albergues

Conjuntamente com os recolhimentos e asilos, foram criados também alguns albergues para prestar assistência aos mais necessitados. Numa primeira fase, foram os particulares que, através de doações, tomaram a iniciativa, mas o Estado, em 1940, com o decreto n.º 30 389, tomou medidas nacionais que visavam pôr cobro ao crescimento constante de mendigos e de pobres que vagueavam pelas cidades. De acordo com o decreto, foi determinada a criação de albergues de mendicidade em todas as capitais de distrito, presididas pelo comandante da Polícia de Segurança Pública de cada uma delas. Estes albergues tinham como objectivo recolher indigentes, inválidos, desamparados, mendigos e, ainda, menores de 16 anos considerados em perigo moral. Estas instituições viveram sempre de doações de particulares, de receitas de festas de caridade, de contributos de organismos oficiais e, a partir de 1940, de percentagens das multas cobradas pela Polícia de Segurança Pública no respectivo distrito.

Em 1882, no seu testamento, Margarida Chaves (1804-84) doou vários bens à Câmara Municipal com o objectivo de ser criado um «Asylo ou Albergue Nocturno» em Ponta Delgada, para dar pousada aos que dela carecessem durante a noite. O albergue foi inaugurado em 1886, com capacidade para cerca de 50 pessoas, separadas por sexos, com direito a cama e roupas de agasalho. O albergue foi construído na antiga rua de Santo André, denominada, logo na altura, por rua Margarida Chaves. O rendimento das doações feitas acabou por se tornar insuficiente para manter a instituição que atendia um número elevado de utentes. Por exemplo, em Agosto de 1921, pernoitaram no albergue cerca de 3000 pessoas: 1195 mendigos, 1401 trabalhadores, 335 viajantes e 44 estrangeiros. Foram servidas ceias a 1426 pessoas. Para ultrapassar a difícil situação do albergue, este ficou agregado à Caixa Económica Micaelense, por volta de 1930, numa conjuntura de crise que gerou um aumento significativo do número de pedintes em Ponta Delgada. Em 1932, o Albergue Nocturno continuou a ser o mais procurado a nível do país. Neste ano, os albergues de todo o continente português socorreram 16 824 pessoas e o de Ponta Delgada alojou 12 988, das quais 4449 eram do sexo feminino. Em 1942, começou a funcionar o Albergue Distrital de Ponta Delgada, na Fajã de Cima, dirigido pela Polícia. No Faial, foi fundado um Albergue Nocturno, em 1908, por iniciativa de Maria Cristina de Arriaga, que durou pouco tempo. Em 1936, por iniciativa da Junta Geral do Distrito, foi fundado um outro Albergue Nocturno que recebia a população rural do Faial e Pico, quando se deslocava à cidade e necessitava de aí pernoitar. Com a criação do Albergue Distrital de Mendicidade, em 1941, aquele deixou de funcionar, passando a Polícia a controlar a nova instituição. Em Angra do Heroísmo, foi fundado um Albergue Nocturno para recolher pessoas da cidade ou do campo, durante a noite, na década de 20, na rua do Castelinho, no Corpo Santo, por iniciativa particular. A necessidade de encontrar instalações sempre adequadas às carências crescentes de cada momento levou a que fosse mudado para outros locais: rua da Memória (1938), rua do Cruzeiro (1950), para um edifício doado pela primeira médica terceirense, Maria Teodora Pimentel, e para o pico da Urze (1968). Carlos Enes (Nov.1995)

Bibl. Arquivo dos Açores (1981), Ponta Delgada, VII. Dias, U. M. (1940), A assistência pública no distrito de Ponta Delgada. Vila Franca do Campo, Emp. Tip. Lda. Lima, M. (1943), Anais do Município da Horta. Famalicão, Of. Minerva. Merelim, P. (1974), As 18 paróquias de Angra. Angra do Heroísmo, Tip. Minerva.