Açores
GEOLOGIA Do ponto de vista da tectónica de placas, a posição geográfica dos Açores corresponde a uma junção tripla, local de contacto de três placas litosféricas: as placas eurasiática, americana e africana (Laughton e Whitmarsh, 1974). As ilhas açorianas resultaram da actividade vulcânica associada àquele contexto tectónico. As placas referidas estão separadas por duas importantes estruturas: a Crista Média Atlântica e a Zona de Falha Transcorrente Açores-Gibraltar. A placa americana localiza-se a ocidente do rift, enquanto as placas eurasiática e africana se situam a oriente daquela estrutura tectónica.
O arquipélago dispõe-se segundo um alinhamento WNW-ESE que cruza obliquamente a Crista Média Atlântica. As ilhas do grupo ocidental (Flores e Corvo) foram edificadas sobre a placa americana, enquanto os grupos central e oriental se distribuem pelas outras duas placas litosféricas. A natureza e posição exacta da fronteira de placas que separa a Eurásia da África são, ainda, motivo de alguma controvérsia. Alguns autores consideram a existência de uma «microplaca dos Açores» que suportaria as ilhas dos grupos central e oriental (Forjaz 1988); outros advogam a hipótese de uma estrutura do tipo rift, localizado no alinhamento Graciosa - Terceira - S. Miguel, a que atribuem a designação de «Rift da Terceira» (Machado, 1959); uma terceira hipótese sugere que a fronteira entre as placas eurasiática e africana passa no canal de S. Jorge e a sul de S. Miguel (Madeira e Ribeiro, 1990). Neste caso, Graciosa, Terceira e S. Miguel estariam sobre a placa eurasiática, enquanto Faial, Pico, Formigas e Santa Maria estariam edificadas na placa africana.
Para oriente de Santa Maria a fronteira de placas está bem localizada e corresponde ao acidente tectónico designado «falha GLORIA», de direcção E-W, que se estende por cerca de 400 km entre as longitudes 25° e 20° W (Laughton et al., 1972).
A Crista Média Atlântica tem orientação próxima de N-S a norte do ponto triplo (39° N, 30° W), e direcção média NE-SW a sul daquele ponto. Esta direcção resulta do facto de a Crista Média se encontrar segmentada por um conjunto de falhas transformantes muito próximas que a dividem em troços curtos com orientação próxima de N-S (Searle, 1980).
Nesta região, o relevo submarino da Crista Média alarga-se para oriente, formando uma área elevada (limitada aproximadamente pela isóbata dos 2500 m), de forma grosseiramente triangular, incorrectamente chamada «Plataforma dos Açores», da qual se elevam as ilhas dos grupos central e oriental. A designação sugere uma batimetria regular que está longe de corresponder à realidade. Com efeito, os fundos que constituem a «Plataforma dos Açores» apresentam morfologia irregular, com fossas e cristas submarinas. As fossas são depressões tectónicas, porções de fundo oceânico afundado entre falhas, e localizam-se ao longo do «Rift da Terceira». A oeste da Graciosa situa-se a bacia ocidental da Graciosa, entre esta ilha e a Terceira localiza-se a bacia da Graciosa, a SW da Terceira encontra-se separada da bacia Hirondelle do Sul pelo banco de D. João de Castro, enquanto entre S. Miguel e as Formigas se situa a bacia de S. Miguel. A SW dos ilhéus das Formigas desenvolve-se o desfiladeiro das Formigas, o qual se liga à depressão associada à «falha GLORIA». Estas fossas têm o seu fundo a profundidades superiores a 2000 m. Contrastando com as formas descritas existem relevos que se elevam dos 1000-1500 m de profundidade, geralmente com forma de cristas alongadas, cujos topos emersos constituem as ilhas dos Açores. Algumas destas cristas submarinas não chegam à superficie, originando áreas pouco profundas: os bancos de D. João de Castro, Açor e Princesa Alice. Em torno da «Plataforma dos Açores» os fundos descem rapidamente para profundidades superiores a 3500 m.
Os Açores apresentam sismicidade elevada (Udías, 1980; Udías et al., 1986; Nunes et al., 1992), geralmente sob a forma de crises sísmicas com centenas ou milhares de eventos, a maioria dos quais com magnitudes abaixo do limiar da sensibilidade humana. Contudo, ocorrem esporadicamente tremores de terra de magnitude elevada, que podem atingir o grau 7 da escala de Richter, de que são exemplo os fatídicos eventos de 9 de Julho de 1757 (Machado, 1949), que provocou cerca de 1000 mortos em S. Jorge, e o de 1 de Janeiro de 1980 (Hirn et al., 1980), que provocou grande destruição nas ilhas Terceira e S. Jorge. A «falha GLORIA» e a Crista Média são também áreas de sismicidade intensa, mas que raramente afectam as ilhas do arquipélago.
A actividade vulcânica é inerente à própria constituição dos Açores. Todas as ilhas são de natureza vulcânica e apenas no grupo ocidental, em Graciosa e em Santa Maria, não ocorreram erupções desde o povoamento. Existem relatos e evidências de cerca de três dezenas de episódios vulcânicos desde 1439 até à actualidade (Weston, 1963-64). Estas erupções ocorreram nas ilhas de S. Miguel, Terceira, S. Jorge, Pico e Faial e no mar entre elas. É possível que mais algumas erupções tenham ocorrido no mar sem que delas se tenha tido notícia.
