açúcar
É um composto orgânico de sabor doce, cristalizado, que se extrai principalmente da cana-de-açúcar e da beterraba-sacarina. É um hidrato de carbono quimicamente conhecido por sacarose (C12H22O11). A cultura da cana-de-açúcar foi introduzida em quase todas as ilhas do arquipélago dos Açores na segunda metade do século xv, ou seja, logo após os Descobrimentos. Nessa altura, a produção de açúcar era enviada não só para o Continente como para o estrangeiro, pagando um imposto de 1 % sobre a produção. Em virtude de o produto ser consumido quase exclusivamente pelas classes ricas, tornou-se numa actividade altamente lucrativa. É de salientar a importância que representavam naquela época, para a economia dos Açores e para a Fazenda Pública, os proventos resultantes da sua industrialização. Contudo, com o passar dos anos a cultura da cana-sacarina sofreu profundos golpes com o aparecimento de doenças nos canaviais. Assim, o governo de então tomou inúmeras medidas de molde a proteger tão lucrativa fonte de riqueza, em especial na ilha de S. Miguel. Apesar dos esforços dispendidos, a produção e a indústria da cana-de-açúcar viriam a acabar antes dos fins do século xvii. No século xix tentaram de novo renascer a cultura da cana sacarina, mas quase sem efeito. Na segunda metade do século xix, e em resultado de crises económicas provocadas pelo declínio e mesmo pelo desaparecimento de várias culturas agrícolas, surgiram os primeiros ensaios com beterraba-sacarina. É de realçar que todos os ensaios feitos com beterraba na última década do século xix foram bastante animadores. Estes ensaios foram efectuados por Henrique Bensaúde, Eng. José Cordeiro e Estação Agrária. Nessa altura, a batata-doce utilizada no fabrico de álcool era a cultura mais importante em S. Miguel e na Terceira. No começo do século xx, mais precisamente em 14 de Junho de 1901, saiu um decreto que obrigava à redução da produção e utilização do álcool, entrando a sua indústria em crise.
Em 1902 formou-se a União das Fábricas Açoreanas de Álcool (UFAA, que só viria a desaparecer em 1968), para reorganizar a indústria do álcool em virtude do referido decreto, que na altura pediu ao governo autorização para instalar uma fábrica de açúcar de beterraba em S. Miguel, em substituição da Fábrica de Álcool de Santa Clara, a laborar desde 1884. Assim, o catalisador da ideia já existente nessa altura de produzir açúcar de beterraba em S. Miguel foi o referido decreto. Em 1903 foi concedida autorização, por um período de três anos, para a instalação e montagem de uma unidade industrial destinada à produção de açúcar a partir da beterraba. A UFAA aceitou o desafio e mandou mesmo construir a Fábrica de Santa Clara, exactamente no mesmo espaço que era ocupado pela Fábrica de Destilação de Álcool. Seis meses após a última campanha de álcool, em Julho de 1906, a unidade açucareira já havia sido instalada em tempo recorde pela firma alemã Rohrig & Konig de Magdeburg, tendo a fábrica laborado naquele ano, durante cerca de três semanas, 7500 t de beterraba.
A Fábrica de Açúcar de Santa Clara é assim, desde 1906 até ao presente, a única fábrica de açúcar de beterraba existente em Portugal. Em 1968, a UFAA foi dissolvida, tendo surgido a empresa SINAGA, com o capital social actual de 800 mil contos, que é proprietária das duas unidades industriais, a de Santa Clara (açúcar) e a da Lagoa (álcool).
A indústria da beterraba é sazonal, com um regime de trabalho contínuo de 24 horas, durante um período de 60 a 90 dias por ano. Devido às condições climatéricas, é possível haver duas culturas por ano (cultura de Outono e cultura de Primavera), o que permite uma só colheita, podendo assim a fábrica de Santa Clara ter um período máximo de trabalho de 120 dias (60 + 60) sem interrupção. Desde a sua fundação que a fábrica utiliza como matéria-prima beterraba-sacarina de produção local, e desde 1969 que também trabalha ramas de beterraba oriundas da Europa, sempre que é necessário complementar a produção de açúcar. A unidade industrial de Santa Clara começou com uma capacidade diária de 200 t, em 24 horas, tendo sofrido ao longo dos anos aumentos de capacidade, sendo a alteração mais recente e a mais profunda executada na década de 70, acompanhada na totalidade pela British Sugar Corporation (ao tempo a maior produtora de açúcar de beterraba do mundo). A partir daí, a fábrica ficou com uma capacidade de corte de 1000 t de beterraba por dia. Em 1990, foi efectuada nova remodelação no sector de refinação de ramas, pela firma alemã Krupp, sendo a capacidade de trabalho de ramas de 200 t, em 24 horas. Esta unidade dispõe de uma potência instalada na ordem dos 2800 kva, de um gerador de igual potência, sendo ambos os maiores da região em empresas privadas.
A produção de açúcar tem variado consoante a produção da beterraba e o seu teor em sacarose, tendo-se atingido o máximo (só da beterraba) no ano de 1966, com mais de 11 000 t de açúcar produzido. O pessoal empregue na fábrica atingiu um máximo de 800 trabalhadores (efectivos e sazonais), nas últimas laborações da década de 60. Actualmente, trabalham na fábrica de açúcar, durante as laborações, cerca de 200 pessoas (efectivos e sazonais). O açúcar produzido por esta fábrica destina-se, actualmente, ao mercado açoriano, tendo ocorrido várias exportações para o Continente, quando houve açúcar em excesso. De 1906 a 1913 a direcção técnica da fábrica esteve confiada a diversos técnicos alemães e franceses. O primeiro director técnico português (micaelense) foi o eng. Clemente António de Vasconcelos, que se manteve no cargo durante mais de quarenta anos. Armando Soares (Jun.1996)
Bibl. Castro, J. C. V. P. C. (1955), Da Beterraba... ao Açúcar. Sep. do Boletim da Direcção-Geral dos Serviços Industriais, VII, 320: 81-96, 321: 97-112, 322: 113-128, 324: 145-156, 325: 159-174, 326: 175-186, 327: 187-202. Nunes, J. A. P. (1956), O Regime Sacarino nos Açores. Dissert. para concurso de chefe de serviço, aberto no Diário do Governo, 2.ª série, n.º 226, de 24.09.56.
