adagiário

Entende-se por adagiário, segundo Louis Combet, um conjunto de textos compostos por uma «frase independente anónima e notória que, sob uma forma elíptica, directa ou de preferência figurada, exprime poeticamente um ensinamento, uma opinião de ordem moral ou prática». Com efeito, esta definição retoma, uma vez mais, a que Erasmo delineara nos seus Adagia, publicados em 1500, afirmando que este género se caracterizava pela sua popularidade, exprimindo opiniões num estilo metafórico, mediante fórmulas marcadas por uma preocupação estética. Segundo este humanista os adágios tinham, prioritariamente, uma função ética (Ad persuadendam conducere pronerbia) à qual se aliava uma função estética, principalmente mediante o processo bem poético de construir a sua brevíssima expressão através de uma engenhosa condensação semântica.

Pelo atrás exposto, o adágio diverge da sentença pela falta de dimensão poética desta (a sua expressão é menos elíptica e carece de elementos prosódicos), mas não de designações como rifão, provérbio, dito, ditado, etc, apesar de sistemáticas destrinças que a crítica tenta estabelecer, baseando-se, em especial, em traços pouco pertinentes estabelecidos pela erudição do século xix, tais como serem as suas formulações de maior ou menor cunho popular (adágio e provérbio para as cultas, rifões para as populares).

Esta poeticidade do adágio deriva, aliás, da origem de muitos deles (note-se que a palavra rifão corresponde ao termo castelhano refrán, cuja significação para além da de adágio é a de estribilho), sendo ou tendo sido certos provérbios canções. Muitos eram cantados e disso encontramos exemplos no Cancioneiro de Herberey, no Cancioneiro General de Castillo ou no Geral de Resende, no Cancioneiro Musical da Colombina, em Gil Vicente, Prestes, Jorge Ferreira de Vasconcelos, Camões, entre muitos outros. Esta relação entre canção e adágio suscitará em Margit Frenk uma subtil análise que a levará a concluir que desde a Idade Média «existiu uma base para o intercâmbio constante entre cantares e rifões», sendo certo que estes últimos «adoptavam amiúde um esquema - dísticos rimados - frequente na lírica popular [...]. Chegou-se, assim, provavelmente, a uma espécie de indiferenciação: o provérbio era verso e o verso rifão». Com efeito, se atentarmos numa colecção de Leite de Vasconcelos que ele próprio intitula «Ditados tópicos de Portugal colligidos da tradição oral», devido ao que acima assinalei, vê-se obrigado a, em nota, escrever que para «além de ditados pròpriamente ditos, coligi também aqui cantigas tópicas».

Mas, de que fontes brota o adagiário? Qualquer pergunta deste tipo não poderá, obviamente, obter uma resposta com características absolutizadoras. Limitemo-nos apenas a afirmar que, em termos peninsulares, foram as mesmas bebidas no Velho Testamento especialmente no Livro dos Provérbios, onde se encontram abundantes frases sentenciosas e provérbios, no Novo Testamento, em textos patrísticos.

Na Península Ibérica, graças ao notável trabalho de Eleanore S. O’Kane foi publicado, em 1959, um excelente inventário de adágios incluídos em obras medievais. Em Portugal, só em 1651, através de António Delicado (Adágios Portugezes reduzidos a lugares-comuns) se instituiu a primeira colectânea, bem distante da precoce súmula castelhana quatrocentista do marquês de Santilhana (Refranes que dicen las viejas tras el fuego).

O adagiário açoriano encontra-se, a traços largos, excelentemente historiado por Francisco Carreiro da Costa em estudo publicado, na Revista Insulana, vols. XXXIII-XXXIV (1977-78) e reimpresso no Adagiário Popular Açoriano de Armando Cortes-Rodrigues, editado por Almeida Pavão, entre as páginas 9-41 (especialmente 18-23). Assim, em Gaspar Frutuoso, António Cordeiro e Agostinho Mont’Alverne encontraremos os primeiros adágios destas ilhas atlânticas, contudo, de acordo com o mesmo Carreiro da Costa, «as primeiras relações de provérbios que conhecemos dos Açores, reproduzidos em caracteres de imprensa - e ainda assim, relações muito pequenas - são as que figuram nos vários *almanaques populares que se editaram nas três cidades açorianas no decurso do século xix»; mas, na realidade, só em pleno século xx, mais precisamente a partir de 1944 (data em que se começa a publicar a revista Insulana), se inicia o esboço de uma divulgação sistemática da presença deste género tradicional nos Açores. Deste modo, mediante o contributo, de forma muito especial, de Armando Cortes-Rodrigues e de Inocêncio Enes, com recolhas oriundas de quase todas as ilhas (se bem que a mais representada seja S. Miguel), exumam-se mais de 6000 adágios, coleccionados por estes autores, o que sem dúvida fornece um já significativo número para o conhecimento do género na Região Autónoma.

