Albuquerque, Mateus de Andrade

(M. de A. A. Bettencourt) [N. Ponta Delgada, 9.2.1890 - m. ibid., 7.8.1974] Pensador, representa um dos mais felizes exemplos de ilustração pelo autodidactismo. Considerado, por quem melhor o conheceu, como uma personalidade introvertida, pouco propenso às glórias mundanas, viajou, ainda jovem, por vários países, incluindo a França e a Inglaterra, neles frequentando diversos cursos, mas sem nunca ter chegado a diplomar-se. Aprendeu alemão, russo, francês e inglês e dedicou-se, entre outras ciências, à química, à física, à matemática e à botânica. Atraído pela meditação filosófica e pelos problemas religiosos, pela reflexão epistemológica e pela lógica, deixou-nos alguns dos seus textos dispersos por revistas, cuja densidade especulativa está ainda por avaliar. Os artigos científicos publicados na Revista de Química Pura e Aplicada (Albuquerque, 1916a; 1916b; 1919), sobre a análise espectral de determinados metais e seus derivados - onde o autor avança com algumas teorias específicas, pessoais, sobre a estrutura intra-elementar ou molecular de determinados sais - e sobre a análise das afinidades residuais dos átomos (capacidade ultravalencial, de natureza eléctrica ou outra, que o átomo possui para combinar-se), deixam-nos a convicção de que, quer as experiências descritas, quer a teorização científica que oferecem, são resultados de práticas em laboratório. Registos de invulgar conhecimento sobre os desenvolvimentos da química e da física europeias na primeira metade do século xx, estes artigos demonstram a sua capacidade para a investigação em ciência, sendo de lamentar que as suas notáveis reflexões não tenham tido a projecção nacional que mereceriam.

Livre-pensador em ciência e em filosofia, este sábio contemporâneo, pouco conhecido entre os seus conterrâneos, foi, no entanto, acolhido pela Sociedade Filosófica da Inglaterra, de que foi um dos vice-presidentes até à sua morte, correspondendo-se com filósofos e cientistas estrangeiros, de vários países e de diversa proveniência intelectual, entre os quais se conta o filósofo neo-empirista, lógico e matemático, Bertrand Russel (1872-1970), cuja obra constitui uma das referências fundamentais dos seus escritos. A amizade que o ligava ao pensador inglês não o impediu de tecer críticas às suas teorias lógicas sobre o infinito (desenvolvidas por aquele em The Principles of Mathematics, 1903), chegando a opor-lhe uma concepção lógico-metafísica sobre aquela ideia e suas relações com o conceito de transfinito (Albuquerque, 1933c). Considerando que esta noção supõe a de infinito como sua condição lógica e metafísica, isto é, positiva (ou quantitativa) e absoluta (ou qualitativa), defende que, em última análise, a ideia que formamos do infinito e do transfinito é indicadora de uma Realidade, da máxima Existência e Actualidade (Albuquerque, 1933c: 407). O logicismo, que é uma das constantes do seu pensamento, é, aqui como em outros temas, orientado para um horizonte especulativo idealista, o que permite dizer que a sua reflexão filosófica não é, especificamente, nem neo-empirista, nem neopositivista, e tão-pouco realista ou idealista, stricto sensu, mas nasce do compromisso entre o formalismo lógico - patente no ideal da rigorização conceitual das noções filosóficas e na ideia, comum a Russel, de que a lógica é o fundamento, ou a estrutura, da filosofia (Albuquerque, 1933a: 98) - e o idealismo metafísico, segundo o qual o real admite uma dupla expressão concordante: objectiva e subjectiva. Assim, em gnosiologia, opta por uma perspectiva de validação dos aspectos qualitativos e ontológicos da percepção sensível, ao mesmo tempo que os reorienta para a sua avaliação transcendental superior, reconhecendo, em síntese última, a existência de uma unidade de explicação omnicompreensiva a partir da realidade transcendente do Espírito, que define como Unidade-Acção, a qual origina a fusão íntima de sensação, sentimento e ideia (Albuquerque, 1933a: 98). É no contexto deste idealismo racionalista, simultaneamente lógico e metafísico - por um lado antinominalista e, por outro, reconhecendo a eficácia categorial e representativa das noções, bem como a racionalidade do real -, que o pensador enfrenta o difícil problema da existência dos milagres (Albuquerque, 1993b), declarando-os possíveis. A natureza forma um todo racional e as suas leis, tidas por absolutas na sua forma e significação, são, no entanto, relativas a uma certa ordem de existência. A efectividade do milagre ocorreria por uma súbita transição de um determinado domínio de existência noutro: o desnivelamento ontológico, patente entre o absoluto da forma e da significação das leis, e a sua relação com as ordens de existência explicaria a ocorrência dos fenómenos extra-ordinários, mas admitindo o profundo mistério dessas ocorrências, vê nelas símbolos de uma superior intervenção no progresso da consciência humana, abrindo-a a universos de infinitas possibilidades. Manuel Cândido Pimentel (Dez.1996)

Obras principais: Albuquerque, M. A. (1916a), Sobre uma relação entre os espectros de absorção visíveis de alguns metais nos seus derivados MIVX’4 e (M2)VIX’6 (sais de sesquióxido). Revista de Química Pura e Aplicada, Porto (2), I, 5-8: 179-188 [artigo datado de Ponta Delgada, 29 de Março de 1913; foi posteriormente publicado em separata (1916) da Revista de Química Pura e Aplicada, Porto, Tip. da Enciclopédia Portuguesa Ilustrada]. Id. (1916b), Oleatos e estearatos (sabões) de alguns metais. Ibid., Porto (2), I, 11-12: 364-367 [artigo datado de Ponta Delgada, 28 de Outubro de 1916; foi posteriormente publicado em separata (1917) da Revista de Química Pura e Aplicada, Porto, Tip. da Enciclopédia Portuguesa]. Id. (1919), A afinidade residual. Ibid., Porto (2), IV, 5-9: 233-246 [o autor assinou o artigo: Mateus de Albuquerque, datado de Ponta Delgada, Outubro-Novembro de 1917; a revista fez separata (1920), Porto, Tip. da Enciclopédia Portuguesa]. Id. (1933a), O que é Epistemologia. O Instituto, Coimbra, 85: 93-98. Id., (1933b), Milagres, a sua possibilidade de existência e seu significado: a propósito de um tópico momentoso da filosofia moderna das religiões. Ibid.: 270-274. Id. (1933c), Infinito e transfinito (análise e crítica). Ibid.: 404-408. Id. (1933d), Esboços de Filosofia. Sep. de O Instituto, Coimbra, Imp. da Universidade [reúne, pela mesma ordem, o conjunto dos textos publicados no vol. 85 daquela revista, acima referenciados, com a diferença de que a separata, contrariamente à revista, não menciona as datas de redacção dos textos, exceptuando-se o último, datado de Ponta Delgada, 26 de Outubro de 1931; os dois primeiros têm a data de 10 e 2 de Março de 1931, respectivamente].

 

Bibl. Barbosa, A. C. B. (1977-78), Mateus de Andrade Albuquerque de Bettencourt. Insulana, Ponta Delgada, 33-34: 5-14. Carvalho, R. G. (1955), Contribuição dos Açores para a História da Filosofia Portuguesa. Sep. da Revista Portuguesa de Filosofia, Braga: 17-18.