos, nos molhos de peixe e mariscos e nas tradicionais «favas com molho de unha».
A Graciosa foi a ilha dos Açores em que a cultura do alho teve maior interesse económico. Actualmente, ainda alguns agricultores se dedicam a esta cultura, mas a importação, que aumenta constantemente, de grandes cabeças de alho, embora muito menos aromáticas e saborosas, vem criando uma concorrência difícil de ultrapassar. A freguesia da Agualva, na Terceira, teve talvez o segundo lugar da cultura do alho nos Açores, mas hoje ela está reduzida a pequenas áreas destinadas ao consumo caseiro.
Para cultivar alho nos Açores, escolhem-se terrenos de textura média, francos ou franco-argilosos, nos quais não se tenha feito, no ano anterior, alho ou cebola. O terreno é preparado com lavoura, seguida de gradagem e armado em «camalhões». A plantação faz-se em linhas. Na Graciosa, em que se dedicam ainda boas áreas a esta cultura, a distância entre linhas é de 60-70 cm, o que permite fazer os sachos a sachador. Na Agualva, em que se fazem apenas pequenas áreas para autoconsumo, a distância entre linhas é de 20 cm e os sachos são feitos com enxada. A distância dentro da linha é de 10 cm. O adubo preferido para esta cultura, há alguns anos, era a cinza dos fornos de pão, peneirada sobre o terreno. Acredita-se que tinha simultaneamente acção fertilizante e fungicida. Hoje, os fornos de pão estão quase desaparecidos e adopta-se um adubo contendo azoto, fósforo e potássio na proporção 7:7:7. Para plantar, escolhem-se os dentes de alho do exterior da cabeça que se colocam na terra com o bico voltado para cima, bem próximo da superfície. A época de plantação vai de Novembro a Janeiro, sendo o mês de Dezembro o preferido. Além dos sachos, são por vezes necessários tratamentos com fungicidas. A colheita faz-se pelo S. João, no minguante da Lua. Crê-se que os alhos que não são colhidos nesta fase da Lua ficam chochos. Após a colheita os alhos são enrestados ou atados às mãos que se juntam duas a duas e são pendurados a secar num lugar arejado e fresco. Raquel Costa e Silva (Out.1996)
MEDICINA POPULAR O alho tem inúmeras aplicações, como anti-séptico, expectorante, colagogo, hipotensor, revulsivo, resolutivo, antiescloroso, antiartrítico, diurético, febrífugo, estimulante circulatório, vermífugo. Nas bronquites, tosses e febres faz-se um cozimento de 25 g para um litro de leite, tomando uma chávena duas vezes por dia. Usado externamente para desinfectar feridas, tratar a sarna e a tinha, picadas de insectos, quistos, nevralgias, reumatismo, calos e verrugas, aplicando cataplasmas. Também se fazia um unguento de alho moído no almofariz, misturado com «azeite de cagarro», para friccionar nos lugares doridos dos reumáticos e artríticos. Francisco Dolores (Mar.1996)
Bibl. Palhinha, R. T. (1966), Catálogo das Plantas Vasculares dos Açores, Lisboa, Sociedade de Estudos Açoreanos Afonso Chaves. Thierry, C. (s.d.), Plantas que curam. 2.ª ed., Lisboa, Biblioteca Agrícola.
