ácaros oribatídeos

Os ácaros constituem o grupo mais numeroso dentro dos aracnídeos. Alguns são parasitas, mas a maior parte tem vida livre, destacando-se nestes os oribatídeos (Oribatei) que, juntamente com os colêmbolos, constituem a fauna predominante do solo.

Os ácaros oribatídeos são animais diminutos, pois poucos ultrapassam 1 mm, passando, assim, despercebidos à maioria das pessoas. Talvez devido a isso, não possuem nomes vernáculos. As suas pequenas dimensões não impedem, no entanto, que apresentem uma morfologia complexa. Em geral, o seu tegumento encontra-se bastante quitinizado, pelo que muitos deles têm o aspecto de pequeníssimos escaravelhos. O seu corpo encontra-se dividido, apenas em duas partes, através de um sulco transversal, sendo a anterior o prosoma e a posterior opistosoma. O prosoma apresenta quase sempre um escudo dorsal ou prodorso e o opistosoma outro escudo que se denomina notogáster. O prodorso apresenta somente estruturas laminares designadas lamelas, tutórios e pedoctetos, segundo a sua localização, e que têm por função proteger os artículos basais dos primeiros pares de patas. Há um grupo de oribatídeos em que o notogáster apresenta, de cada lado, uma expansão em forma de asa, denominada pteromorfo (figs. 5 e 6), que pode ser articulada e móvel, mas que não serve para voar. Estas expansões, que se encontram sobre a parte ventral, constituem uma protecção eficaz para as patas. Tanto o prodorso como o notogáster possuem pêlos quitinosos cujo número, caracteres e disposição são muito importantes em taxonomia. De entre eles destacam-se os sensilos, par de pêlos muito especializados, situados na parte posterior do prodorso, de grande importância sensorial, que podem ter diferentes formas e desenvolvimento, e que emergem de umas estruturas em forma de taça ou de anel, chamadas botrídeos. As peças bocais são formadas por quelíceras e pedipalpos, e encontram-se ocultas numa cavidade, o camerostoma. Estes animais não possuem órgãos de visão, mas algumas espécies apresentam no notogáster uma zona arredondada geralmente bem delimitada, denominada lentícula, que é sensível à luz e que serve para poder fugir dela, pois todos os oribatídeos são lucífugos. Na face ventral, por detrás da zona esternal encontram-se dois orifícios, um atrás do outro, sendo o anterior o genital e o posterior o anal, cada um dos quais está coberto por um par de valvas articuladas. Apresentam quatro pares de patas, formadas por cinco artículos: trocânter, fémur, patela, tíbia e tarso, este último terminado por uma ou três garras, raramente por duas.

Estes ácaros apresentam sexos separados, ainda que o dimorfismo sexual seja inexistente ou muito pequeno; no entanto, são conhecidas espécies partenogenéticas. A transferência de espermatozóides efectua-se através de espermatóforos que o macho deposita no solo e que a fêmea recolhe, com ou sem prévia dança nupcial. Algumas espécies são vivíparas, mas a maior parte é ovípara. O ovo contém um embrião que muda a pré-larva ainda no seu interior, a qual apresenta somente esboços de extremidades. A pré-larva muda e passa a larva, livre e móvel, já provida de três pares de patas e de aparelho digestivo, mas sem orifício genital. A larva muda e passa a protoninfa, já com quatro pares de patas e orifício genital, sofrendo ainda mais três mudas, passando por deutoninfa, tritoninfa, até atingir o estado adulto. Uma vez neste estado não sofre mais mudas.

Os ácaros oribatídeos vivem em interstícios no solo, nos espaços perirradicais, em líquenes e em musgos, nas gretas das cascas de árvores, em madeiras e troncos caídos, sobre plantas herbáceas e nas folhas de árvores, alguns sobre vegetais aquáticos e inclusivamente no interior de habitações humanas. Alimentam-se de resíduos vegetais, folhas caídas, madeira em decomposição, cascas, grãos de pólen, esporos de fungos, etc.; onde quer que existam estes resíduos orgânicos e certo grau de humidade, desenvolvem-se estes ácaros. Têm grande importância ecológica, pois a sua acção na fragmentação dos restos vegetais facilita a actuação de bactérias e fungos, os quais têm uma acção fundamental na mineralização da matéria orgânica, para poder ser reutilizada pelas plantas. Os resíduos vegetais inteiros, não fragmentados, demorariam muitíssimo tempo a ser decompostos e mineralizados.

