afídeos
Também conhecidos por pulgões ou piolhos das plantas, são insectos sugadores fitófagos (isto é, que se alimentam unicamente de plantas), de comprimento raramente superior a 5 mm, geralmente, porém, muito mais pequenos. Apresentam-se na natureza sob duas formas fundamentais: as formas com asas, portanto, voadoras, denominadas formas aladas, e as formas sem asas, as chamadas formas ápteras, com a curiosidade de ambas as formas existirem, de modo geral, na mesma espécie. O polimorfismo dos afídeos não termina, porém, aqui. Os afídeos são insectos com dois tipos de reprodução: (a) sexuada, quando as fêmeas se reproduzem após fecundação, conforme é regra na natureza; (b) partenogenética, quando as fêmeas se reproduzem sem prévia fecundação. Na maioria das espécies de afídeos, após diversas gerações de fêmeas partenogenéticas surge a chamada geração sexuada, constituída por machos funcionais e por fêmeas sexuadas. A fêmea sexuada é sempre ovípara. As fêmeas partenogenéticas, também designadas por virginíparas, podem ser ovíparas ou vivíparas, neste último caso gerando directamente formas jovens, designadas por ninfas da 1.ª idade (ou neonatas). A fêmea sexuada é áptera na grande maioria das espécies de afídeos. As fêmeas partenogenéticas podem ser ápteras ou aladas, existindo ambas as formas em grande parte das espécies de afídeos. Os machos podem, igualmente, ser ápteros ou alados, produzindo algumas espécies, simultaneamente, machos ápteros e machos alados. Fêmeas partenogenéticas ovíparas aparecem apenas em duas famílias de afídeos, essencialmente florestais (adelgídeos e filoxerídeos). Fêmeas partenogenéticas vivíparas aparecem nas restantes famílias do grupo (hormafidídeos, penfigídeos, drepanosifídeos, greenideídeos, afidídeos e lacnídeos). As fêmeas partenogenéticas são as formas correntes de existência dos afídeos, uma vez que a geração sexuada apenas surge uma vez por ano, com frequência chegando mesmo a não se formar. As espécies de afídeos que no seu ciclo ao longo do ano apresentam geração sexuada dizem-se holocíclicas. Quando a geração sexuada falta, a espécie diz-se anolocíclica.
Em climas temperados, como é o caso de Portugal e de modo especial o açoriano, muitas espécies de afídeos são anolocíclicas, sendo visíveis sobre os hospedeiros ao longo de todo o ano. As espécies holocíclicas em climas com Inverno rigoroso produzem a geração sexuada durante o Outono. Da conjugação do macho com a fêmea sexuada resultam ovos (por vezes um só), forma em que o insecto subsiste durante as condições adversas. A eclosão dos ovos, em climas como os nossos, tem lugar, de modo geral, nos meses de Março e Abril. Os afídeos dizem-se monófagos quando se alimentam de plantas da mesma família botânica. Só muito raramente são estritamente monófagos, isto é, vivem exclusivamente sobre uma espécie de planta. Dizem-se polífagos quando se podem alimentar a partir de plantas de numerosas famílias. Há ainda afídeos oligófagos, isto é, que vivem sobre um reduzido número de plantas não aparentadas. A maior parte das plantas que dão hospedagem a afídeos são espermatófitas. Um reduzido número de espécies de afídeos vive sobre pteridófitas ou sobre briófitas. As espécies holocíclicas podem realizar todo o seu ciclo biológico na mesma espécie de vegetal e dizem-se monóicas. Se à alternância de gerações corresponder também uma alternância de hospedeiros, como regra não aparentados, dizem-se heteróicas ou dióicas. O hospedeiro onde se desenvolve a fêmea sexuada e, por conseguinte, onde é feita a postura do ovo fecundado é o hospedeiro primário ou principal. O hospedeiro para onde migram as gerações descendentes da geração saída do ovo fecundado é o hospedeiro secundário ou intermediário. Nos nossos climas, o hospedeiro primário também é chamado de Inverno e o secundário de Verão. As noções de monofagia, polifagia, oligofagia, holociclia, anolociclia, monoicismo e heteroicismo mostram que é complicada a biologia dos afídeos. Sobre o assunto poderá consultar-se Ilharco (1992).
