agricultura
PRINCIPAIS CULTURAS Ao longo da sua história, os agricultores dos Açores, para além de procurarem sempre garantir o seu auto-abastecimento, preocupavam-se em tirar o máximo partido de outras culturas, cujo destino final era a exportação e que geralmente tiveram por motivo interesses exteriores ao arquipélago. A esse propósito recordamos que não eram os produtores açorianos que levavam e vendiam o vinho e os citrinos à longínqua Rússia, no primeiro caso, ou à Inglaterra, no segundo, mas sim esses países que os vinham comprar às nossas ilhas.
Foi assim que surgiram os vários períodos monoculturais, encontrando-se a nossa agricultura hoje a viver mais um desses períodos, o designado por «monocultura da vaca», onde a principal actividade é a agro-pecuária.
Assim, são as pastagens e as culturas forrageiras que ocupam a maior parte da superfície agrícola do arquipélago, restando duas pequenas parcelas para a área das culturas aráveis e para as culturas permanentes, com cerca de 8 % e de 3 %, respectivamente (DREPA - 1995). Este desequilíbrio tem provocado e é responsável em parte pelo aumento das importações, para o abastecimento dos mercados dos maiores centros populacionais, de muitos produtos que tradicionalmente eram obtidos pelos nossos agricultores.
Muito embora se disponha de solos com boas características edáficas, Azevedo (1958 e 1963), Pinto et al. (1977), Madeira (1981), Medina e Grilo (1981), Pinheiro (1990) e Forjaz Sampaio e Cordeiro (1992), e de boas condições climáticas, Agostinho (1938, 1941, 1942 e 1945), Bettencourt (1979), só agora se começa a equacionar uma estratégia abrangente, ponderando todas as soluções encontradas para ultrapassar os diversos estrangulamentos, há muito conhecidos e que se opõem ao desenvolvimento do mais importante sector económico desta Região Autónoma. Resumidamente, falta formação profissional adequada e apoio técnico efectivo aos agricultores, a criação de medidas financeiras de incentivo aos investimentos reprodutivos, transportes aéreos e marítimos em idênticas condições de qualidade e preços, dos que são oferecidos aos produtores de outros países e com quem temos que competir, estudos de mercado, promoção dos produtos regionais e criação, nos mercados eleitos, de entrepostos comerciais.
A nível dos cereais, o milho, Zea mays, representa praticamente o único que ainda hoje é cultivado, com reduzida expressão quando se destina à alimentação humana e em grandes áreas, quando é cultivado e transformado em silagem para o gado de modo a fazer face aos períodos de carência alimentar.
Das leguminosas, a fava, Vicia faba, é a cultura mais importante deste grupo de plantas. Para além de se encontrar perfeitamente bem adaptada às nossas condições edafo-climáticas, geralmente desfavoráveis para a maior parte das culturas durante o Inverno, as suas exigências culturais são bem conhecidas dos nossos agricultores. Depois de seca, uma boa parte da produção é exportada para os Estados Unidos da América. O seu interesse mantém-se e a área a cultivar poderá aumentar face às boas perspectivas de exportação para o Japão.
Outras duas culturas importantes são a do inhame, Colocasia esculenta (Araceae), e a da malagueta picante, Capsicum annum (Solanaceae), visto permanecer o interesse pela exportação, igualmente para os Estados Unidos da América.
Com algumas oscilações em relação às áreas, as culturas para fins industrais, tabaco, Nicotiana tabacum (Solanaceae), beterraba, Beta vulgaris (Chenopodiaceae), chicória, Cichorium endivia (Asteraceae) e chá, Camellia sinensis (Theaceae), continuam a manter a sua importância económica, interesse na rotação cultural e como alternativa aos prados temporários, especialmente nas zonas litorais de baixa altitude.
Na fruticultura o ananás, Ananas comosus (Bromeliaceae), produzido em estufas de vidro, continua a ocupar um lugar destacado quanto ao valor da sua produção e é, de momento, o único produto deste subsector que os Açores enviam para o exterior. Os citrinos, com destaque para a laranja, Citrus sinensis (Rutaceae), ocupam o primeiro lugar a nível do mercado interno, seguindo-se a cultura do maracujá, Passiflora edulis (Passifloraceae), que continua a aumentar, pois, quer o licor quer o concentrado, produzidos a partir da sua polpa, têm tido boa aceitação no mercado local, Madeira e Continente.
