aclimar
O mesmo que aclimatar. Diz-se do conjunto de reacções que procura colocar um indivíduo em condições de ter uma vida saudável, em climas diferentes do que lhe é habitual.
A aclimação tem sido encarada de vários pontos de vista. Em antropologia diz-se que uma raça está aclimada a uma região quando os seus indivíduos estão adaptados ao clima, isto é, de saúde e em condições de se perpetuarem, mesmo que modificados por exigência do novo ambiente. O homem aclima-se facilmente nas regiões frias ou nas regiões de elevadas altitudes, mas tem dificuldade em se habituar aos países quentes. É pelos 35 anos que a aclimação se torna mais fácil e pelos 42 que ela é mais incómoda. Em medicina é entendida como o conjunto de modificações mais ou menos profundas que ocorrem num organismo introduzido num clima acentuadamente diferente do habitual. Os indivíduos ao transferirem-se para climas que não lhes são familiares desencadeiam respostas orgânicas que tendem a pô-los em equilíbrio com o seu novo ambiente, adaptando-os às novas condições deste. Assim acontece com os emigrantes açorianos em diferentes partes do mundo onde estão submetidos a circunstâncias climatéricas que os obrigam a outras condições de vida e a novos hábitos e costumes.
Em botânica aclimação significa a capacidade que uma planta tem de se habituar a viver em cultura ou de modo espontâneo numa região diferente daquela de onde é natural, mas que apresenta condições idênticas de solo e clima. Muitas das plantas que ocorrem nos Açores são oriundas de regiões muito diferentes que foram introduzidas de modo acidental ou intencional, como acontece com a quase totalidade das plantas cultivadas. Mais, muitas plantas que actualmente crescem no estado espontâneo ou subespontâneo foram introduzidas nas últimas décadas em virtude do aumento do tráfego marítimo e aéreo. Nos Açores, como refere Furtado (1884), «o simples exame da vegetação dá uma ideia perfeita da benignidade do clima: sabe-se de que modo, ao lado das plantas boreaes indigenas, vegetam ao ar livre as plantas tropicaes dos jardins, os fetos arboreos, os bambus, as palmeiras, araucarias, bananeiras, camelias». No século xix, algumas personalidades açorianas construíram jardins onde eram aclimadas plantas provenientes de diversas regiões, algumas das quais foram posteriormente introduzidas em jardins botânicos europeus. Naquela época eram bem conhecidos os jardins de José do Canto, Jácome Correia e António Borges, em Ponta Delgada, Thomas Hinkle, nas Furnas, e Dabney, na Horta.
Em zoologia, aclimação significa a capacidade dos animais de viverem e se reproduzirem no meio onde são introduzidos, tal como naquele de onde são originários. Prepara-se fazendo os animais passarem, gradualmente, da região de origem para aquela onde se querem aclimar e obtém-se ao fim de várias gerações. Durante este processo, os animais sofrem uma crise mais ou menos profunda evidenciada por entristecimento, pelagem anormal, perda de apetite, de instinto genético e ainda por outras manifestações. Terminada a aclimação, os animais dizem-se naturalizados.
Foram os portugueses que levaram para os Açores, após a descoberta, muitos animais que se foram aclimando aos habitats a que eram forçados e que hoje estão integrados na sua fauna. Os animais domésticos faziam sempre parte dos carregamentos das naus portuguesas quando do povoamento e com eles muitos outros animais foram introduzidos. Segundo Furtado (1884), «nenhum mammifero alem do morcego [...] foi encontrado pelos primeiros povoadores. Os ratos e coelho selvagem são hoje muito abundantes. Os passaros são mais numerosos, o canario está excessivamente multiplicado e a codorniz tambem; a pomba da rocha é pouco abundante e a perdiz, muito commum na ilha visinha de Santa Maria, não é possivel acclimal-a aqui [em S. Miguel]. [...] As rãs, duma introducção muito recente, pullulam por toda a parte [...] As formigas europeas domesticas e campestres, o gorgulho dos trigos, o grillo, gafanhotos da Europa, o terrivel Sphinx convolvulis (bicho de batata) e diversas outras lagartas, e varias especies do genero Aphis (piolho da fava e do feijão), são os insectos que convem mencionar». Tal como foi referido para as plantas, também muitos animais foram introduzidos e se aclimaram, nos Açores, nas últimas décadas, como consequência do incremento dos tráfegos marítimo e aéreo. Luís M. Arruda (Dez.1997)
Bibl. Furtado, F. A. (1884), Materiaes para o estudo anthropologico dos povos açorianos. Ponta Delgada.