A primeira citação sobre os ácaros oribatídeos dos Açores deve-se a M. Hammer (1969), que encontrou quatro espécies procedentes do arquipélago, mas obtidas numa estação de quarentena nos Estados Unidos. Posteriormente estes animais foram estudados por G. Weigmann (1976), C. Pérez-Iñigo (1988 e 1992), M. J. Morell e L. S. Subias (1992) e C. Pérez-Iñigo e C. Pérez-Iñigo Jr. (em impressão). Os trabalhos dos mencionados autores permitiram conhecer um total de 116 espécies (veja-se lista anexa), número que com segurança aumentará no futuro, à medida que se elaborarem novos estudos.

As 116 espécies conhecidas apresentam a seguinte distribuição: Holárcticas, 27 (23,28 %); Paleárcticas, 45 (38,79 %); Endémicas, 31 (26,72 %); Cosmopolitas, 10 (8,62 %); Macaronésicas, 2 (1,72 %) e 1 Circum-tropical (0,86 %). Das espécies paleárcticas, 30 são originárias da Europa Ocidental, 11 da sub-região mediterrânica e 4 de distribuição mais vasta. Doze das espécies encontradas nos Açores também existem na Madeira, 21 nas Canárias e 7 são comuns aos três arquipélagos. Apesar destes dados, não se pode deduzir uma maior afinidade da fauna açoriana com a das Canárias do que com a da Madeira, pois a fauna acarológica madeirense está muito menos estudada do que a das Canárias. É interessante referir que, como assinalou Pérez-Iñigo (1988), a fauna acarológica canária apresenta mais elementos comuns com a sub-região mediterrânica, enquanto a dos Açores os apresenta com a da Europa Ocidental.

Os oribatídeos, não obstante o seu pequeno tamanho, apresentam uma grande capacidade de dispersão, pois podem ser arrastados pelo vento como grãos de pó, sobrevivendo certo tempo na água; podem atravessar o oceano em madeiras flutuantes, alguns são foréticos, etc.

As espécies endémicas que apresentam um maior interesse são:

Archiphthiracarus atlanticus Pérez-Iñigo, 1987 (Phthiracaridae): pertence ao grupo de oribatídeos cujo prosoma está articulado com o opistosoma de forma a poder dobrar-se sobre este, formando uma bola, quando com as patas encolhidas. O animal distendido mede um pouco mais de um milímetro; o prodorso apresenta de cada lado um sensilo curto, alargado na sua parte média e terminando por uma ponta aguda; o notogáster é muito abaulado, visto lateralmente é quase esférico, com 15 pares de sedas finas e compridas, e a sua superfície é lisa; pela face ventral as valvas genitais possuem cada uma 9 pêlos e as valvas anais 5, compridos e encurvados.

Heminothrus oromii Morell e Subias, 1992 (Camisiidae): alcança um comprimento de 666 micra; o prodorso tem a forma de um triângulo, a superfície apresenta um certo número de cristas quitinosas; o notogáster é quase quadrado e possui 15 pares de pêlos, ainda que só se observem 13 dorsalmente; todos os pêlos se inserem em apófises, sendo as posteriores mais desenvolvidas; os pêlos laterais e os posteriores são compridos e ciliados, os centrais são mais curtos, embora também ciliados. As placas genitais possuem nove pêlos cada. As patas terminam por uma só garra.