Segundo alguns autores (Krause e Watkins, 1970; Searle, 1980), as ilhas que compõem o arquipélago ter-se-ão começado a formar há 45 ma (milhões de anos) ou há 36 ma, isto é, durante o Eocénico médio ou no final deste período geológico. Esta datação baseia-se nas idades estimadas de anomalias magnéticas do fundo oceânico sobre o qual as ilhas estão edificadas. No entanto, as anomalias magnéticas na região dos Açores não estão ainda suficientemente bem estudadas para se poder estabelecer com certeza uma idade para o início da edificação das ilhas. O que se sabe é que as rochas emersas mais antigas se encontram na ilha de Santa Maria onde se obtiveram idades isotópicas de 8 ma. Em antiguidade seguem-se os ilhéus das Formigas (4,6 ma) e a região nordeste de S. Miguel (4 ma). Na Terceira e nas Flores existem rochas lávicas com 2 ma, enquanto nas restantes todos os materiais aflorantes são de idade quaternária (Abdel-Monem et al., 1975; Féraud et al., 1980; Azevedo et al., 1986; Forjaz, 1988).
O arquipélago dos Açores é, portanto, constituído por nove ilhas de natureza vulcânica, com vulcões activos e sismicidade frequente, formadas na dependência da junção tripla entre as placas tectónicas da Eurásia, África e América. José Madeira (Dez.1995)
Bibl. Abdel-Monem, A., Fernandez, L. A. e Boone, G. M. (1975), K-Ar ages from the eastern Azores Group (Santa Maria, S. Miguel and the Formigas islands). Lithos, 8: 247-254. Azevedo, J. M., Ferreira, M. P. e Martins, J. A. (1986), O Complexo de Base da Ilha das Flores, Açores. Memórias e Notas do Museu e Laboratório Mineralógico e Geológico da Universidade de Coimbra, 101: 55-71. Féraud, G., Kaneoka, I. e Allègre, C. J. (1980), K-Ar ages and stress pattern in the Azores: geodynamic implications. Earth and Planetary Science Letters, 46: 275-286. Forjaz, V. H. (1988),
GEOGRAFIA O arquipélago dos Açores fica situado no oceano Atlântico Norte, entre 36o 55 N e 39o 45 N de latitude e 24o 45 e 31o 17 W (Instituto Hidrográfico, 1981), entre a América do Norte (EUA) e a Europa (Portugal), dos quais dista, respectivamente, cerca de 4500 e 1500 km (Gaspar, 1993). Com a Madeira, Canárias, Cabo Verde e o Noroeste Africano constitui a região natural da Macaronésia.
É formado por nove ilhas e alguns ilhéus, de origem vulcânica, que emergem da plataforma oceânica da Cordilheira Central do Atlântico, dispostas ao longo de falhas transversais àquela crista, onde ocorreram as emissões vulcânicas que lhes deram origem. Ao todo, ocupam uma superfície de cerca de 2344 km2 (incluindo os ilhéus, Instituto Hidrográfico, 1981) ou de 2329,67 km2 (apenas as ilhas, INE,1991).
Pela sua proximidade e também por afinidade genética, as ilhas formam três grupos, dispostos num eixo com orientação NW-SE, designados por grupos ocidental, central e oriental (mapa 1). O primeiro formado pelas ilhas de Santa Maria (97 km2) e de S. Miguel (a maior, com 747 km2), pelos ilhéus Formigas e outros pequenos ilhotos à volta das ilhas. O segundo inclui as ilhas da Terceira (397 km2), Graciosa (61 km2), S. Jorge (238 km2), Faial (173 km2) e Pico (447 km2), também com numerosos ilhéus na periferia da costa das várias ilhas. O terceiro, o mais ocidental e setentrional, é constituído pelas ilhas das Flores (143 km2) e do Corvo (a mais pequena, com 17 km2), e pequenos ilhotos a elas anexos.
A importância da localização geográfica deste arquipélago é manifesta, na sua posição estratégica, nas rotas atlânticas de comunicação entre os continentes americano e europeu, por onde se dispersaram e dispersam os açorianos. Inicialmente chegaram a constituir ponto de apoio entre a Europa e a África (volta da Mina). Sempre demonstraram ser fundamental ponto de apoio na navegação transatlântica, marítima e depois área, tanto comercial, de guerra, como de recreio.
A dispersão das ilhas do arquipélago alarga o mar territorial português (12 milhas da costa) e contribui para a maior subárea da Zona Económica Exclusiva (ZEE) portuguesa (Instituto Hidrográfico, 1981).
O relevo é de tipo vulcânico, com estreitos planaltos (ou achadas) dissecados pela erosão das ribeiras e dominados por cones de escórias, piroclastos vulcânicos (bombas, tufos vermelhos e negros, também designados por bagacina, e cinzas alteradas em argilas) e lavas, sobretudo basálticas, que formam cabeços ou morros convexos e picos agudos ou truncados por crateras, com ou sem caldeiras. Destas, as maiores encontram-se ocupadas por lagoas permanentes de rara beleza paisagística, que constituem um dos melhores cartazes turísticos das ilhas. Salientam-se as lagoas das Sete Cidades, das Furnas, do Fogo e do Congro, na ilha de S. Miguel; a da caldeira, no Faial; a da caldeira, nas Flores, e a do Caldeirão, no Corvo. Mas muitas crateras pequenas têm lagoinhas com grande valor ecológico, porque funcionam como reservatórios de água doce fundamentais para a fauna permanente e para as aves migrantes.
