adaptação

O ajustamento dos seres vivos às condições físicas e biológicas do meio que lhes é próprio denomina-se adaptação. Entendida desde finais do século xix como consequência da acção diferencial da selecção natural, a adaptação foi, no entanto, diversamente interpretada no decurso do tempo e de acordo com a formação filosófico-científica dos naturalistas que se ocuparam do tema. Assim, os criacionistas viam na adaptação, quase sempre revelada por subtis processos ou formas, a concretização do perfeccionismo divino. A ligação profunda da Teologia natural com as Ciências da Natureza teve muito a ver com a inspiração de maravilhoso que a fina adequação de funções e formas às realidades vitais inspirava aos naturalistas. Tal adequação não podia deixar de corresponder aos desígnios do Criador. Por isso, descrever e compreender a sua finalidade seria reconhecer e enaltecer a perfeição de Deus (Mayr, 1982).

As interpretações materialistas da origem e formação da diversidade biológica incidiram também, naturalmente, na adaptação; repudiando, porém, interpretações teleológicas, procuraram determinar a sua causalidade. O lamarquismo concebia a adaptação como resposta às alterações do meio, a que os seres vivos reagiriam usando mais uns órgãos e menos outros. Persistindo o sentido das modificações ambientais e havendo aditividade dos efeitos do uso e não-uso (hereditariedade dos caracteres adquiridos), verificar-se-ia a transformação gradual e adaptativa de uma espécie noutra. Daí, o sugestivo nome de transformismo-adaptação que também se conferiu ao lamarquismo. O darwinismo explicou a causalidade da adaptação de forma diferente. A variabilidade que se observa em todas as espécies com reprodução sexuada não é consequência do uso e não-uso, mas sim aleatória e devida ao acaso dos cruzamentos. O ambiente, em cada geração, selecciona certos indivíduos, conferindo-lhes maior capacidade de reprodução; estes indivíduos são os melhor adaptados nessa geração. Os seus descendentes, se o ambiente se mantiver mais ou menos constante, serão provavelmente os melhor adaptados da geração seguinte. E assim sucessivamente. A adaptação explica-se, pois, através do darwinismo, como uma consequência da selecção natural, ou seja, da filtragem exercida pelo ambiente das diversas constituições genéticas, às quais ele confere diferentes capacidades de produzir descendentes (Almaça, 1994).

A adaptação está, assim, indissoluvelmente ligada à selecção natural e sofreu com esta as vicissitudes de uma discussão que durou várias decadas. A mais perdurável das contradições, por inserir numa tentativa de explicação causal um pendor teleológico, terá sido a da existência de pré-adaptações (Cuénot, 1932; Sacarrão, 1985). Os pré-adaptacionistas, confundindo variabilidade genética e aleatória, existente em todas as gerações, com o que designaram por pré-adaptação, aceitavam implicitamente o aparecimento evolutivo da forma antes da função (Almaça, 1993). A genética das populações, no entanto, resolvera este problema ao nível do comportamento de genes alelos em genótipos individuais e populacionais, quantificando os efeitos da selecção natural e da adaptação dela decorrente. Providenciava, é certo, uma visão cartesiana e reducionista de fenómenos muito complexos e globais, mas nem por isso menos valiosa para a sua compreensão.

As ilhas oceânicas são verdadeiros laboratórios naturais para o estudo da adaptação e outros processos ecológico-evolutivos. O seu povoamento natural depende das espécies de continentes mais próximos ou de outras ilhas, que, pelos meios de dispersão próprios, conseguem colonizá-las. Os povoamentos insulares são amostras empobrecidas da diversidade biológica dos continentes próximos. Isto, porque certas espécies não dispõem de processos de dispersão que lhes permitam atingir as ilhas e outras, embora dispondo deles, não conseguem adaptar-se às condições insulares. As que se adaptam, porém, dispondo de nichos ecológicos vagos e de isolamento genético prolongado relativamente às suas populações-mãe, frequentemente originam novas espécies. Daí, a riqueza em espécies endémicas de muitas ilhas e arquipélagos. Muitos destes processos de especiação insular decorrem na ausência dos predadores habituais das populações em divergência genética. Os predadores, por ausência de meios de dispersão adequados ou por acaso, não colonizaram as ilhas. Isto e a estreita adaptação ao ambiente das ilhas explicará a frequente formação de espécies insulares agigantadas. No entanto, assim como a adaptação é estreita e a especiação rápida, também a vulnerabilidade dos endemismos é grande. A introdução pelo homem de eventuais predadores ou competidores desses endemismos tem-se traduzido na sua rápida extinção. É que, sendo os ecossistemas insulares empobrecidos na sua diversidade, nem sequer há lugar para uma exclusão habitacional que permita a sobrevivência dos endemismos. Esta é a razão por que a maioria das espécies extintas nos últimos cem anos são endemismos insulares (MacArthur and Wilson, 1967; Mayr, 1970).

Arruda Furtado (1854-87), notável naturalista açoriano, ocupou-se da divulgação do darwinismo e, por decorrência, dos problemas da selecção natural e adaptação. Os seus estudos sobre a distribuição dos moluscos terrestres dos Açores (1881), por exemplo, levaram-no a concluir que uma das possíveis origens das espécies açorianas seria a ocorrência de modificações provocadas por condições mesológicas próprias em formas colonizadoras ou introduzidas. Refere-se, neste caso, embora de forma pouco explícita, a uma especiação por adaptação progressiva a determinadas condições, que tem como causalidade a acção prolongada de pressões selectivas num certo sentido. Carlos Almaça (Fev.1996)

Bibl. Almaça, C. (1993), Evolutionism in Portugal. Lisboa, Museu Nacional de História Natural / Museu Bocage. Almaça, C. (1994), Evolutionism. Lisboa, Museu Nacional de História Natural / Museu Bocage. Arruda-Furtado, F. (1881), A propósito da distribuição dos moluscos terrestres nos Açores. Era Nova, 1: 267-283. Cuénot, L. (1932), La genèse des espèces animales. Paris, Félix Alcan. MacArthur, R. H. e Wilson, E. O. (1967), The theory of island biogeography. Princeton, Princeton University Press. Mayr, E. (1970), Populations, species and evolution. Cambridge, Massachusetts, Belknap Press. Id. (1982), The growth of biological thought. Cambridge (Massachusetts), Belknap Press. Sacarrão, G. F. (1985), A adaptação e a invenção do futuro. Lisboa, Publicações Europa-América.