Os afídeos vivem, de modo geral, nas folhas das plantas mas também podem viver nas raízes, no caule, nas flores e até nos frutos, constituindo algumas espécies importantes pragas agrícolas, dado o seu elevado potencial biótico, este derivado, essencialmente, da partenogenicidade das fêmeas. São numerosos os efeitos dos seus ataques, quer directos por, como se disse, atacarem em grandes populações, quer indirectos, por poderem ser vectores de doenças, principalmente de vírus. Em regra, a picada dos afídeos depaupera as plantas, pois implica importantes perdas de seiva. As folhas podem reagir com distorções diversas (pseudogalhas) e com queda antecipada. A floração e a frutificação podem, também, ser seriamente afectadas ou até suprimidas. Certas espécies provocam a formacão de galhas ou cecídeas (hipertrofias em tecidos herbáceos) ou de cancros (hipertrofias em tecidos lenhosos). Enfim, os vírus, como regra, conduzem à morte das plantas ou, pelo menos, reduzem apreciavelmente as suas produções. Com muita frequência as populações de afídeos são avidamente procuradas por formigas, dado que estas muito apreciam a melada excretada por aqueles insectos. Esta mesma substância, além de provocar queimaduras, vai contribuir para a instalação de fungos negros, as fumaginas, que com a proliferação acabam por revestir a superfície foliar, perturbando altamente os fenómenos de trocas gasosas. A melada dos afídeos, conforme o nome dá a entender, é rica em açúcares e constitui os excrementos destes insectos. É muito procurada, também, por insectos polinizadores, entre estes os sirfídeos que, no estado de larva, podem alimentar-se de afídeos, e pelos afidiídeos, que são parasitas de afídeos.
Calcula-se em 7 % as perdas em valor causadas às culturas agrícolas em Portugal Continental pelos ataques dos afídeos, perdas que, a preços actuais, atingem mais de dez milhões de contos. É natural que nos Açores as culturas agrícolas não sofram tanto com os ataques de afídeos, primeiramente porque é menor o número de espécies causadoras de pragas, depois porque as constantes chuvas exercem uma importante acção mecânica na redução dos níveis populacionais das espécies de afídeos. O interesse económico dos afídeos como pragas implicou o seu combate pelo método de resultados mais espectaculares, a luta química. Com efeito, este meio de luta contra os insectos é, não só, o mais acessível ao agricultor como a sua propaganda tem sido apoiada por grandes somas de dinheiros, tornando-se em breve como o método «salvador» das culturas agrícolas. De usados, os insecticidas passaram a abusados e, em pouco tempo, as consequências começaram a aparecer (Ilharco, 1992): os peixes morrem nos rios, nos céus rareiam as aves, os animais domésticos morrem envenenados e os insectos úteis desaparecem, incluindo os polinizadores e os próprios inimigos das pragas. A acompanhar tanta destruição, os afídeos têm vindo a mostrar resistência aos produtos químicos a ponto de, actualmente, serem das pragas de mais difícil combate. À luz do pensamento actual, a eliminação de uma espécie de uma determinada região será uma pretensão não só antinatural como dificilmente atingível. Não se pense, pois, que alguma vez deixemos de ter piolhos nas plantas. Teremos é de nos habituar a viver com eles, mas, evidentemente, devidamente equilibrados, isto é, a níveis populacionais baixos, que poucas perdas causem nas culturas. Esta situação, em que convivam culturas agrícolas e outras plantas, ambas com os seus afídeos e respectivos inimigos naturais (muitas vezes comuns), diz-se de equilíbrio biológico. É esta a solução que defendemos para as pragas de afídeos: o restabelecimento do equilíbrio biológico, perdido com a multiplicação do alimento posto à disposição da espécie (as culturas agrícolas) e com a destruição, pelos pesticidas, não só dos inimigos naturais das pragas como de muitas plantas que constituem seus refúgios naturais e são eliminadas por serem infestantes. Neste equilíbrio biológico, os insecticidas não são banidos, antes a sua aplicação deverá ser reduzida, tanto quanto possível, de modo a não perturbar a acção dos inimigos naturais e dos insectos polinizadores, além de evitar ao máximo a sua nefasta acção sobre o ambiente. A nível mundial, são actualmente conhecidas 4702 espécies e subespécies de afídeos (Remaudière e Remaudière, 1997). Relativamente ao arquipélago açoriano encontram-se citadas 130 espécies e subespécies, à frente enumeradas (Ilharco, 1976, 1980, 1988; Carvalho, 1984; Sousa-Silva e Ilharco, 1995; Pita e Ilharco, 1995, 1996, 1997).