O cone vulcânico mais alto é o do Pico da ilha do Pico, que atinge 2351 m de altitude, no topo do pico Pequeno, um cone secundário que se ergue no chão da caldeira do imponente edifício vulcânico do Pico. É o ponto mais alto de Portugal, visível das ilhas do Faial e de S. Jorge.
Constitui uma espécie de indicador meteorológico empírico para os pescadores e marinheiros das três referidas ilhas do triângulo, consoante se encontra descoberto ou escondido sob capelos de nuvens. Seguem-se-lhe os picos da Vara (1104 m) em S. Miguel, da Esperança (1054 m) em S. Jorge, do Cabeço Gordo (1045 m) no Faial, de Santa Bárbara (1021 m) na Terceira, o morro Alto (914 m) nas Flores, a cumeeira do Caldeirão (777 m) no Corvo, o pico Alto (587 m) em Santa Maria e a serra Dormida (398 m) na Graciosa. Em regra os cones vulcânicos aparecem alinhados ao longo de fracturas; esse fenómeno é notável na ilha de S. Jorge (toda ela edificada ao longo de fracturas) e na parte oriental da ilha do Pico. Outrora revestidos por mata densa, actualmente encontram-se arroteados em pastagens e, por isso, os seus solos ficam sujeitos a ser levados pela erosão das torrentes.
Com excepção de Santa Maria, a ilha mais meridional e também a mais antiga, sem manifestações históricas de vulcanismo e com rochas sedimentares terciárias (que também se encontram na Terceira), em todas as ilhas se registaram erupções vulcânicas no período histórico (cerca de 30 após a descoberta); daí o aspecto das formas vulcânicas frescas, e o facto de em quase todas se observarem manifestações atenuadas de actividade vulcânica secundária, com fumarolas, sulfataras, geysers de água quente e de lama, nascentes termais de águas quentes e frias (sulfurosas, férreas e bicarbonatadas), cheiro sulfuroso e temperaturas muito elevadas do solo (suficientes para cozinhar alimentos - maçaroca de milho, cozido das Furnas, bacalhau das caldeiras). O mais vasto campo destes fenómenos encontra-se nas caldeiras do vale das Furnas e da ribeira Seca da Ribeira Grande, na ilha de S. Miguel, onde se tenta produzir energia geotérmica. O valor patrimonial destas formas naturais é incalculável, pelo facto de constituírem verdadeiros museus naturais sobre fenómenos vulcânicos.
A furna do Enxofre, na Graciosa, e a caldeira de Guilherme Moniz, na Terceira, são outros locais com fumarolas e geysers no fundo de algares vulcânicos. Nascentes termais são frequentes também no Pico, Faial e S. Jorge. A sismicidade elevada e frequente alia-se aos fenómenos vulcânicos e atinge todo o arquipélago, causando as mais intensas crises, enormes desmoronamentos e estragos, descritos em diversos documentos históricos das ilhas e presenciados pelas gerações actuais.
Arribas altas e escarpadas, talhadas em rochas escuras, escavadas em furnas e arcos, e orladas na base por faixas de calhau, limitam as ilhas. São imponentes nas costas setentrionais, mais batidas pelas ondas tempestuosas de norte. De onde em onde, no recôncavo das enseadas ou nas fozes das principais ribeiras, abrigam pequenas praias em forma de concha, formadas por areia basáltica, de cor negra. Sujeitas à acção das ondas oceânicas, que durante as tempestades ultrapassam os 8 m de altura, e aos desabamentos (chamados quebradas) provocados pelos terramotos, as arribas desmoronam e, no seu sopé, formam-se línguas de materiais de escombreira que se prolongam mar dentro, constituindo as fajãs, numerosas e famosas na ilha de S. Jorge. Por vezes, as fajãs são formadas por escoadas de lava que deslizam até ao mar e solidificam sobre a plataforma das ilhas (fajã do Norte Grande, em S. Jorge).
Grandes baías formam portos naturais de abrigo. São exemplos a da Horta (ilha do Faial), a de S. Lourenço (ilha de Santa Maria) e a de Angra do Heroísmo (ilha Terceira), ainda hoje excelentes portos de abrigo que acolhem as embarcações a navegar por perto durante os temporais.
Ribeiras profundamente encaixadas nos materiais vulcânicos (também designadas por grotas) entalham as encostas de todas as ilhas. Algumas desaguam ao nível do mar, outras apresentam as fozes suspensas, cortadas no alto da vertente costeira, onde formam cascatas. O seu regime é torrencial; transbordam dos leitos durante as chuvadas, arrastando pedras, solos, árvores, animais e, por vezes, casas. Algumas correm apenas no Outono e Inverno e outras, mais longas e ramificadas, correm todo o ano. A água não escasseia e a sua energia foi muito usada pelas azenhas, na moagem tradicional. Tal como os moinhos de vento, de herança flamenga, actualmente apenas raras azenhas se encontram activas, por se ter deixado de cultivar cereais, em detrimento das pastagens para o gado bovino, que causam problemas ambientais sérios, na degradação e erosão dos solos, no assoreamento e turvação das lagoas, e na contaminação das águas subterrâneas.
Uma particularidade de referir é a existência de ribeiras de águas quentes, termais e férreas (Ribeira Quente, S. Miguel), onde cascatas e patamares formam piscinas termais, visitadas e usadas para terapia e lazer.