Hermannia woasi Pérez-Iñigo, 1992 (Hermannidae): é um ácaro grande (1110-1122 micra de comprimento), a sua cor é castanho-avermelhada; a união do prosoma com o opistosoma é fixa, o que não permite que se enrole em forma de bola. Toda a superfície do corpo está coberta de pontos escuros, o notogáster mostra também pequenos tubérculos arredondados, os sensilos são curtos, com aspecto de pequenas varetas; o notogáster é ovalado e suporta 16 pares de pêlos, bastante compridos, com a extremidade pontiaguda; os orifícios genital e anal estão quase em contacto e cada valva genital possui 15 pêlos.

Pilocepheus azoricus Pérez-Iñigo, 1992 (Cepheidae): mede 800-880 micra de comprimento, de cor castanha e forma mais ou menos ovalada. Toda a superfície se encontra coberta de fossetas ovaladas. Os sensilos são umas varetas muito compridas cuja metade distal apresenta barbelas muito curtas; a separação entre prodorso e o notogáster é uma linha curva. O notogáster suporta 10 pares de pêlos, estando um destes pares inserido nos dois ângulos anteriores, sendo muito curtos e finos; quatro pares de pêlos bastante compridos e grossos formam duas filas centrais, e cinco pares com o mesmo aspecto que os anteriores, nas margens. Cada valva genital possui seis pêlos. As patas terminam por três garras, a central mais grossa do que as laterais.

Humerobates pamboi Pérez-Iñigo, 1992 (Humerobatidae): comprimento de 700 a 880 micra. O prodorso apresenta pêlos notavelmente compridos e uns sensilos muito curtos, providos de um pedúnculo muito pequeno e com a cabeça em forma de pêra. O notogáster, que é ovalado, possui de cada lado uma expansão em forma de asa triangular, articulada e móvel (pteromorfo), cuja missão é proteger as patas. Além disso, existem quatro pares de áreas ovaladas, perfuradas por numerosos poros, chamadas áreas porosas, que são órgãos respiratórios, e são característicos do grupo de oribatídeos designados Poronóticos. Em contrapartida, os pêlos estão reduzidos aos alvéolos, em número de dez pares. Existem seis pares de pêlos genitais; cada pata termina por três garras quase iguais em tamanho e forma.

Galumna azoreanum Pérez-Iñigo, 1992 (Galumnatidae): mede de 800 a 900 micra de comprimento, o prodorso mostra uns sensilos bastante compridos, formados por um pedúnculo fino e com a cabeça lanceolada. O notogáster é quase circular, provido de um par de pteromorfos muito grandes, em forma de orelhas. existem quatro pares de zonas porosas, das quais o par anterior é formado por áreas muito grandes com a forma da letra L; o par seguinte é formado por áreas grandes e arredondadas, o terceiro por áreas ovaladas e o quarto por áreas alargadas transversalmente. Possui seis pares de pêlos genitais. Carlos Pérez-Iñigo (Nov.1995)

Bibl. Hammer, M. (1969), Oribatids found at plant quarantine stations in the USA. Videnskabelige Meddrelelser fra dansk naturhistorik Forening, 132: 63-78. Morell, M. J. e Subias, L. S. (1992), Oribatid mites from the Azores Islands (Acari, Oribatida). Boletim do Museu Municipal do Funchal, 43: 73-105. Pérez-Iñigo, C. (1987), Oribátidos de las islas Azores (I), Eos, 63: 197-228. Id. (1988), Biogeografía de los oribátidos (Acari) de la Macaronesia In Actas do III Congresso Ibérico de Entomologia: 19-32. Id. (1992), Oribatid mites (Acari, Oribatei) from the Azores Islands, II. Açoreana, 7 (3): 345-370. Pérez-Iñigo, C. e Pérez-Iñigo Jr., C. (1995), Oribátidos (Acari, Oribatei) de las islas Azores III. Especies recogidas en trampas para insectos y descripción de cinco especies nuevas. Boletín de la Real Sociedad Española de Historia Natural (Secc. Biológica), 92: 1-4 (no prelo). Weigmann, G. (1976), Ergebnisse der Forschungsreise auf die Azoren VIII. Oribatiden von den Azoren (Acari, Oribatei). Boletim do Museu Municipal do Funchal, 30: 5-25.

