água do mar
Também conhecida por água dos oceanos, é considerada como uma solução de água pura que contém muitos sais e vários gases dissolvidos (Groves e Hunt, 1980; Nybakken, 1982). Segundo Groves e Hunt (1980), os constituintes da água do mar são, essencialmente, de três tipos: (1) os componentes dissolvidos, tais como os sais, compostos orgânicos e gases; (2) os componentes de segunda fase, como as bolhas de gás, e (3) os sólidos orgânicos e inorgânicos não dissolvidos.
A capacidade da água do mar para dissolver grandes quantidades de sólidos e gases sem reagir, quimicamente, com eles é uma das suas propriedades mais importantes. Os constituintes dissolvidos estão presentes na água do mar em quantidades variáveis e o carácter de muitas das substâncias encontradas pode variar com a localização geográfica. As substâncias podem variar também com o tempo e a profundidade num dado local. Por outro lado, a composição dos principais constituintes da água do mar varia numa faixa muito estreita de valores. Esta variação estreita, uniforme, resulta da circulação e mistura oceânica. Como consequência, as percentagens entre os constituintes mais abundantes são, praticamente, constantes, não obstante a concentração absoluta total dos sólidos. Por esta razão, a concentração dos constituintes maiores pode ser quantificada como uma variável única, a salinidade que exprime a quantidade total de material dissolvido e é expressa, geralmente, em partes por milhão.
A salinidade das diferentes partes do oceano, ao largo das costas, varia entre limites estreitos, geralmente, de 34 por milhão a 37 por milhão, em média 35 por milhão. Estas diferenças na salinidade são devidas a diferenças na evaporação e precipitação. Nas áreas junto às costas e nos mares parcialmente fechados, a variação da salinidade é maior e pode ser próxima de 0 onde houver descargas de água doce.
A salinidade da água do mar, à superfície, na região dos Açores, segundo o Instituto Hidrográfico (1981), varia entre 35,9 e 36,5 (g de sal por kg de água do mar). Ainda segundo o mesmo Instituto, os valores médios mensais da salinidade da água do mar à superfície e anuais em profundidade, na área do grupo central, são os constantes dos quadros 1 e 2, respectivamente.
O oxigénio e o dióxido de carbono são dois dos gases dissolvidos na água do mar. Todavia, a solubilidade destes gases não é grande. Por exemplo, a água do mar a 0°C de temperatura e 35 por milhão de salinidade contém cerca de 8 ml/l de oxigénio. A do oxigénio é função da temperatura, isto é, quanto mais baixa for a temperatura da água, maior será a quantidade de oxigénio que ela poderá suportar. A razão pela qual a água do oceano profundo não se torna carente em oxigénio, devido à actividade biológica, prende-se com o afundamento da água superficial que suporta uma quantidade máxima de oxigénio, superior àquela que pode ser consumida pelas populações de profundidade, limitadas em número de indivíduos. Mais, o oxigénio não é distribuído de modo uniforme com a profundidade, em todo o oceano. Um perfil vertical típico do conteúdo em oxigénio mostra uma quantidade máxima nos primeiros 10 a 20 m, onde a actividade fotossintética das plantas e a difusão da atmosfera conduz, muitas vezes, à supersaturação e declínio com o aumento da profundidade. Nos Açores, cruzeiros do Instituto Nacional de Investigação das Pescas verificaram, em 1985, que os valores médios de oxigénio sofreram um ligeiro aumento aos 10 m, atingindo 8,14 mg/l, e decresceram, gradualmente, a partir desta profundidade até ao valor de 7,78 mg/l, aos 100 m.
A solubilidade do dióxido de carbono é algo diferente da do oxigénio, embora ele reaja, quimicamente, na água. O dióxido de carbono é abundante, sob a forma de carbonatos e de bicarbonatos, na água do mar e esta tem uma capacidade considerável para absorver este gás. Isto acontece porque o dióxido de carbono, depois de entrar na água do mar, reage com esta para produzir ácido carbónico. O conteúdo de dióxido de carbono determina, principalmente, o seu pH que, próximo da superfície, varia entre 8,1 e 8,3, conforme a pressão deste gás na atmosfera.
