agardecer

v. Forma prostética e metatética do arcaico gradecer (lat. gratescere), há muito caído em desuso. No século xv ainda se hesitava entre as formas gradecer e agardecer (ou aguardecer), segundo ambas ocorrem na transcrição de uma mesma cantiga de Álvaro de Brito Pestana no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende (1516); assim: «Cantas merces me tês feytas / sam de mym mal gradeçydas [...]» e «Dos que am mundano bê / poucos a Deus aguardeçem [...]» A forma agardecer ainda persistia em português corrente no século xvi (ver, por exemplo, no Chiado, Auto das Regateiras, verso 1199: «And’esta cousa tão rasa, / que quem faz casa desfaz casa / por quem lho não agardece.») Hoje apenas a usam algumas pessoas iletradas ou com pouca instrução. Vitorino Nemésio, recriando o falar popular terceirense nas décimas e cantigas de terreiro do livro Festa Redonda, emprega-a no seguinte passo da «Décima do Pastor da Rapa»: «E eu, atoilhado e vormelho, / co esta cabeça no ar... / (‘Obrigado, agardecido !’) / pus-me a pensar... a pensar...» (Nemésio, FR: 113). Eduíno de Jesus (1998)