As produções da bananeira-anã, Musa cavendish (Musaceae), e da anoneira, Annona cherimola (Anonaceae), mantêm abastecido o mercado regional. Em relação a este último fruto, os produtores pretendem aumentar a sua área de cultura, de modo a reactivar o envio para o Continente. Cresce também o interesse pela cultura do capucho, Physalis peruviana (Solanaceae), dadas as possibilidades que surgem nos mercados local, continental e no estrangeiro, quer para consumo em fresco quer na forma de compota.
Outras fruteiras com características mais subtropicais como o abacate, Persea americana (Lauraceae), e a mangueira, Mangifera indica (Anacardiaceae), estão a ser estudadas, apontando-se já bons sucessos para algumas variedades. Uma família que aparece muito bem representada nos Açores é a das Mirtáceas. É frequente encontrarmos nos pequenos pomares de consumo familiar, localizados nas traseiras das casas e conhecidos por quintal ou aposento, goiabeiras Psidium guayaba, araçaleiros amarelos, Psidium guineense e vermelhos, Psidium cattleyanum, jambeiros Syzygium jambos, feijoa Acca sellowiana, e muito raramente exemplares de pitanga Eugenia uniflora e jabuticaba Myrciaria cauliflora, esta última espécie com a particularidade de produzir duas vezes por ano.
Das fruteiras de clima continental são de salientar, nas zonas mais altas, as pomóideas e prunóideas e nas zonas litorais, mais secas e com solos menos evoluídos, a figueira, Ficus carica (Moraceae), a nespereira, Eriobotrya japonica (Rosaceae), e a vinha, Vita vinifera.
Como frutos secos existe a castanha, proveniente dos castanheiros europeus, japoneses e dos seus híbridos, mas neste momento, à semelhança do que se verifica na Europa, os castanheiros, Castanae sativa (Fagaceae) têm sido atacados por várias doenças. Muito embora sem grande significado, existem várias árvores de pecana, Carya ellionensis (Juglandaceae), e macadamia, Macadamia tetraphyla e Macadamia integrifolia (Proteaceae), que necessitam ser estudadas a nível de novas variedades e técnicas culturais.
Na floricultura, o volume das produções de flores de corte obtidas em algumas culturas, nomeadamente no caso da estrelícia, Strelizia reginae (Musaceae), e do ornitógalo, Ornithogalum thyrsoides (Liliaceae), ultrapassam as necessidades do mercado regional e só as dificuldades surgidas para a sua exportação têm travado o seu crescimento. Contudo, os produtores já iniciaram a plantação de várias espécies da família das próteas, Proteas, Leucadendron, Leucospermum e Banksia (Proteaceae), não só para a produção de flores como de ramagens e cuja área de plantação deverá ultrapassar 40 ha em 1998.
Das plantas ornamentais, existem vários viveiristas que satisfazem plenamente o nosso mercado. Quanto à sua exportação, a maior produção é de camélias, Camellia japonica (Theaceae), e de S. reginae.
Nos últimos anos intensificou-se a exportação de flores, folhas e ramagens secas, especialmente de hortênsias, Hydrangea macrophylla (Hydrangeaceae), e de banksia, Banksia integrifolia (Proteaceae), e começam já a surgir as primeiras plantações ordenadas. Prevê-se ultrapassar em 1997 a comercialização de um milhão de unidades.
Referência especial merecem vários açorianos, que em meados do século passado introduziram mais de 3000 espécies, para diversas utilizações e que se encontram recordados numa publicação de J. Corrêa (1915). João M. P. F. Sampaio (Fev.1997)
AGRIMENSURA O isolamento das ilhas dos Açores e a influência de outras culturas, ao longo da sua história, levou a que se adoptassem formas arcaicas, adaptadas ou originais, de medição de culturas agrícolas.
