actividades culturais

A distância aos continentes europeu e americano e as características próprias de um espaço insular de origem vulcânica permitiram a sobrevivência de manifestações culturais tradicionais bastante para além do seu desaparecimento ou profunda alteração nos espaços onde tiveram a sua origem, como acontece, por exemplo, com as festividades do Espírito Santo. Fruto do papel que as ilhas desempenharam ao longo da sua história como ponto de encontro de povos e culturas das mais díspares regiões do mundo que, através dos navios, aqui aportavam, assiste-se, nos Açores, a uma assimilação e recreação de elementos culturais exógenos que, misturados com a matriz cultural dos primeiros povoadores, geraram, nestas ilhas, realidades culturais com características originais. É assim que se explica a coexistência, apenas aparentemente contraditória, de uma pujança de actividades culturais de cariz tradicional ou etnográfico, a que a música, a dança, o teatro popular e outras manifestações culturais tradicionais dão expressão, muito para além do que os reduzidos espaço e população permitiriam supor, com uma forte afirmação da modernidade, da criatividade e do universalismo culturais que nomes como Francisco de Lacerda, António Dacosta, Canto da Maia, Antero de Quental e Vitorino Nemésio atestam; sem referir tantos outros que nos nossos dias, em áreas como a literatura, a ciência, a música ou as artes plásticas, pelas suas obras continuam a ser afirmação viva desses valores.

Como características das manifestações culturais tradicionais destacamos a concentração, a diversidade e a autenticidade. Pela análise do quadro 1 facilmente se verifica o elevado número de filarmónicas e de grupos de dança e música tradicional, nos quais incluímos os «ranchos» ou grupos de folclore, os grupos de cantares tradicionais, as tunas e os grupos de violas, e aos quais se deve ainda acrescentar as participações individuais desses cultores da poesia popular que são os cantadores e improvisadores. Contudo, essa elevada concentração não se verifica apenas no que respeita às associações culturais, mas também em relação às suas actuações. Com efeito, o calendário anual açoriano é ponteado de manifestações culturais, muitas vezes ligadas ao ciclo das festas dos lugares e freguesias, as quais, em geral, se inserem na celebração dos respectivos oragos ou no culto ao Divino Espírito Santo. Nos programas destas festas as manifestações culturais tradicionais ocupam um espaço de relevo, demonstrando que a religiosidade dos açorianos não é incompatível com o folguedo nem com o profano.

O quadro referido permite-nos ainda aperceber a variedade de agrupamentos de cultura popular existentes, com destaque para a música, a dança e o teatro popular, ao qual se dedicam a maioria dos grupos de teatro referenciados e onde não incluímos essa forma muito antiga de teatro popular que são as danças e os bailinhos que animam o Entrudo em várias ilhas, por os participantes se associarem de modo espontâneo e sem carácter de continuidade ou de regularidade. Mas a diversidade também se expressa pelas variantes com que uma mesma manifestação como, por exemplo, o folclore, se apresenta de ilha para ilha ou, dentro da mesma ilha, de uma localidade para outra.

Referimos ainda a autenticidade porque, da observação destas manifestações, facilmente se depreende que não constituem mera encenação, como por vezes acontece com a cultura dita popular, mas antes são uma cultura viva, amplamente participada por uma população que a promove como forma de auto-recreação e com a qual se identifica.

As formas de cultura erudita, que incluem a música, a dança, as artes plásticas, o teatro, o cinema e outras, têm também forte expressão no arquipélago. Ao visitar qualquer uma das nove ilhas é praticamente impossível não deparar com uma manifestação cultural, seja um concerto, uma exposição, uma conferência, um colóquio ou a apresentação de um livro. Estas manifestações são promovidas pelas mais variadas entidades, sejam públicas (dependentes do Governo Regional, da Universidade dos Açores ou das autarquias) ou privadas (institutos, associações culturais ou associações constituídas com essa finalidade). Estas actividades têm por base as associações e agentes culturais que nas diferentes ilhas desenvolvem uma actividade regular, embora outros vindos do exterior, especialmente do continente português, aqui actuem com alguma frequência, permitindo que nas ilhas se mantenha a tradicional abertura ao mundo. Contudo, a insularidade, aliada à dispersão geográfica e populacional do arquipélago, coloca dificuldades à mobilidade dos agentes e grupos culturais e tem impedido a profissionalização dos grupos locais. Assim, a actividade desenvolvida assenta sobretudo nas associações de amadores e no voluntariado e quase todos os profissionais que nela participam dependem, em termos de remuneração, de outras actividades, nomeadamente do ensino.

Se estas actividades, bem como a investigação e divulgação científicas, têm uma longa tradição nos Açores, onde se podem encontrar institutos culturais e científicos com actividade desde há várias décadas, a criação da Universidade dos Açores imprimiu-lhes uma expressão renovada. VÍTOR DUARTE (Jun.1997)

Bibl. Almeida, O. T. (1989), Açores, Açorianos, Açorianidade - um espaço cultural. Ponta Delgada, Ed. Signo. Ataíde, L. B. L. (1973-74), Etnografia, Arte e Vida Antiga dos Açores. Coimbra, Biblioteca Geral da Universidade, I, III. Gomes, A. (1993), A Alma da Nossa Gente. Angra do Heroísmo, Direcção Regional dos Assuntos Culturais. Ribeiro, L. S. (1982-83), Obras. Angra do Heroísmo, Instituto Histórico da Ilha Terceira e Secretaria Regional da Educação e Cultura, I, III.

 

________________________________________

 

Açores – Actividades Culturais

Quadro 1 - Associações culturais: distribuição por ilha, 1996.

[O quadro faz referência apenas às associações culturais que desenvolvem a sua actividade com carácter de regularidade, pelo que não inclui as de formação esporádica nem as instituições dependentes de entidades públicas, tais como as autarquias, o Governo Regional ou a Universidade dos Açores. Foi elaborado com base em: Listagem das Associações Culturais (1996), Angra do Heroísmo, Direcção Regional dos Assuntos Culturais (dados n. publ.); Cardoso, M. G. S. V., Ávila, J.M.B. (1995), Relatório de Actividades, Angra do Heroísmo, Direcção Regional dos Assuntos Culturais. (dados n. publ.).]

 

Ilha

\

Associação Cultural

S.ª Maria

S. Miguel

Terceira

Graciosa

S. Jorge

Pico

Faial

Flores

Corvo

Total

 

Filarmónicas

 

1

34

26

4

14

13

8

2

1

103

 

Grupos de dança e música etnográfica

 

5

41

24

3

11

18

6

5

-

113

 

Grupos Corais

 

-

2

5

2

-

2

1

-

-

12

 

Academias Musicais

 

-

1

1

1

1

-

-

-

-

4

 

Grupos de Teatro

 

2

12

11

-

4

4

1

1

-

35

 

Associações de Artes Plásticas

 

-

1

1

-

-

-

-

-

-

2

 

Institutos Culturais

 

-

2

2

-

-

-

1

-

-