O clima, subtropical atlântico, é temperado húmido. A grande variabilidade dos tipos de tempo que ocorrem com frequência está relacionada com a posição relativa do anticiclone subtropical dos Açores e com as depressões polares. Chove quase todo o ano, em especial nas ilhas do grupo ocidental e mesmo nas mais altas do grupo central. Os valores da temperatura, da precipitação e da insolação médias anuais, bem como dos ventos dominantes, constam no quadro 1. Os verões são moderadamente quentes, com ventos fracos de W e S, e os invernos apenas frescos; porém, muito húmidos, ventosos e nevoentos. O rocio e a bruma, a chuva e o vento, as nuvens rolando, expressões constantes na literatura açoriana, são, efectivamente, imagens da realidade quotidiana dos Outonos, Invernos e Primaveras insulares, que perduram no imaginário dos ilhéus, mormente na nostalgia dos que emigraram. Pode nevar acima dos 1000 m de altitude, em especial no Pico. O verão é o período do ano mais soalheiro; Agosto é o mês mais quente e Fevereiro o mais frio. Julho e Agosto são os meses mais secos em todas as ilhas e Junho aquele em que ocorrem mais nevoeiros litorais. Estes devem-se aos ventos de SW que arrastam a massa tropical húmida para norte.
A proximidade da corrente do Golfo mantém a superfície da água do mar a 21-23o C no Verão, podendo atingir 25o C, e 15-18o C no Inverno. Mas contribui para a elevada humidade média relativa das ilhas, entre 77 e 87 %. Tais condições de humidade e termofilia permitiram a evolução de solos castanhos e negros, sobre as rochas vulcânicas; solos férteis que suportavam florestas densas de lauráceas que, ao tempo em que se iniciou o povoamento, constituíam a laurissilva macaronésica, formada por loureiro-das-ilhas, til, vinhático, faia-das-ilhas, cedro-das-ilhas, teixo (aqui chamado de pau-da-rainha pelo seu uso no mobiliário de estilo Dona Maria) e outras. Delas restam retalhos, nos fundos e escarpas das grotas e nas vertentes setentrionais, entre 600 e 800 m de altitude. Exploradas para lenha e madeira, as matas de laurissilva, na sua maior extensão, foram substituídas por campos de cultivo de cereais (trigo e milho), pomares de citrinos e culturas industriais como a beterraba, a batata-doce e o tabaco e, actualmente, por pastagens ou por matas de árvores exóticas de crescimento rápido, para produção de lenha e madeira (incenseiro, criptoméria, acácia, eucalipto, pinheiro-bravo).
O povoamento, desde o século xv, fez-se com nobres secundogénitos, refugiados políticos de Castela e indesejados da Coroa e com populações humildes e marginalizadas no reino: algarvios em Santa Maria, alentejanos em S. Miguel, e gentes do Norte, especialmente flamengos, fixados nas ilhas do Centro. Árabes e principalmente judeus, compelidos à cristianização, contribuíram para o enriquecimento cultural das maiores ilhas do Açores. Testemunhos ficaram na linguística, na toponímia, na gastronomia, nos bordados e nas tradições, algumas com inegáveis raízes criptojudaicas.
Em Santa Maria, o povoamento disperso contrasta com as restantes ilhas, onde as casas se concentram em núcleos populacionais que se prolongam, alinhadas, pelas vias de comunicação, especialmente ao longo das estradas circum-litorais, donde irradiam pelas lombas das encostas. Em todas as ilhas a densidade de população é mais elevada nas encostas expostas a sul do que nas setentrionais.
O crescimento da população, que levou à saturação demográfica do século xix (Gaspar, 1993), e os sucessivos episódios de catástrofes naturais devidas a erupções vulcânicas e/ou a crises sísmicas, levaram à emigração do povo açoriano, desde cedo orientada para os continentes americanos. Inicialmente para o Brasil, ainda no século xviii, onde fundaram aglomerados de pescadores e agricultores em Santa Catarina, no Rio Grande do Sul e no Pará, e de agricultores em Minas Gerais. Aí arreigaram tradições, como o culto do Espírito Santo, e enriqueceram a linguagem catarinense e gaúcha com regionalismos das ilhas. O rumo mais recente, e o mais atraente, foi a América do Norte. Para os Estados Unidos, na costa noroeste da Nova Inglaterra (Massachussets, Rhode Island, Connecticut) e na Califórnia, depois para o Canadá.
Pescadores, agricultores e criadores de gado, comerciantes ou empregados na indústria e nos serviços, mantêm tradições sociais e culturais (musicais, religiosas e gastronómicas), melhor preservadas que nas ilhas de origem, em que a cultura tradicional foi sendo progressivamente diluída pela influência irremediável dos órgãos de comunicação.
Actualmente, o arquipélago dos Açores constitui uma região autónoma da República Portuguesa, com governo próprio (Assembleia Regional e Governo Regional) e com um representante do Governo central, o ministro da República. Conta 19 concelhos (quadro 2), em que residiam, em 1991, 237 795 habitantes, 117 385 homens e 120 410 mulheres (INE, 1991), dos quais 53 % vive em S. Miguel, 23,4 % na Terceira, 6,4 % no Pico, 6,2 % no Faial, 4,3 % em S. Jorge, cerca de 2 a 2,5 % nas Flores, no Faial e em Santa Maria, e 0,2 % no Corvo. É uma população adulta (44,7 %), com 26,4 % de jovens (menos de 14 anos) e 11,2 % de indivíduos com mais de 65 anos.