A temperatura do oceano varia tanto na horizontal como em profundidade. A distribuição vertical da temperatura mostra uma diminuição com a profundidade. Geralmente, existe uma camada de mistura de água isotérmica abaixo da superfície onde a temperatura é idêntica à da superfície. Abaixo desta camada está uma região de diminuição rápida da temperatura, chamada termoclina, onde aquela cai para valores idênticos aos da água do oceano profundo. Na região dos Açores, segundo Bettencourt (1972), a profundidade da termoclina deve oscilar entre 30 e 60 m, no Verão, e deve ser superior a 120 m durante o Inverno. Cruzeiros do Instituto Nacional de Investigação das Pescas (1985) verificaram decréscimos graduais da temperatura da ordem de - 0,7°C/100 m, entre os 100 e os 1200 m, e de - 0,4°C/100 m, a partir dos 1200 m (valores entre 6,6°C e 4,9°C).
Segundo o Instituto Hidrográfico (1981), na área do grupo central do arquipélago dos Açores, os valores médios mensais da temperatura da água do mar à superfície e os valores médios anuais a diferentes profundidades são os que constam dos quadros 3 e 4, respectivamente.
No arquipélago, a variação anual da temperatura da água do mar é da ordem dos 8°C; os valores diários situam-se por vezes 3°C acima ou abaixo da média mensal. Os valores mínimos observados rondam os 13°C em Março, enquanto os valores máximos são de cerca de 25°C em Agosto/Setembro (Instituto Hidrográfico, 1981).
A cor da água do mar varia muito com o lugar. Nos Açores, segundo o Instituto Hidrográfico (1981), a água é de cor azul misturada de verde. Ao largo, são comuns sombras de azul. Isto acontece devido à dispersão da luz solar por partículas em suspensão na água, ou por moléculas da própria água. Por causa do seu comprimento de onda curto, a luz azul é espalhada com mais eficiência do que a luz de comprimento de onda mais longo e o oceano aparece azul pela mesma razão que o céu. A cor verde que se observa muitas vezes junto à costa é uma mistura do azul devido à dispersão da luz e de um pigmento amarelo, solúvel, estável, associado com o fitoplâncton. Luís M. Arruda (Nov.1996)
Bibl. Bettencourt, M. L. (1972), A pesca do atum e alguns aspectos da interacção oceano atmosfera na região dos Açores. Lisboa, Serviço Meteorológico Nacional. Groves, D. G. e Hunt, L. M. (1980), Ocean world encyclopedia. Nova Iorque, McGraw-Hill Book Company. Instituto Hidrográfico (1981), Roteiro do Arquipélago dos Açores. Lisboa: 2-28-2-30. Instituto Nacional de Investigação das Pescas (1985), Programa de apoio às pescas nos Açores. Cruzeiros 020150480, 021180780, 020290581 e 020310781. Relatórios do Instituto Nacional de Investigação das Pescas, Lisboa, 42. Nybakken, J. W. (1982), Marine Biology: An ecological approach, Nova Iorque, Harper & Row Publishers.
Grupo Central dos Açores. Valores médios, mensais, da salinidade à superfície. Fonte: Instituto Hidrográfico, 1981.
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Mês |
Jan. |
Fev. |
Mar. |
Abr. |
Mai. |
Jun. |
Jul. |
Ago. |
Set. |
Out. |
Nov. |
Dez. |
Média |
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Salinidade (%) |
36.06 |
36.04 |
36.03 |
36.03 |
36.05 |
36.07 |
36.10 |
36.12 |
36.13 |
36.11 |
36.10 |
36.07 |
36.08 |
Quadro 2 - Valores médios, anuais, da salinidade em profundidade. Fonte: Instituto Hidrográfico, 1981.
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Profundidade (m) |
0 |
150 |
200 |
300 |
400 |
600 |
800 |
1000 |
1500 |
2000 |
|
Salinidade (%) |
36.08 |
36.05 |
35.92 |
35.79 |
35.67 |
35.48 |
35.38 |
35.30 |
35.12 |
35.00 |