Quanto às características ou especificidades do adagiário insular, cabe assinalar que em nada se distingue daquilo que pode ser observado nos contos, na poesia lírica ou romanceiro, isto é, os provérbios açorianos são, na sua essência, iguais aos que se podem recolher no resto do país. Obviamente, com estas palavras não se pretende retirar particularidades às lições insulares, particularidades essas que, não esqueçamos, são a essência dos textos tradicionais. Como se sabe, e este é um dos seus atributos constitutivos, a tradicionalidade verifica-se, entre outras razões, sempre que um texto se manifesta através de uma pluralidade de versões. Ora, imprimem-se nestas versões variantes de distinto nível reveladoras da tensão dialéctica imposta por uma herança conservadora e uma recriação inventiva.

Com estas observações ratificam-se plenamente as conclusões do citado estudo de Carreiro da Costa, cuja lucidez e conhecimento profundo do adagiário o fazem estabelecer uma identidade entre os vários provérbios, tanto continentais como insulares, ampliando até estas observações ao próprio Brasil. Note-se, porém, que este género apresenta profundas semelhanças no contexto ibérico, não sendo, portanto, uma particularidade de uma tradição veiculada por uma língua. O tão consabido provérbio «Quem o feio ama bonito lhe parece» (de ampla expressão em todo o Portugal continental) encontra, logicamente, o seu paralelo em S. Miguel («A quem o feio ama, bonito lhe parece») ou na Terceira («A quem o feio ama formoso lhe parece»), bem como em Castela, onde foi recolhido pelo marquês de Santilhana («El que feo ama, en todo lugar / fermoso le paresce, no es de dubdar») ou inscrito na Tragicomedia de Calixto y Melibea («Hazes que feo amen, y hermoso les parezca»). Entre muitos outros exemplos, que confirmam esta asserção, acrescente-se o não menos conhecido «Dá Deus nozes / a quem não tem dentes», recolhido em Santa Maria, e que corresponde ao provérbio, também compilado por D. Iñigo López de Mendoza, «Da Dios habas a quien no tiene quijadas».

Quanto aos adágios tópicos, deve-se recordar o que a propósito da poesia lírica escreveu Leite de Vasconcellos (Cf. «Poesia popular local e regional» in Opúsculos, VII, parte II, Lisboa, 1938, pp. 946-950), afirmando que existiam «cantigas que, por exprimirem ideias gerais ou vagas, se aplicam indiferentemente a várias terras, apenas com mudança do nome destas». Repare-se como o adágio «Do Nordeste, / nem bom vento, / nem bom casamento» não passa da modificação do não menos famoso «De Espanha, / nem bom vento, / nem bom casamento». Não será dispicienda, não obstante, a alteração de vocábulos que tornam o adágio mais adequado ao contexto. Exemplos claros de uma variação condicionada pelo meio são, sem dúvida, provérbios como «Se queres ver / o teu marido morto, / dá-lhe lapas em Maio / e couves em Agosto» (S. Jorge), ou o não menos açoriano «Baleias no canal, / terás temporal» (S. Jorge).

Em síntese, o adagiário açoriano, composto por adágios sucessivamente transportados pelos seus inúmeros povoadores provenientes, esmagadoramente, da Península, inscreve-se no âmbito do adagiário ibérico e dele conserva as suas frases proverbiais, ora manifestando uma maior fidelidade às suas fontes ora reconstruindo o seu discurso ao sabor de uma necessária adequação aos contextos locais. Pere Ferré (Fev.1998)

Bibl. Combet, L. (1971), Recherches sur le «Refranero» castillan. Paris. Vasconcellos, J. L. (1891-1910), Ensaios Etnográficos. Esposende / Lisboa, I-IV. Id. (1938), Opúsculos. Lisboa, VII. Id. (1980), Etnografia Portuguesa. Lisboa, Imp. Nacional - Casa da Moeda, I. Cortes-Rodrigues, A. (1982), Adagiário Popular Açoriano. Angra do Heroísmo, 2 vols. Costa, F. C. (1945), O tempo na linguagem popular micaelense. Revista Açoriana, III: 243-304. Id. (1974), Velhos Almanaques (dos Açores). Diário dos Açores, 31 de Dezembro. Funk, G. (1996), O provérbio entre a oralidade e a escrita. Revista Lusitana, nova série, XV: 29-38. Neves, H. (1897-99), Glossário das palavras, locuções, anexins, raro conhecidos ou usados fora da região em que foram recolhidos. Revista Lusitana, V: 215-230. Ribeiro, L. S. (1955), Influência portuguesa no adagiário gaúcho. Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira, XIII: 196-226. Spalding, W. (1949), Adagiário gaúcho-açoriano. Revista Insulana, V: 145-147, IX: 113-133.