A distribuição da população por concelhos consta no quadro 2, onde se pode observar a variação decenal da população, no decorrer do século xx. Aí se verifica a importância dos concelhos de Ponta Delgada (com 49,2 % da população da ilha), Angra do Heroísmo (com 63 %) e Praia da Vitória (com 37 %), onde, no conjunto, reside 49,6 % da população do arquipélago. Porém, a hegemonia demográfica das ilhas de S. Miguel e da Terceira foi muito mais marcada em 1960, antes do grande surto migratório dessa década. Nas restantes ilhas, mais pobres, o máximo populacional do século verifica-se em 1950. A I Guerra Mundial e a crise económica consequente foram o motivo da emigração dos dois primeiros decénios do século xx. A partir dos anos 20 a população do arquipélago cresce até 1950 e 1960, para diminuir progressivamente até ao presente, especialmente nas ilhas mais pequenas e com menos recursos. No Corvo, em 30 anos, a população ficou reduzida a cerca de metade.
A principal actividade económica é a pecuária associada à agricultura. Esta actividade ocupa mais de metade da população. A indústria é o sector económico mais desfavorecido, enquanto os serviços constituem a segunda mais importante actividade da população. Está ligada à exploração de bagacina e de pedra-pomes (S. Miguel), à pesca e conservas e farinhas de peixe, aos lacticínios, à transformação do tabaco e da beterraba, bem como à produção de bebidas (cerveja e refrigerantes). M. Eugénia S. Albergaria Moreira (Jan.1997)
Bibl. Gaspar, J. (1993), As Regiões Portuguesas. Lisboa, Ministério do Planeamento e da Administração do Território. Instituto Hidrográfico (1981), Roteiro do Arquipélago dos Açores. Lisboa, IH. Instituto Nacional de Estatística (1960), X Recenseamento Geral da População no Continente e Ilhas Adjacentes. Lisboa, INE, I, 1. Id. (1970), XI Recenseamento da População. Continente e Ilhas Adjacentes. Lisboa, INE, I. Id. (1981), XII Recenseamento Geral da População. II Recenseamento Geral da Habitação. Resultados Definitivos. 1981. Região Autónoma dos Açores. Lisboa, INE. Id. (1991), XIII Recenseamento Geral da População e Recenseamento Geral da Habitação. Resultados Definitivos. Lisboa, INE.
Açores Geografia
Quadro 1 - Principais características climáticas das ilhas dos Açores: T - temperatura média anual (ºC); TA - temperatura média de Agosto (mês mais quente); TF - temperatura média de Fevereiro (mês mais frio); TM - temperatura máxima (ºC); Tm - temperatura mínima (ºC); R - precipitação média anual (mm); NºdR - nº médio de dias de chuva por ano; I(h) - insolação média anual (nº de horas); I (%) - insolação média anual (em % do nº potencial de horas para a latitude das ilhas); Vr - Rumos anuais dominantes do vento; Vr - velocidade média anual do vento (Km/h). Valores médios do período 1941-1970 (Instituto Hidrográfico, 1981).

Açores Geografia
Quadro 2 - Variação da população residente nos Açores durante o século XX
HISTÓRIA-IDADE MODERNA Fontes, investigação e historiografia. A tipologia das fontes determina o estado actual do conhecimento histórico açoriano e define os principais rumos da investigação. Assim, a problemática das origens defronta a escassez de documentação inovadora, resultante da incipiência da administração primitiva e da perda dos acervos mais antigos, que nunca obtiveram a devida conservação. Por isso, o estudo do passado insular mais remoto privilegia a análise de um conjunto de diplomas muito versado e o cotejo das crónicas mais coevas dos empreendimentos marítimos de Portugal. Este parco campo de pesquisa demanda uma interpretação muito prudente, mas suscita inevitavelmente a incerteza, que gera teses contraditórias e por vezes fantasmagóricas. Nas centúrias mais recentes, apesar da perda de significativos núcleos documentais, por via da insensibilidade e do desleixo, releva sobretudo a riqueza e a abundância das fontes, que propicia uma considerável produção historiográfica.
A pesquisa e o conhecimento do passado manifestam a individualidade açoriana, que resulta de uma vivência de meio milénio num ambiente distinto do continental. Com efeito, a força da geografia condiciona o perfil histórico do arquipélago que, além disso, assume expressões particularmente diversas. O privilegiado posicionamento geográfico no Atlântico, definido pelo determinismo da natureza e pelas técnicas da navegação, e os surtos da economia euro-ultramarina, movidos pela sucessão das experiências coloniais, destacam a participação dos Açores na interacção das civilizações. O afastamento e a descontinuidade geográficos motivam, entretanto, o isolamento, que ampara a cristalização de muitas práticas e representações. Nestas circunstâncias, os planos de investigação relevam a contribuição insular para a construção do universo atlântico e promovem a realização de minuciosos estudos de incidência local, cuja necessidade deriva da dispersão arquipelágica por nove parcelas muito desiguais. No termo do século xvi, as Saudades da Terra do Doutor Gaspar Frutuoso cumprem já estes desígnios. Na verdade, o clérigo micaelense assinala ao mesmo tempo a especificidade açoriana, a correlação com os demais arquipélagos da Macaronésia e o envolvimento nas dinâmicas do Atlântico.
Nas ilhas, a magistral crónica frutuosiana inicia uma longa tradição de estudos históricos, que justifica o prudente uso da expressão «historiografia açoriana». De facto, da era de Quatrocentos aos nossos dias, reconhecemos três fases na pesquisa histórica insular, que possuem nítida correspondência na evolução historiográfica dos demais arquipélagos do braudeliano Mediterrâneo atlântico e do próprio Reino. Assim, no século xviii termina a primeira etapa, que respeita ao predomínio da cronística e à acção do clero. Depois, o tempo oitocentista equivale a um novo ciclo, muito marcado pela ideologia do liberalismo e pela prática do positivismo. Por último, na actual centúria, as manifestações de distintas correntes políticas e culturais coexistem com o aperfeiçoamento dos métodos, que propicia o incremento de uma investigação sólida e moderna. A orientação deste movimento cultural releva a dificuldade da inequívoca identificação de uma historiografia insular, porque a sucessão dos projectos e das realizações coabita com a reprodução de procedimentos e inquietações do exterior, que questiona a revelação de um ramo do saber muito independente.