 

LISTA DE ÁCAROS ORIBATÍDEOS DOS AÇORES (Acari, Oribatei)

 

Entre parêntesis e em abreviatura figuram as ilhas nas quais foram encontrados. FAI: Faial; FLO: Flores; GRA: Graciosa; SJO: S. Jorge; SMA: Santa Maria; SMG: S. Miguel; PIC: Pico e TER: Terceira. Não se recolheu nenhum exemplar no Corvo. Com (*) indicam-se as espécies endémicas dos Açores.

 

Família HYPOCHTHONIIDAE

Hypochthonius rufulus C. L. Koch, 1836 (SMG, FAI)

 

Família PHTHIRACARIDAE

Phthiracarus piger (Scopoli, 1736) sensu Willmann, 1931 (SMA, SMG, FLO, GRA, PIC, FAI, TER)

Phthiracarus affinis (Hull, 1914) (TER)

Phthiracarus flexisetosus Parry, 1979 (SMG,TER)

Archiphthiracarus atlanticus Pérez-Iñigo, 1987 (SMA, TER) (*)

Archiphthiracarus anonymus (Grandjean, 1934) (TER)

Archiphthiracarus montanus (Pérez-Iñigo, 1969) (TER)

Archiphthiracarus falciformis Morell e Subías, 1992 (TER) (*) Calyptophtiracarus maritimus Pérez-Iñigo e Pérez-Iñigo Jr., e.p. (SMG) (*)

Steganacarus striculus insularis Weigmann, 1976 (FAI)

Steganacarus hirsutus azorensis Pérez-Iñigo, 1992 (SMA, SMG, GRA, TER) (*)

Steganacarus insulanus Pérez-Iñigo e Pérez-Iñigo Jr., e.p. (SMG) (*)

 

Família ORIBOTRITIIDAE

Oribotritia berlesei (Michael, 1898) (SMA, SMG, FLO, GRA, PIC, TER)

 

Família EUPHTHIRACARIDAE

Euphthiracarus excultus Pérez-Iñigo, 1987 (SMA) (*)

Euphthiracarus cribrarius (Berlese, 1904) (SMG, TER)

 

Família NOTHRIDAE

Nothrus silvestris Nicolet, 1855 (FAI, PIC, TER)

Nothrus palustris palustris (C.L. Koch, 1839) (SMA, SMG, TER)

Nothrus palustris azorensis Pérez-Iñigo, 1987 (SMA, SMG, FLO, GRA, TER) (*)

 

Família CAMISIIDAE

Camisia segnis (Hermann, 1804) (GRA)

Camisia horrida (Hermann, 1804) (PIC)

Heminothrus oromii Morell e Subías, 1992 (TER, SMG) (*)

Platynothrus peltifer (C.L.Koch, 1840) (FAI, SMA, SMG, TER)

 

Família NANHERMANNIDAE

Nanhermannia nanus (Nicolet, 1855) (GRA, TER, SJO, PIC)

Nanhermannia coronata Berlese, 1913 (TER)

Nanhermannia elegantula Berlese, 1913 (sem indicar a ilha)

 

Família HERMANNIIDAE

Hermannia woasi Pérez-Iñigo, 1992 (FLO) (*)

Hermannia evidens Pérez-Iñigo, 1992 (SMA) (*)

Hermannia nodosa Michael, 1888 (TER)

 

Família HERMANNIELLIDAE

Hermanniella incondita Pérez-Iñigo, 1987 (SMA, SMG, GRA, FAI, PIC, TER) (*)

Hermanniella granulata (Nicolet, 1855) (GRA,TER)

 

Família DAMAEIDAE

Damaeus (Eudamaeus) pomboi Pérez-Iñigo, l987 (SMA, SJO, TER) (*)

Damaeus (Paradamaeus) clavipes (Hermann, 1804) (GRA, TER)

Damaeus (Adamaeus) onustus C. L. Koch, 1844 (SMG)

 

Família BELBIDAE

Metabelbella interlamellaris Pérez-Iñigo, 1987 (SMA) (*)

 

Família CEPHEIDAE