Durante séculos, os comprimentos agrícolas foram avaliados em vara (pau-padrão de dimensão idêntica a metade da distância compreendida entre as mãos de dois braços, ou entre dois punhos correspondendo a 1,10 m). Mais recentemente, devido à influência britânica e americana na ilha Terceira, alguns comprimentos agrícolas passaram a ser avaliados em jarda, polegada e pé (0,91 m; 2,56 cm e 30 cm, respectivamente).
A adopção da vara como unidade de comprimento levou a que a avaliação da área agrícola se fizesse através de uma unidade derivada desta, o alqueire de terra (área agrícola de 800 vara quadrada, ou seja, aproximadamente 968 m2). Dada a discrepância entre os comprimentos das vara-padrão em cada ilha dos Açores, encontram-se valores distintos de alqueire de terra denominados de alqueire de terra de vara pequena (968 m2) e alqueire de terra de vara grande (1392 m2). O alqueire de terra possui como múltiplo o moio de terra (60 alqueires de terra) e como submúltiplos o meio alqueire de terra, a quarta de terra (um quarto do alqueire de terra) e a meia quarta de terra (um oitavo do alqueire de terra).
A avaliação de volumes de semeadura segue também uma lógica resultante da adopção das unidades anteriores a que também se chama alqueire (volume de semeadura necessário para cultivar um alqueire de terra, cujo valor varia um pouco de ilha para ilha e está compreendido entre 13,8 l e 20 l). O alqueire possui como múltiplos o saco de semeadura (6 alqueires) e o moio (60 alqueires). Como submúltiplos possui o meio alqueire, a quarta (um quarto de alqueire) e a meia quarta (um oitavo do alqueire).
Para avaliar volumes de líquidos como o vinho, é comum utilizar-se a canada, cujo valor está compreendido entre os 2 l e os 2,2 l, o pote (5 canadas), o quartilho (um quarto de litro), o quarteirão (um oitavo de litro), o barril de quinto (100 l), a barrica (250 l), a pipa (440 l), a meia-pipa (220 l), o quinto (99 l), ou ainda, muito recentemente, o galão americano (5 l) ou o galão canadiano (4 l), estas últimas unidades, devidas à influência do regresso às ilhas de luso-americanos e luso-canadianos.
As massas das produções agrícolas eram e ainda são avaliadas por uma correspondência nítida entre o volume das produções e as quantidades de substância que as compõe; assim um cesto redondo de milho corresponde a aproximadamente 30 kg e uma ceve de vime são 30 cestos de milho (900 kg). Também se usa a ceve de «esterco», como o volume de 30 cestos de estrume.
A massa de secos segue a seguinte relação: um alqueire de milho são 10 kg, um alqueire de feijão são 12 kg, um alqueire de tremoço são 11 kg, um alqueire de cevada são 6 kg, um alqueire de trevo bolota são 1,5 kg e um alqueire de erva da casta são 3 kg. Félix Rodrigues (Mar.1996)
ECONOMIA AGRÍCOLA Na época da colonização dos Açores, a forma de pagamento em espécie para foros e rendas era corrente, mas, nos Açores, prolongou-se por muito tempo, o que se justifica pela extrema descapitalização a que a população destas ilhas estava sujeita.
A espécie variava de ilha para ilha, consoante os desejos de donatários e capitães-gerais. O trigo era mais habitual, mas para o Pico foi o vinho o mais importante e no Corvo faziam-se pagamentos em lã, tecidos de lã e trigo.
Estas formas de pagamento tiveram grande influência na agricultura açoriana. Assim, a introdução da cultura do milho só foi possível quando cessou a necessidade urgente de cultivar o trigo para os pagamentos. Por vezes, a totalidade da produção era absorvida, sendo necessário implorar que ficasse ao menos a quantidade indispensável para as sementeiras.
