agregado rural
No sentido de «união, conjunto, reunião, ajuntamento de partes num todo» (Silva, 1949: 484-85), a expressão adequa-se ao mundo da arquitectura e do espaço rural para designar o conjunto formado pela «casa» propriamente dita com os restantes elementos de apoio ao habitat. Esse conjunto é que constitui o agregado. Não deve confundir-se com outra acepção, mais geral, que se refere aos «agregados populacionais», no sentido de um conjunto de núcleos urbanos ou aldeias. Cada agregado rural corresponde ao «lugar de vida» de uma família e constitui como que a unidade base da ocupação física e material da paisagem açórica. É formado pela casa (por vezes tradicionalmente ainda dissociada por sua vez em dois corpos, de «quartos» e «cozinha», nalgumas ilhas) com o seu forno de pão, o palheiro com os animais e o carro (e por vezes o moinho, a atafona), o sequeiro dos cereais e a cisterna da água. São estes os seus elementos constitutivos fundamentais, para abrigo, conforto, produção, armazenamento e sustento da vida familiar.
A organização destes elementos varia bastante, tendendo por exemplo em Santa Maria para um agregado «dissociado» em corpos construídos bastante dispersos (casa + curral/palheiro/calejão + sequeiro) e afastados entre si, passando pelo Faial, Flores e Graciosa, onde idêntico sistema dissociado é apesar disso menos disperso (com o palheiro já encostado à casa). No Pico e em S. Miguel (embora de modo diferente entre si), o tipo de agregado é já o de «casa terreiro», mais coeso, no qual as diversas construções se dispõem à volta de um espaço central aberto, espécie de núcleo polarizador das actividades da casa.
No Pico, é em redor daquele espaço que se estruturam a «casa», a cozinha, a atafona com palheiro, a cisterna e a «casinha» do carro. Em S. Miguel, os corpos construídos são antes a casa, a arribana e o granel (mais fragmentados na Bretanha, mais juntos no Nordeste ou na Povoação).
Utilizamos aqui a tradicional distinção, para os agregados, entre «casa bloco» e «casa dissociada» (com a variante «casa pátio», ou mais propriamente «casa terreiro»), proposta pelo estudioso Albert Démangeon, que a relacionava com a menor ou maior dimensão respectiva da propriedade agrícola. No caso açoriano, porém, outros factores a poderão explicar, nomeadamente a da continuidade de tradições de habitat importadas pelos povoadores para as ilhas, desde outras paragens.
No extremo oposto desta classificação, e também em S. Miguel, afirma-se uma tendência para o agregado-bloco, com as casas encostadas lote a lote e empena a empena, principalmente nas zonas de povoados mais densos (Ribeirinha, Fenais da Luz): os elementos constitutivos atrás referidos surgem dentro dos quintais justapostos «em série», enquanto as frentes das casas se alinham pela rua, formando um extenso plano contínuo de portas e janelas.
Como se viu, nas restantes ilhas o agregado dominante é o dissociado, com gradações entre a articulação dos volumes em torno de um núcleo «vazio», mais ou menos formalmente definido, e a dispersão acentuada dos seus elementos. No caso especial da ilha do Corvo, o habitat forma um agregado-bloco muito compacto, e corresponde a uma aldeia única, fortemente aglomerada e densa. Esta tipologia de agregado tem dois pisos, que contêm todos os elementos constitutivos necessários à actividade rural.
Outro agregado especial é o que se dispersa por diferentes terrenos de cultivo, estando alguns dos seus elementos muito afastados do núcleo principal da vida familiar. É o caso das «casas de vinha» de S. Miguel, ou, mais expressivo, o das adegas do Pico - construções disseminadas em pequenos conjuntos litorais, longe das casas de residência e de cultivo principais dos seus donos. Ver adega.
Entre os edifícios que compõem os agregados há, com o tempo, alguma «mobilidade funcional»: o palheiro pode transformar-se em casa; as casas velhas podem adaptar-se a meros espaços de armazenamento ou produção. E o sistema de partilhas pode gerar anexações ou partições de espaços antes maiores. A influência directa da emigração para a América também pode gerar novos tipos funcionais: a dupla cozinha, a antiga adega transformada em casa de férias, são dois casos correntes. Mas, em geral, podemos considerar que a evolução do agregado rural é mais lenta que a da economia e a da sociedade agrárias, pelo que aquele constitui testemunho valioso de formas de vida antiga, já entretanto alteradas pelo devir dos hábitos e usos. José Manuel Fernandes (Out.1996)
Bibl. Tostões, A., Silva, F. J., Caldas, J. V., Fernandes, J. M., Janeiro, M. L., Barcelos, N. e Mestre, V. (1985), Arquitectura Popular dos Açores (policopiado). Silva, A. M. (1949), Agregado In Grande Dicionário da Língua Portuguesa [«Dicionário de Morais»]. 10.ª ed., Lisboa, Ed. Confluência.