A afidofauna açoriana encontra-se aceitavelmente bem conhecida apenas para as ilhas de S. Miguel, Terceira e Faial. São escassas as citações de afídeos para as ilhas de Santa Maria, Pico, Flores e Corvo e não conhecemos qualquer referência a afídeos para as ilhas de S. Jorge e Graciosa. O actual conhecimento permite já, no entanto, caracterizar a afidofauna açoriana como uma pequena parte da afidofauna ibérica e uma parte ainda mais pequena da afidofauna mediterrânica. É curioso salientar que não se conhece qualquer espécie de afídeo endémica dos Açores. Mesmo a subespécie açoriana de Capitophorus hippophaes (Walker) (C.h. dubius Ilharco), apenas conhecida dos Açores, será provavelmente originária do Norte de Espanha ou da região mediterrânea ou, eventualmente, ainda, da Ásia temperada, regiões de onde o hospedeiro primário da espécie (Hippophae rhamnoides ou Elaeagnus angustifolia) é natural (Ilharco, 1982). Fernando
Bibl. Blackman, R. L. e Eastop, V. F. (1985), Aphids on the worlds crops. An identification guide. 2.ª ed.,
LISTA DE AFÍDEOS DOS AÇORES
Os afídeos são apresentados segundo a classificação proposta por Ilharco em 1992. Dentro de cada agrupamento, as espécies seguem a ordem alfabética. A respeito de cada espécie, indica-se as ilhas onde foi encontrada e a respectiva distribuição geográfica actual; esta informação é fundamentalmente baseada em Blackman e Eastop (1985, 1994), Heie (1980, 1982, 1986, 1992), Millar (1990), Naumann-Etienne e Remaudière (1995), Nieto Nafria et al. (1994), Remaudière et al. (1985) e Roberti (1993). Tratando-se de espécies com interesse económico como praga (real ou potencial) indica-se as culturas que são (ou poderão ser) afectadas, neste caso seguindo, essencialmente, as opiniões de Carneiro (1979). Sempre que a presença de uma espécie seja considerada duvidosa, o seu nome vem precedido por [?]. As ilhas açorianas são indicadas pelas seguintes siglas: SMG (S. Miguel), TER (Terceira), FAI (Faial), SMA (Santa Maria), PIC (Pico), FLO (Flores) e COR (Corvo).
Família PHYLLOXERIDAE
Tribo Phylloxerini
1. Viteus vitifoliae (Fitch, 1885). SMG, TER, FAI, PIC. Cosmopolita, com origem neárctica. Videira.
Família PEMPHIGIDAE
Tribo Eriosomatini
2. Eriosoma lanigerum (Hausmann, 1802). SMG, TER. Cosmopolita, com origem neárctica. Macieira.
3. ? Eriosoma lanuginosum (Hartig, 1839). SMG. Regiões holárctica e australiana, Argentina e Paquistão, com origem paleárctica.
4. Tetraneura ulmi (Linnaeus, 1758). SMG. Região holárctica. Milho.
Tribo Pemphigini
5. Pemphigus populitransversus (Riley, 1879). SMG. América, África do Sul, Madeira, com origem neárctica.
6. ? Prociphilus sp. SMG.
7. Thecabius affinis (Kaltenbach, 1843). SMG, TER. Região paleárctica.
Tribo Fordini
Subtribo Baizongiina
8. Geoica utricularia (Passerini, 1856). SMG. Região holárctica.
Família DREPANOSIPHIDAE
Subfamília Phloeomyzinae
9. Phloeomyzus passerinii (Signoret, 1875). SMG. Regiões holárctica, neotropical e oriental, com origem paleárctica.
Subfamília Thelaxinae
10. Thelaxes suberi (Del Guercio, 1911). SMG. Região mediterrânea, Madeira, Inglaterra, Médio Oriente.
Subfamília Anoeciinae
11. Anoecia corni (Fabricius, 1775). SMG. Regiões holárctica e neotropical, África do Sul, Paquistão.
Subfamília Drepanosiphinae
Tribo Saltusaphidini
12. Saltusaphi scirpus (Theobald, 1915). SMG. Regiões paleárctica, etiópica e oriental.
Tribo Phyllaphidini
Subtribo Phyllaphidina
13. Calaphis flava (Mordwilko, 1928). SMG. Regiões holárctica e australiana e África do Sul, com origem paleárctica.
14. Phyllaphis fagi (Linnaeus, 1767). SMG. Europa, Austrália, América do Norte.
Subtribo Panaphidina
15. Chromaphis juglandicola (Kaltenbach, 1843). SMG. Regiões holárctica e oriental.
16. Eucallipterus tiliae (Linnaeus, 1758). SMG. Regiões holárctica e australiana, com origem paleárctica.
17. Hoplocallis pictus (Ferrari, 1872). SMG. Região mediterrânea e Médio Oriente. Introduzida na África do Sul e na América do Sul.
18. Myzocallis boerneri (Stroyan, 1957). Europa e Médio Oriente, introduzida na África do Sul, Califórnia e Nova Zelândia.
19. Myzocallis castanicola (Baker, 1917). SMG, TER, FAI. Cosmopolita.
20. Pterocallis alni (De Geer, 1773). SMG. Europa e Médio Oriente. Introduzida no continente americano e na Austrália.
21. Therioaphis trifolii (Monell, 1882). SMG. Cosmopolita, com origem paleárctica.
22. Tuberculoides annulatus (Hartig, 1841). SMG, FAI. Regiões holárctica, neotropical e australiana, com origem europeia.
Tribo Drepanosiphini
23. Drepanosiphum oregonensis (Granovsky, 1939). TER, FAI. Europa, Norte de África, Médio Oriente, Índia. Introduzida na América do Norte.
