álcool

Composto orgânico obtido mediante a destilação do vinho, ou de líquidos fermentados, conhecido por álcool etílico ou etanol, cuja fórmula química é C2H5OH. Na segunda metade do século xix, devido ao declínio da exportação da laranja, os Açores passaram por um período difícil, em especial S. Miguel e Terceira, por serem as ilhas que mais se dedicavam a esta actividade. Por este motivo foram feitos esforços para arranjar culturas alternativas, como foi o caso do tabaco, chá e ananás. Contudo, esse esforço não foi suficiente para suprir a falta dos laranjais, surgindo na altura outra cultura alternativa: a batata-doce (Ipomoea batatas), planta originária da América do Sul e largamente cultivada nas zonas tropicais. Como o mercado do Continente era ávido de álcool industrial, a cultura da batata-doce levou à construção, nos Açores, de cinco fábricas de álcool, duas na ilha Terceira e três na ilha de S. Miguel. A primeira foi instalada, em 1870, em Vale de Linhares, freguesia de S. Bento. Como os resultados dessa unidade fabril foram animadores, construiu-se em S. Miguel no ano de 1882 outra fábrica de álcool na Vila da Lagoa; dois anos mais tarde, em 1884, foi construída outra em S. Miguel, a destilaria de Santa Clara. Anos depois, em 1893, na freguesia das Lajes da ilha Terceira, é construída nova fábrica, e no ano a seguir (1894) na ilha de S. Miguel, na Vila da Ribeira Grande, foi instalada uma outra unidade industrial. No fim do século xix a totalidade da produção das cinco fábricas chegou a atingir os 10 milhões de litros.

Todas essas unidades tinham como matéria-prima principal a batata-doce. Também foram usados, naquela altura, como matérias-primas o milho, a cevada, o centeio, a aveia e a beterraba-sacarina, mesmo antes de se pensar na sua utilização para o fabrico de açúcar.

É este o contexto histórico que conduz ao grande incremento do fabrico do álcool nos Açores, sendo de realçar que, no fim do século passado, foi a cultura da batata-doce que mais contribuiu para a modernização da mesma indústria. Todo o álcool produzido nos Açores era colocado no Continente e Madeira, sendo utilizado no tratamento de vinhos.

Na Europa, a doença da filoxera atingiu gravemente as vinhas, tendo, como consequência imediata, provocado uma crise na produção de vinho.

A publicação do decreto de 14 de Junho de 1901 proibindo o emprego de álcool na preparação do vinho do Porto originou o declínio da tão próspera indústria do álcool.

Em Dezembro de 1902 formou-se a União das Fábricas Açoreanas de Álcool (UFAA), para melhor orientar a produção e colocação dos seus produtos, dentro dos preceitos legais que tinham sido impostos, cujo capital de 4000 contos englobava a participação das cinco empresas produtoras de álcool da Região, assim comparticipada: Sociedade de Santa Clara (32 %), 1280 contos; Fábrica de Destilação da Lagoa (28 %), 1120 contos; Nova Empresa Angrense de Destilação (20 %), 800 contos; Sociedade Ribeiragrandense (20 %), 800 contos. Em consequência das medidas tomadas, a UFAA encerrou três das cinco fábricas que geria, a fim de reduzir a capacidade para o quantitativo imposto pelo decreto (6 milhões de litros), mantendo-se a destilaria da Lagoa e tendo transformado a destilaria de Santa Clara em fábrica de açúcar de beterraba. Assim, a destilaria da Lagoa foi a única sobrevivente das cinco fábricas originais, tendo continuado a laborar a batata-doce, cereais e melaços, até ao ano de 1968, altura em que foi feita a primeira grande remodelação pela empresa francesa Speichim, sendo do tipo «Surfin» a qualidade do álcool final produzido. A partir desta data (1968), a única matéria-prima usada é o melaço proveniente da indústria do açúcar. Esta fábrica desempenhou no passado o papel de elemento regulador dos produtos agrícolas que, devido a circunstâncias acidentais, atingiam produções excessivas, sendo absorvidas pela fábrica.

Henrique Bensaúde, associado com Carlos Mayer, Salvador Azulay e José Jácome Correia, foi o fundador da fábrica da Lagoa, sendo os seus primeiros técnicos os engenheiros alemães Vendhausen e Hermann Wolff. Entre os restantes técnicos salientamos o eng. José Cordeiro, que se notabilizaria mais tarde no arranque da energia eléctrica em S. Miguel. A capacidade média de produção de álcool «Surfin» é de 10 000 l por dia, podendo, se necessário, produzir e armazenar 3 milhões de litros por ano; toda a produção de álcool da destilaria da Lagoa se destina exclusivamente aos mercados dos Açores, Madeira e do Continente.

A potência instalada é de 800 kva. Antes da remodelação de 1970, a mão-de-obra atingiu um máximo, durante a laboração, de 220 pessoas empregadas (efectivos e sazonais). Em 1996, empregava 25 funcionários. Armando Soares (Jun.1996)

Bibl. Castro, J. C. V. P. C. (1955), Da Beterraba [...] ao Açúcar. Boletim da Direcção-Geral dos Serviços Industriais, VII, 320-327. Nunes, J. A. P. (1956), O Regime Sacarino nos Açores. Dissertação para o concurso de chefe de serviço aberto no Diário do Governo da 2.ª série, n.° 226, de 24/09/56.