Agostinhos

Segundo Gaspar Frutuoso, a presença dos Eremitas de Santo Agostinho, ou Cónegos Regrantes, no arquipélago dos Açores iniciou-se com um António Varejão, transmontano «muito virtuoso e de bom engenho», membro da ordem da Corrígia deste santo e com estudos feitos em Salamanca, que, em datas omissas, pregou nestas ilhas e começou a construir em Angra um hospital para os doentes procedentes das Índias de Castela, nas quais enriquecera como pregador e confessor. Durante a edificação, desistiu do intento e entregou três casas já prontas ao provincial de Portugal para aí se erigir um mosteiro e uma ermida. Para avaliarem da viabilidade de tal, foram enviados pela Província, em 1579, dois pregadores e um corista sem ordens mas, devido à guerra entre partidários do prior do Crato e Filipe II, só em 1584 foi possível concluir a construção (factos que Monte Alverne descreve de modo bem diferente). Os primeiros ocupantes deste convento de Nossa Senhora da Graça foram o prior Fr. Pedro da Graça, micaelense de boas famílias, e três outros pregadores (Fr. João, Fr. Roque, Fr. Pedro de Maria). Em 1606, Fr. Jerónimo de Mesquita e outros Agostinhos reinóis, que para ele viajavam, foram desviados pelos ventos para a ilha de S. Miguel, onde o licenciado António de Frias os albergou, até 1618, na sua recém-erigida ermida de Sant’ Ana; aqui em Ponta Delgada juntou-se-lhes um micaelense, Fr. Brás Soares, ex-dominicano nas Filipinas e agora agostinho, com fama de muito virtuoso e de bom orientador espiritual. Em 1618 transferiram-se para a sua própria casa, entretanto construída, da mesma invocação da de Angra. Em 1650, foi fundado o convento de S. Tomás, a pedido da nobreza da Praia, numa ermida de Santa Mónica, extramuros desta vila terceirense. A casa de Angra foi a sede da vice-província destas ilhas, e teve noviciado próprio. Monte Alverne refere-se a freiras terceiras agostinhas em Ponta Delgada, tendo vivido algumas na ermida e recolhimento de Santa Bárbara. O bispo de Angra entre 1688 e 1692, D. Fr. Clemente Vieira, minhoto, era desta ordem. A acção local dos Gracianos desenvolveu-se especialmente na pregação (destacando-se a dominical na igreja de Nossa Senhora da Conceição, em Angra, e, a convite da Câmara, as da terceira e sexta semanas da Quaresma em Ponta Delgada) e no ensino (latim, teologia moral e especulativa, filosofia, gramática, casos e humanidades, por vezes artes), nos três conventos e nas casas em que algum Graciano se detinha por temporadas, como está documentado para a ilha de S. Jorge.

Não obstante o seu reduzido número, os Agostinhos marcavam presença nas «juntas» de religiosos locais, reunidas para apreciarem casos pontuais relativos a ensino, pregação ou confirmação de capacidades taumatúrgicas de alguém (como sucedeu em 1586 quanto à venerável matrona micaelense Margarida de Chaves). O decreto de 1832 extinguiu os três conventos açorianos desta ordem. Margarida S. N. Lalanda (Dez.1997)

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