algas marinhas
A flora algal dos Açores apresenta posição intermédia entre as floras da região temperada euro-africana e da América tropical, com algumas afinidades menores com o Atlântico Norte (Feldmann 1946; Van den Hoek 1984, 1987; South e Tittley 1986; PrudHomme van Reine 1988; PrudHomme van Reine e Van den Hoek 1988, 1990; Tittley et al., 1990; Tittley e Neto in press). Estas afinidades com regiões geográficas bem distintas indicam uma flora mista resultante de um processo complexo de colonização.
As algas possuem estados planctónicos (esporos unicelulares ou zigotos), os quais terão provavelmente um papel importante na respectiva dispersão a longas distâncias, embora não existam evidências que o demonstrem. Por outro lado, é bem conhecido o papel desempenhado pelas macroalgas flutuantes no transporte de algas bentónicas (que vivem fixas a um determinado substrato). Woelkerling (1975) descreve vários epífitos de plantas flutuantes de Sargassum que são dessa forma transportados através de longas distâncias. Outros mecanismos de transporte são objectos flutuantes (barcos, troncos, plásticos, entre outros) e mesmo outros organismos (carapaças de tartarugas).
O primeiro trabalho de síntese sobre as algas dos Açores é de Schmidt (1931), o qual, com base nos trabalhos anteriores (Seubert 1844; Droüet 1866; Agardh 1870; Piccone 1889; Trelease 1897; Sampaio 1904; Gain 1914; Schmidt 1929a, 1929b) e nas suas próprias observações, inventariou 129 espécies. A maioria das análises biogeográficas mencionadas acima baseou-se nesta lista de Schmidt, pelo que os vários autores consideraram a flora algal dos Açores como pobre em espécies. No entanto, trabalhos mais recentes, sobretudo das últimas décadas (Palminha 1957; Larkum 1960; Pryor 1967; Ardré et al. 1973, 1974; Fralick et al. 1985; Castro e Viegas 1987; Neto 1989, 1991a, 1991b, 1992; Athanasiadis 1990; Bullock et al. 1990; Fralick e Hehre 1990; Hawkins et al. 1990; Neto e Azevedo 1990; Neto e Baldwin 1990; Neto et al. 1991; Fredericq et al. 1992; Gil-Rodríguez e Haroun 1992; Athanasiadis e Tittley 1994; Tittley e Neto 1994; Neto e Tittley in press), têm elevado sucessivamente o número de espécies, o qual se cifra actualmente em 307 (Neto 1994).
As espécies já descritas distribuem-se pela zona das marés e zona sublitoral adjacente, até à profundidade compatível com a penetração da luz. A maior parte exibe formas erectas facilmente reconhecíveis, mas existem algumas espécies que desenvolvem outras formas, nomeadamente as de crosta, tipo esponja, ou então crescem na forma de um povoamento musciforme rasteiro, em que não é facil distinguir as várias espécies constituintes. Este tipo de povoamento é particularmente abundante na zona das marés e na sua composição as espécies mais comuns são: Cladophora spp. (Cladophoraceae); calcárias erectas (Corallinaceae); Chondracanthus acicularis (Gigartinaceae); Caulacanthus ustulatus (Caulacanthaceae); Ceramium spp. (Ceramiaceae); Chondria spp., Laurencia spp. e Polysiphonia spp. (Rhodomelaceae).
Apesar de se poderem considerar as macroalgas marinhas relativamente bem estudadas do ponto de vista taxonómico, o mesmo já não se pode afirmar no que se refere à sua biologia e à ecologia das respectivas comunidades. Esses estudos só muito recentemente se iniciaram, pelo que a emissão de opiniões sobre medidas a adoptar para a respectiva conservação passa pela realização de estudos aprofundados sobre a biologia das espécies envolvidas. De qualquer modo, é possível referir que o estado actual das comunidades litorais de macroalgas marinhas nos Açores não oferece preocupações de grande ordem.
Existem no litoral dos Açores representantes das três grandes divisões de algas marinhas:
Chlorophyta - Algas de cor verde, também designadas por algas verdes. Os pigmentos fotossintéticos englobam clorofilas a e b, carotenos e xantofilas e a substância de reserva é o amido. A parede celular é celulósica. Estão presentes vários graus de complexidade somática que vão desde o unicelular ao coenocítico, passando pelos colonial, filamentoso e membranoso. Até ao momento estão referidas para os Açores 48 espécies de algas verdes, distribuídas por 7 ordens e 12 famílias (Neto 1994). De entre as mais comuns e de mais fácil reconhecimento distinguem-se:
Ulva rigida (Ulvaceae) - talo verde foliáceo, muitas vezes lobado e ondulado, fixo ao substrato por um pé multicelular. A parede celular é espessa, o que está relacionado com o facto de estes organismos suportarem alguma dessecação quando estão emersos. As células são uninucleadas na folha, podendo ter vários núcleos no pé, e possuem um cloroplasto contendo um ou mais pirenóides. É uma alga anual, apresentando um ciclo de vida diplobiôntico com alternância de gerações isomórficas. Vive na zona litoral, desde a zona das marés até ao infralitoral.