A estreita correlação com as historiografias metropolitana e do circundante universo atlântico constitui, portanto, a principal característica da historiografia açoriana. Com efeito, a necessidade de articulação do geral com o particular obriga a um esforço de investigação muito plural, que implica a conexão com as problemáticas dos mundos envolventes. Contudo, em vez de pretexto de acomodação, o razoável conhecimento do passado significa sempre um estímulo de porfiada investigação, que possui por instrumento a observância dos ditames científicos mais actuais e por finalidade a redacção de uma história dos Açores, insistentemente reclamada por gerações sucessivas de insulanos.
Origem e fixação do topónimo Açores. A origem do topónimo Açores constitui o primeiro enigma da história insular. No esclarecimento desta questão, relevamos os testemunhos dos cronistas dos séculos xv e xvi, que unanimemente correlacionam o nome das ilhas com a abundância de aves encontrada pelos descobridores. Na discussão desta hipótese, ressaltam duas contrariedades: a hodierna inexistência de açores no arquipélago e o desenvolvimento da caça de altanaria no Portugal de Quatrocentos. Nestas circunstâncias, apenas a admissibilidade da alteração do habitat, resultante da ocupação humana, e a ignorância dos navegadores, insensível à rigorosa diferenciação das espécies, sustentam a integridade da tese mais comum. No entanto, a validade das crónicas, que persiste à porfiada acção da crítica histórica, ainda sustenta a veracidade do postulado avícola, cuja renúncia demanda a apresentação de provas irrefutáveis.
Na fixação do topónimo Açores, identificamos também a justificação religiosa. Neste caso, releva a influência da hipotética devoção de Gonçalo Velho Cabral, tido por descobridor, pela imagem de Santa Maria dos Açores, venerada num lugar do mesmo nome, próximo de Belmonte, terra de naturalidade do navegante. Nesta hipótese, ainda sobressai o incerto empenho da infanta D. Isabel, filha de D. João I. Assim, a piedade da princesa, que priva com Gonçalo Velho, pertencente à casa do infante D. Henrique, intervém no propósito da perpetuação deste culto mariano na empresa dos descobrimentos. Nesta perspectiva, adquire plena propriedade a atribuição das denominações Santa Maria e Açores à primeira ilha descoberta e ao arquipélago, respectivamente. Todavia, o enlevo desta tese contrasta com a falta de testemunhos credíveis e esbarra no cotejo da cronologia. Com efeito, o mutismo da História desacredita a conexão mariana, então muito dependente de artifícios literários e descrições miraculosas. Do mesmo modo, a averiguação dos factos destaca a inverosimilhança da conjectura. Na verdade, ressalta a incongruência da participação de D. Isabel, que deixa Portugal em Dezembro de 1429, para casar com Filipe, o Bom, duque de Borgonha. Nestas circunstâncias, a realização das viagens de Gonçalo Velho Cabral apenas em 1431, ou mais seguramente em 1432, contraditam o directo envolvimento da infanta e até a sua prévia intervenção na determinação do nome Açores. Na altura, a ausência de um plano de descobrimentos impede o capitão originário de Belmonte da previsão de uma posterior incumbência da procura de novas terras, apesar da sua cooperação no esboço da expansão quatrocentista.
A acumulação das incertezas gera naturalmente a proliferação das teses, cujas características residem cada vez mais na insuficiência das provas. A título de mero exemplo, destacamos a concordância do nome Açores com o termo italiano azurri (azuis). Esta hipótese radica na crença do descobrimento trecentista do arquipélago, eventualmente operado por mareantes genoveses, que destacam por elemento de diferenciação do novo achado a tonalidade das ilhas na aproximação marítima.
A problemática da denominação não respeita exclusivamente à origem do nome Açores. Com efeito, a dispersão das ilhas por uma extensa área geográfica motiva o tardio achamento das Flores e Corvo, que permaneceram por algum tempo como conjunto autónomo, ordinariamente cognominado de «floreiras ou corvinas». Por outro lado, outras designações identificam o arquipélago em diversos períodos da sua história, particularmente no decurso da modernidade. Assim, a participação da Flandres no povoamento e a proeminência política e geoeconómica da Terceira entre os séculos xv e xvii determinam os correspondentes epítetos de «flamengas» e «terceiras».
(Re)descobrimento. A questão do achamento dos Açores, apesar de suficientemente dissecada, ainda provoca interpretações dissemelhantes. A principal dúvida reside no confronto entre a defesa da precedência da acção portuguesa do século xv e a averiguação de um conhecimento prévio, cujos defensores ordinariamente consideram trecentista, embora por vezes também admitam uma referência mais antiga. Neste debate, a individualização de um desígnio europeu de expansão marítima anterior à iniciativa da monarquia de Avis constitui obviamente um sério motivo de reflexão. Contudo, a insuficiência das técnicas e a falta dos incentivos económicos determinam o malogro das navegações, que invariavelmente sucede no começo da costa ocidental africana e na proximidade dos arquipélagos atlânticos contíguos, sobretudo as Canárias e talvez a Madeira.
