águas-vivas

Nome comum para um acalefa do oceano, frequente nos Açores, que dá uma picada muito dolorosa. Pelagia noctiluca tem o corpo em forma de umbela ou sombrinha hemisférica, quase todo transparente, que mede até cerca de 65 mm de diâmetro, mas muitas vezes é mais pequeno, levemente achatado no topo, com o bordo recortado; por baixo está pendurado um tubo bocal, do qual saem quatro longos braços bocais com folhos laterais. À volta do bordo da umbela há oito tentáculos mais estreitos mas protuberantes. A umbela e os braços bocais são salpicados de protuberâncias características vermelhas, cor de malva, azuis, ou por vezes castanhas, dando a cor predominante ao animal. Tanto estas estruturas como os tentáculos estão ricamente guarnecidos com cápsulas urticantes, venenosas, apetrechadas com um ferrão, ou nematocistos (=cnidae), que ao contacto podem injectar toxinas na presa e, de uma maneira muito dolorosa, na pele humana. As lesões da Pelagia não são um perigo para a vida, mas podem ocorrer erupções cutâneas graves e necrose dos tecidos locais, com o consequente perigo de infecção e de cicatrizes permanentes. Os tecidos aderentes, se possível, devem ser banhados com vinagre antes de serem retirados, para inactivar quaisquer cápsulas residuais não descarregadas. As lesões venenosas mais sérias devem receber cuidados médicos.

A Pelagia noctiluca é uma das poucas medusas que completam o seu ciclo de vida no plâncton, enquanto a maior parte das outras passam por uma fase obrigatória de vida no fundo do mar. Podem portanto aparecer em pleno oceano, longe da terra, à superfície de águas demasiadamente profundas para a maior parte das espécies, em enormes quantidades, à deriva, tipicamente logo abaixo da superfície, dispersas por centenas de quilómetros. Esta espécie, bem como outras de aspecto semelhante, aparecem em águas temperadas e tropicais, em todo o mundo, sendo os Açores e o mar Mediterrâneo, aproximadamente, o limite norte da sua área de distribuição geográfica típica, embora algumas espécies derivem, ocasionalmente, para norte até à Islândia.

Ver também a muito venenosa caravela-portuguesa (Physalis physalis) a que os ingleses chamam Portuguese man-of-war, e o inofensivo veleiro (Velella velella) que flutuam à superfície. P. F. S. Cornelius (Mai.1996) [Trad. Maria Clarisse Santos]

Bibl. Goy, J. (1985), Table Ronde: Pelagia noctiluca (scyphoméduse) en Mediterranée. Rapports et communications internationales de la Mer Méditerranée: 29, 9: 203-208. Russell, F. S. (1964), On scyphomedusae of the genus Pelagia. Journal of the Marine Biological Association of the United Kingdom, 44: 133-136. Id. (1970), The medusae of the British Isles, vol. 2: Pelagic Scyphozoa with a supplement to the first volume on hydromedusae. Cambridge, Cambridge University Press: xii, 284. United Nations Environment Programme (1984), Workshop on jellyfish blooms in the Mediterranean. Atenas, UNEP: xv, 217. Id. (1991), Jellyfish blooms in the Mediterranean (Proceedings of the II workshop on jellyfish in the Mediterranean Sea). MAP Technical Reports Series, Atenas, 47: xi, 320.