A pequena ilha do Corvo, com pouco mais de 17 km2, pagava à Coroa 40 moios de trigo e 800 varas de pano de lã, números quase inacreditáveis que constam duma petição, pedindo clemência ao capitão-geral dos Açores D. António de Almada. Quando cessaram nesta ilha os pagamentos em tecidos de lã, as ovelhas foram gradualmente substituídas por vacas. Os pagamentos excessivos em trigo estiveram na base das grandes fomes que assolaram este arquipélago. A população viu-se forçada a fazer pão de «baga de junça», rizomas de «feto de cabelinho» e outros produtos ainda hoje guardados na memória do povo. A troca directa foi também corrente, não só dentro de cada ilha, como entre ilhas, por vezes bem afastadas como o Corvo e a Terceira, por exemplo, facto assinalado por Gaspar Frutuoso e António Cordeiro. Embora em escala reduzida, a troca directa ainda hoje não está totalmente desaparecida, havendo trocas de peixe por milho ou entregando-se nas vendas ou nas cantinas que vêm proliferando, ovos e outros produtos frescos para se conseguir adquirir açúcar, chá ou café.
Existiram outrora largas áreas exploradas em regime de parceria, no grupo central. Era a forma típica de exploração da terra dos proprietários que não possuíam gado. Estabeleciam um acordo com os lavradores. Os donos do gado faziam as lavouras e semeavam os «outonos» que o seu gado pastava. No fim do Inverno, o lavrador voltava a lavrar e o proprietário da terra semeava cereais ou outras culturas, que arrecadava. No Outono o lavrador voltava a ocupar a terra. Hoje, esta forma peculiar de parceria desapareceu e as lavouras passaram a ser feitas com tractores.
A exploração «a meias» ainda subsiste, embora não haja uma forma de contrato geral, mas acordos verbais para cada caso.
No momento actual, as formas de exploração da terra que têm realmente significado nos Açores são a «conta própria» e o «arrendamento». O «arrendamento» é predominante em S. Miguel, onde cerca de 30 % das explorações são exclusivamente em terra arrendada. Em S. Jorge, 60 % das explorações assumem forma mista de «conta própria» e «arrendamento». Nas ilhas Terceira, Pico e Graciosa, mais de 50 % das explorações são exclusivamente de «conta própria».
Há ainda a considerar as áreas sob a administração da Direcção Regional dos Recursos Florestais, os baldios de outrora, cuja ocupação pelo Estado originou longas lutas que fazem parte da história destas ilhas. No total da região, excluída a ilha do Corvo, esta área é de 232 073 ha, tendo a sua maior expressão na Terceira, onde a Direcção Regional dos Serviços Florestais mantém sob a sua administração uma área de 7152 ha, sendo logo seguida pelo Pico com 6810 ha e as Flores com 6501 ha, que representam quase metade desta ilha.
O Corvo conseguiu recuperar a exploração de 535 ha de baldio como pastagem colectiva com um Conselho de Administração do Baldio constituído por respeitados lavradores, como era tradicional naquela ilha. Raquel Costa e Silva (Nov.1995)
AGRO-INDÚSTRIAS As agro-indústrias começaram a florescer nos Açores especialmente a partir do início do século xx. As principais indústrias, no passado mais recente, foram as do tabaco, do açúcar, da chicória, dos lacticínios, do vinho, do chá e das madeiras.
Excepção feita à produção do leite, todas estas culturas têm vindo a sofrer reduções muito significativas. O estádio precário em que se encontravam no final da década de 80 levou a que Portugal propusesse e que a União Europeia tenha aceite, em 1992, um programa de apoio a algumas destas culturas. Este programa, com um âmbito mais alargado, veio a designar-se por POSEIMA. O mesmo conceito foi aplicado em outras regiões da União Europeia classificadas como ultraperiféricas, onde se inclui, para além dos Açores, a Madeira, as Canárias e os territórios ultramarinos franceses. São exemplos o caso do tabaco e da beterraba para produção de açúcar, para referir apenas os mais importantes. A produção de chicória, de chá e de uvas em algumas ilhas tem também vindo a ser objecto de ajudas. No caso da uva tem vindo a incentivar-se o desaparecimento e substituição da casta americana, tradicionalmente cultivada nos Açores, dada a sua associação a uma possível incidência mais significativa de determinadas doenças nos seus consumidores. A produção de leite é também objecto de apoios da União Europeia, uns estritamente no âmbito da Política Agrícola Comum, outros por via do POSEIMA.