As notícias da chegada aos Açores de povos da Antiguidade carecem de prova incontroversa, que as investigações arqueológicas constantemente refutam. Assim, perdura o enigma sobre os eventuais vestígios da época clássica na ilha do Corvo, mormente a descoberta de moedas fenícias, cujo transporte também se atribui aos povoadores portugueses, e a identificação de uma estátua humana virada a ocidente, cuja verosimilhança apenas reside na referência de Damião de Góis. Nesta conjuntura, os partidários do conhecimento das ilhas antes da era henriquina convergem nas alegadas evidências do século xiv, que derivam da análise das fontes literárias e fundamentalmente cartográficas. No âmbito da literatura, avulta o depoimento do denominado Libro del Conoscimiento, da autoria de um frade mendicante castelhano, que descreve a realização de uma viagem por 25 ilhas do Atlântico oriental, com a eventual inclusão dos Açores. No domínio da cartografia, releva em diversos mapas trecentistas uma representação insular, situada a norte da Madeira em paralelo à costa peninsular, composta de cerca de 9 unidades com designações semelhantes às das futuras ilhas açorianas. Apesar da incorrecta orientação, no sentido N-S em vez de NO-SE, da imperfeição do desenho e da excessiva adjacência ao Reino, vários estudiosos crêem numa efectiva figuração dos Açores, resultante da frequência dos mares por navegantes, porventura estrangeiros. Na base deste descobrimento da era de Trezentos, admite-se a utilização de um procedimento náutico semelhante àquele que possibilita o conhecimento da Madeira. Na prática, trata-se de um desvio da rota de retorno de Marrocos e das Canárias, aproveitando o regime dos ventos e correntes, os rudimentos da navegação astronómica e os progressos da construção naval. A confirmação desta possibilidade ainda demanda a apresentação de provas inequívocas. Porém, mesmo na hipótese de futura certificação, ressalta a contingência do evento, que diverge da organização quatrocentista, decorrente do pioneirismo dos portugueses.
O conhecimento dos Açores implica, porventura, a realização da primeira viagem europeia no mar largo. Assim, sustenta a abertura dos descobrimentos modernos, considerando a sua influência na consecução das grandes travessias de Cristóvão Colombo e Vasco da Gama. Nestas circunstâncias, muitos historiadores salientam a necessidade da utilização de capacidade técnica apenas disponível no século xv, quando ressalta a iniciativa marítima de Portugal. Este entendimento advoga a prioridade henriquina, que se não motiva o achamento do arquipélago determina a sua admissão na marcha da civilização.
No actual estado da investigação, a credibilidade e a clareza dos testemunhos sustentam a legitimidade da corrente historiográfica que advoga a prioridade dos portugueses no século xv. De facto, em referência ao descobrimento dos Açores, os principais cronistas da expansão quatrocentista, mormente Gomes Eanes de Zurara, Diogo Gomes, Martinho da Boémia e Valentim Fernandes, apontam a iniciativa de Gonçalo Velho Cabral do princípio do decénio de 1430. Por outro lado, as fontes cartográficas representam pela primeira vez o arquipélago com fidelidade, propiciando a correcção do nome do descobridor e a previsão da data do achamento. Neste caso, destacamos a utilidade dos mapas do genovês Battista Beccario (1435) e sobretudo do maiorquino Gabriel de Valseca (1439). O estudioso de Génova alude a ilhas de novo achadas na região açoriana, coincidindo com a informação da cronística portuguesa. O cartógrafo de Maiorca desfaz as últimas dúvidas, considerando o rigor da sua descrição nos distintos domínios da figuração, da cronologia e da acção. Com efeito, em vez do informe e tradicional conjunto insular, Valseca apresenta os Açores com correcção, ressaltando a perfeição dos contornos e principalmente a conformidade da localização, que obedece às coordenadas da latitude, da longitude e da orientação. Do mesmo modo, o novo mapa comporta uma inscrição fundamental, que atribui a descoberta ao piloto Diogo de Silves, no ano de 1427. Além disso, a cartografia de Quatrocentos contradita o eventual conhecimento trecentista ilhense, porque persiste muitas vezes na representação em simultâneo do arquipélago verídico e do precedente e imperfeito agrupamento ilhéu, vulgarmente identificado com os Açores. Deste modo, acrescem as dúvidas sobre o desenho do século xiv, vacilando as opiniões entre o resultado de uma exploração prévia à iniciativa henriquina e a manifestação de uma típica tendência medieval, que povoa o oceano de ilhas míticas, procuradas em vão durante séculos.
Na historiografia insular, a legenda da carta de Valseca levanta ainda algumas dúvidas. Em primeiro lugar, avulta o debate da tradicional versão de Gaspar Frutuoso, que situa o descobrimento dos Açores em 1432, atribuído a Gonçalo Velho Cabral, com proeminente e reconhecida participação no advento do povoamento. Depois, ressalta o desconhecimento do navegador Diogo de Silves, cuja identificação resulta apenas de uma leitura paleográfica de Damião Peres, muito firmada no predomínio de navegantes algarvios nos alvores da expansão quatrocentista portuguesa. Por outro lado, esta hipótese surge na sequência de múltiplas sugestões, sucessivamente apresentadas por diversos estudiosos, que destacam quase sempre a dificuldade da interpretação, após o funesto episódio de 1839, resultante de um derrame de tinta sobre o pergaminho, aquando da realização de uma pesquisa em Maiorca, solicitada pela escritora George Sand. Nestas circunstâncias, os corifeus da tese frutuosiana resistem à exegese mais recente, pois perseveram na autoria de Gonçalo Senil (Velho), com similitude nas variantes Diogo de Silves, Sunis, Sines, Sevilha ou Simas, e nas datas de 1432 ou eventualmente de 1437, nas vésperas da carta régia de 1439, que atribui ao infante D. Henrique o encargo da ocupação.