Codium spp. (Codiaceae) - talo esponjoso verde-escuro, de estrutura multiaxial coenocítica. Os filamentos constituintes do talo terminam em utrículos mais ou menos longos com extremidades truncadas, arredondadas ou mucronadas, de acordo com a espécie. Este género abrange uma grande variedade morfológica que inclui nos Açores as seguintes formas: crosta aderente ao substrato (C. adhaerens); esponja verde-escura (C. elisabethae) e erecta (C. decorticatum e C. tomentosum). C. elisabethae foi descrito originalmente por Schmidt (1931) com base em exemplares dos Açores e considerada como espécie endémica. Actualmente já perdeu esse estatuto, uma vez que foi referido para o arquipélago da Madeira (ilha de Porto Santo) por Audiffred e Prudhomme van Reine (1985). Todas as espécies são perenes e apresentam um ciclo de vida haplobiôntico diplóide. Vivem na zona sublitoral até à profundidade compatível com a penetração da luz. Algumas espécies podem subir até ao limite inferior da zona das marés.
Phaeophyta - Algas de cor castanha, também designadas por algas castanhas, essencialmente marinhas e particularmente abundantes nas costas rochosas atlânticas mais frias. Os pigmentos fotossintéticos englobam clorofilas a e c, carotenos e xantofilas, incluindo fucoxantina. As substâncias de reserva são a laminarina e gotículas lipídicas. A parede celular contém celulose, algina e mucopolissacarídeos. A organização somática é mais complexa que nas algas verdes, estando ausentes as algas unicelulares e coloniais. O tipo morfológico mais simples é o filamentoso ramificado. A maior parte das algas castanhas exibe grande complexidade estrutural, possuindo órgãos semelhantes a folhas, caules e raízes. Até ao momento, estão referidas para os Açores 66 espécies, distribuídas por 9 ordens e 18 famílias (Neto 1994). De entre as mais comuns distinguem-se:
Halopteris scoparia (Stypocaulaceae) - talo castanho-esverdeado, até 15 cm de altura, compacto e áspero ao toque, fixo ao substrato por rizóides. Os eixos são ramificados em todas as direcções. É uma alga perene, apresentando um ciclo de vida diplobiôntico com alternância de gerações isomórficas. Vive na zona litoral, desde a zona das marés até ao infralitoral.
Dictyota spp. (Dictyotaceae) - talo erecto arbustivo, castanho, mas iridiscente em algumas espécies. Fixo ao substrato por um pé pequeno fibroso, apresenta ramificação predominantemente dicotómica. Algumas espécies possuem tufos de pêlos dispersos no talo. Este género inclui, nos Açores, várias espécies morfologicamente muito semelhantes (D. adnata, D. ciliata, D. dichotoma, D. implexa, D. liturata, D. cf. volubilis e D. menstrualis). Todas as espécies apresentam um ciclo de vida diplobiôntico com alternância de gerações isomórficas. Vivem na zona litoral, desde a zona das marés até ao infralitoral. As espécies da zona das marés ocorrem predominantemente nas poças ou enclaves, não suportando grandes períodos de exposição ao ar.
Padina pavonica (Dictyotaceae) - talo em forma de leque, fixo ao substrato por rizóides. A superfície da lâmina possui linhas sombreadas concêntricas bem distintas. É uma alga anual, apresentando um ciclo de vida diplobiôntico com alternância de gerações isomórficas. Vive na zona litoral, entre a primavera e o outono, desde a zona das marés até ao infralitoral.
Colpomenia sinuosa (Scytosiphonaceae) - talo globoso, oco, de cor castanho-amarelada, lobado ou irregularmente expandido. O ciclo de vida é diplobiôntico com alternância de gerações heteromórficas. Vive na zona litoral, desde a zona das marés até ao infralitoral.
Laminaria cf. ochroleuca (Laminariaceae) - talo castanho-claro, organizado em pé caule e lâmina. O ciclo de vida é diplobiôntico com alternância de gerações heteromórficas. Nos Açores, esta espécie foi colectada, unicamente, nos ilhéus das Formigas a cerca de 40 m de profundidade (Ardré et al. 1973).
Fucus spiralis (Fucaceae) (bodelha, fava-do-mar) - talo fixo por um pequeno disco e constituído por um caule curto que se divide dicotomicamente em lâminas com 1 a 3 cm de largura percorridas por uma nervura mediana. As extremidades das lâminas, simples ou bifurcadas, apresentam receptáculos, estruturas alargadas cobertas de pontuações, que encerram os conceptáculos ou estruturas reprodutoras. Esta espécie é monóica, bastando um indivíduo para desencadear o processo sexuado. É uma alga perene com um ciclo de vida haplobiôntico diplóide. Vive no horizonte superior da zona das marés, onde forma uma cintura bem definida.