O quadro 1 caracteriza a distribuição da terra pelos seus diversos usos e o número de explorações, para os anos de 1985 e 1989. Note-se a diminuição registada na área de terras aráveis.
O número de explorações decresceu também de forma visível, embora a área total utilizada tenha aumentado, entre 1985 e 1989, acompanhando uma tendência de muitos anos de redução de activos no sector e aumento da área média de terra por cada exploração.
AGRO-PECUÁRIA A agro-pecuária constitui uma das principais actividades económicas do arquipélago. Segundo o recenseamento agrícola dos Açores de 1989, entre 1985 e 1989 verificou-se um incremento considerável desta actividade. Estes dados evidenciam uma tendência para a intensificação da actividade agro-pecuária quer por via do encabeçamento de bovinos, quer por via do crescimento da área de pastagens permanentes, quer ainda por via da área afecta a culturas forrageiras. Em conformidade com esta tendência a produção de leite veio sistematicamente a crescer. O número de vacas leiteiras aumentou, entre 1985 e 1989, de 69 057 para 78 132. O prosperar do efectivo leiteiro e as sucessivas melhorias na sua qualidade têm determinado um avanço contínuo da produção de leite e, consequentemente, de lacticínios. O quadro 2 retrata a evolução verificada na quantidade de leite entregue nas fábricas e na produção dos principais produtos lácteos.
Na ilha de S. Miguel concentra-se a maior parte (mais de 60 %) da produção de leite dos Açores.
Os bovinos criados com o propósito de produção de carne representam uma percentagem muito considerável do total dos animais. Em 1985 o rácio de vacas leiteiras para o total dos bovinos era de 43,06 %. Em 1989 esta percentagem mantinha-se nos 46,44 %.
A alimentação dos animais baseia-se, fundamentalmente, na erva cultivada, em pastagens permanentes, cuja área aumentou consideravelmente entre 1985 e 1989, passando de 85 579 para 100 996 ha. A utilização de forragens tem vindo também a constituir um recurso cada vez mais importante. A cultura principal utilizada para este efeito é o milho forrageiro. Mário Fortuna (Mai.1996)
PRÁTICAS E CRENÇAS RELIGIOSAS LIGADAS À AGRICULTURA O povoamento das ilhas dos Açores por «gente de fé católica» processou-se numa linha de espiritualidade medieval, em que o homem para todos os actos importantes da sua vida tomava Deus como ponto de referência, para a partida e chegada dos seus projectos e para o lançamento do seu futuro, sobremodo num projecto tão arrojado como seria então ocupar e povoar ilhas, longe da pátria e dos familiares, ficando entregue a si mesmo e aos condicionalismos geográficos do misterioso Atlântico. Assim, há notícias históricas, que a tradição recolheu, da primeira Missa de Acção de Graças pela entrada na ilha, com a bênção de sacralização da terra a cultivar e de esconjura do maligno, dos campos, com votos a Deus e à Virgem concretizados em modestos templos para acolher os padroeiros, confiando-lhes o futuro e a sorte do povo.
A divindade esteve sempre ligada à terra. A vida dos campos sincronizou-se com a mística e a etnologia agrária demarcou a cultura sacra. O culto de certos santos desenvolveu-se de acordo com as necessidades físicas ou morais do homem, que a eles recorria. O calendário das sementeiras e das colheitas dos frutos da terra e das festas religiosas e diversões populares ficou marcado com as bênçãos rituais, o culto santoral e os votos e promessas aos santos protectores do homem, das colheitas e dos animais domésticos, nas diferentes estações do ano - Santos Populares do Verão, Santas Virgens do Outono, Santos Populares do Inverno e a Páscoa Florida.
A vida do homem das ilhas decorreu, nestes cinco séculos, fechada na ilha, em diálogo com o Céu e a Terra. As bênçãos sobre as pessoas, os alimentos, os frutos e a terra mater constituíram uma pedagogia capaz de instruir e educar o povo, tendo por fim tanto consagrar pessoas ou objectos ao serviço de Deus, como obter benefícios espirituais ou temporais. Júlio da Rosa (Fev.1996)
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