A disseminação dos Açores por um vasto espaço complexifica o esclarecimento do problema da descoberta. Com efeito, após o achamento de Santa Maria e de S. Miguel, logo seguido pelo conhecimento do grupo central, decorre um longo tempo até à exploração das parcelas mais ocidentais e isoladas de Flores e Corvo. Aliás, este conjunto insular até adquire uma denominação diferente, resultante da crença de constituição de um distinto arquipélago. Em relação ao seu descobrimento, a unanimidade dos cronistas move a generalidade dos estudiosos à atribuição do feito a Diogo de Teive, que empreende uma viagem pelos mares do Ocidente, quarenta anos antes da chegada de Cristóvão Colombo ao Novo Mundo. Assim, ganha crédito também a data de 1452, sustentada por referências basilares. Na verdade, em 1448, o mapa do veneziano André Bianco exclui as «ilhas floreiras», cuja representação já se individualiza na carta de Soligo em 1456. Além disso, ressalta a correlação lógica entre a carta régia de doação do Corvo ao duque de Bragança em 1453 com a possibilidade de descobrimento no ano anterior. Neste caso, a única dúvida reside no cepticismo de Viriato Campos, que identifica o Corvo do diploma afonsino com uma ilha mítica, despertadora de maior cobiça do que a espécie de ilhéu açoriano. Porém, mesmo no reconhecimento da veracidade desta tese, a clarificação da entrada dos portugueses no grupo ocidental não exige uma sensível revisão.
No 2.º quartel do século xv, as causas do descobrimento dos Açores demandam alguma reflexão. Em princípio, quadram no grupo diverso e complexo de estímulos geopolíticos e socioeconómicos do impulso europeu de expansão marítima, então muito protagonizado por Portugal, sob apertada pressão castelhana. Todavia, a generalidade desta asserção sempre justifica a pesquisa de motivações mais específicas. O propósito de alargamento da área de influência dos portugueses impõe a diligente exploração dos mares, que releva a utilidade da base açoriana. Contudo, a tradicional evidência da relevância estratégica exige uma interpretação de maior comedimento, porque as importantes funções de escala da rota de retorno da costa africana e de sustentáculo de viagens para Ocidente parecem mais consequência do que motivação do achamento das ilhas em 1427. De facto, a força da geografia irrompe mais tarde, depois da dobragem do mítico cabo Bojador em 1434, da sucessiva chegada dos portugueses à Guiné e Mina e do concomitante estabelecimento de carreiras comerciais regulares, que naturalmente empreendem a volta pelo largo no regresso ao Reino. Por isso, julgamos de maior prudência a conexão do achamento do arquipélago com a necessidade de supressão de dificuldades económicas do país, que não alcançam adequada satisfação no problemático domínio de Marrocos e na principiante arroteia madeirense.
Povoamento. Até ao último quartel do século xv, a questão açoriana não constitui sensível prioridade no projecto expansionista de Portugal, ainda muito restrito à gesta marroquina e eventualmente à incipiente arroteia madeirense. Porém, sempre descortinamos diversas causas, que implementam o povoamento dos Açores. Em primeiro lugar, as adversidades militares do Norte de África, depois a extenuada exploração da Madeira e finalmente a necessidade de domínio dos mares. Contudo, a ocupação ilhense também defronta sérias contrariedades. Neste particular, enumeramos a diversidade e a inclemência do novo meio e a exiguidade demográfica do país, que até gera oposição à primaz empresa de Marrocos. Aliás, diversas opções da colonização comprovam inequivocamente esta penosa conjuntura. A comprová-lo, recordamos a utilização de homiziados, cuja prática enraíza na experiência metropolitana de previdente repovoamento das fronteiras, que mais tarde ainda adquire maior relevo nos arquipélagos de Cabo Verde e de S. Tomé, mais inóspitos na perspectiva dos europeus.
Nos Açores, o ritmo do povoamento resulta das distintas datas do descobrimento, da valorização das ilhas no império português e da contingente situação do Reino. Estas determinantes motivam uma arroteia naturalmente descontínua e morosa, que tarda quase um século. Com efeito, a exploração económica remonta à década de 1430, porquanto uma carta régia de 1439 certifica o prévio lançamento de gado nas ilhas inicialmente descobertas, para sustento dos futuros povoadores. Contudo, no período henriquino, a ocupação circunscreve-se muito às ilhas de Santa Maria e S. Miguel, as primeiras na ordem do achamento e geograficamente mais próximas da metrópole. Além disso, admitimos um eventual desembarque de habitantes na Terceira, mas reconhecemos o despovoamento das demais ilhas dos grupos central e ocidental.
No tempo de D. Fernando, ao invés do sucedido na Madeira, o povoamento dos Açores experimenta uma relativa inacção. Porém, na menoridade de seus filhos, entre os anos de 1470 e 1483, a infanta e viúva D. Beatriz opera um notável incremento da ocupação, através de uma reorganização administrativa, que confere maior uniformidade e eficácia à acção dos responsáveis. Neste caso, relevam os acontecimentos de 1474, nomeadamente em S. Miguel, com a venda da capitania a Rui Gonçalves da Câmara, com experiência do povoamento madeirense, e na Ter