Sargassum spp. (Sargassaceae) - talo castanho-claro, muito ramificado. As lâminas possuem nervura mediana e podem ser simples ou forcadas, filiformes ou oblongas e ter margens inteiras ou serrilhadas. A maior parte das espécies possui vesículas aéreas. As estruturas reprodutoras desenvolvem-se em receptáculos cilíndricos ou achatados (forcados ou não) e o ciclo de vida é haplobiôntico diplóide. Nos Açores, ocorrem várias espécies morfologicamente muito semelhantes (S. cymosum, S. desfontainesii, S. vulgare). Vivem na zona litoral, desde a zona das marés até ao infralitoral. As espécies da zona das marés ocorrem, predominantemente, nas poças ou enclaves, não suportando grandes períodos de exposição ao ar.
Rhodophyta - Algas de cor vermelha, também designadas por algas vermelhas, essencialmente marinhas e particularmente abundantes nos mares tropicais, onde podem atingir grandes profundidades. Os pigmentos fotossintéticos englobam clorofilas a e d, xantofilas, ficocianina, aloficocianina e ficoeritrina. A substância de reserva é um tipo específico de amido. A parede celular é celulósica, mas pode conter pectinas e xilanos. Em alguns géneros está revestida por uma camada mucilaginosa e outra gelatinosa e em outros géneros está calcificada. Estão presentes vários graus de complexidade somática que incluem algas unicelulares, coloniais, filamentosas, membranosas e cartilaginosas, sendo o tipo filamentoso predominante. A reprodução sexuada engloba o ciclo de vida típico desta divisão, diplobiôntico modificado com alternância de gerações e ocorrência de uma geração carposporófita que não ocorre nas outras divisões. As espécies que precipitam carbonato de cálcio são muito importantes na formação e manutenção dos recifes de coral. As espécies que produzem agares e carragininas são utilizadas industrialmente na indústria dos ficocolóides. Até ao momento estão referidas, para os Açores, 193 espécies, distribuídas por 12 ordens e 38 famílias (Neto 1994). De entre as mais comuns distinguem-se:
Porphyra spp. (Bangiaceae) (patinha) - talo rosa foliáceo, muitas vezes lobado e ondulado, exclusivo da zona das marés, onde cresce fixo a rochas ou outras algas, por um pé rizoidal. A parede celular é espessa, o que está relacionado com o facto de estes organismos suportarem alguma dessecação quando estão emersos. Este género inclui, nos Açores, duas espécies morfologicamente muito semelhantes (P. leucosticta e P. umbilicalis). Ambas as espécies são anuais.
Asparagopsis armata (Bonnemaisoniaceae) - talo rosa-pálido de contorno piramidal, irregularmente ramificado. Uns ramos são ramificados como o eixo principal, outros são mais pequenos e possuem espinhos recurvados que lembram uma farpa. É uma espécie anual, dióica, cujo ciclo de vida apresenta alternância de gerações heteromórficas. O esporófito é de pequenas dimensões e foi descrito originalmente como uma espécie diferente, Falkenbergia rufolanosa. A. armata vive na zona litoral, desde a zona das marés até ao infralitoral.
Gelidium spp. (Gelidiaceae) (cabelão) - talo arbustivo de pequeno tamanho, possuindo ramificação irregular. Nos Açores, ocorrem várias espécies (G. latifolium, G. microdon, G. pusillum e G. sesquipedale). G. microdon ocorre exclusivamente na zona das marés e foi utilizado comercialmente, nos Açores, na indústria do *agar-agar.
Pterocladia capillacea (Gelidiaceae) (musgo) - talo vermelho-escuro fixo ao substrato por rizóides e possuindo ramificação irregular. É uma espécie anual, cujo ciclo de vida possui alternância de gerações isomórficas. Vive na zona litoral, desde a zona das marés até ao infralitoral. Foi utilizada comercialmente, nos Açores, na indústria do *agar-agar.
Coralináceas (Corallinaceae) - algas com deposições calcárias na parede celular. Podem tomar duas formas: erectas e incrustantes. Das primeiras estão referidas para os Açores treze espécies distribuídas pelos géneros: Amphiroa, Corallina, Haliptilon e Jania. As formas incrustantes incluem doze espécies distribuídas pelos géneros Lithophyllum, Melobesia, Mesophyllum, Phymatolithon, Porolithon, Tenarea e Titanoderma. Há ainda a considerar o registo de Lithothamnion fóssil registado para a ilha de Santa Maria por Zbyszewski e Ferreira (1961).
Laurencia spp. (Rhodomelaceae) - talo erecto arbustivo de consistência firme, possuindo ramos cilíndricos ou comprimidos, de acordo com a espécie. Existem quatro espécies registadas para os Açores: L. hybrida, L. obtusa, L. pinnatifida e L. viridis. Vivem na zona litoral, desde a zona das marés até início do infralitoral. L. pinnatifida é utilizada pontualmente, nos Açores, como alimento. Ana Isabel Neto (Nov.1995)
Bibl. Agardh, I. G. (1870),
