abrasar
v. Pôr em brasa; queimar. Na linguagem quotidiana, tanto nos Açores como no Continente, ocorre, de um modo geral, significando, por hipérbole, pôr como - e não, literalmente, em - brasa, ou seja, tornar muito quente, sobreaquecer; ou então em sentido figurado: «Coava-se-me nas veias um fogo lento [...], abrasavam-se-me os sentidos [...]» (Bem, 1907: 49). Tem, no entanto, sentido próprio, significando pôr (transformar) em brasa, queimar - na expressão, corrente nos Açores, «Um fogo te abrase!», usada como praga: «[...] proferindo ele, sempre, ao encontrar-me, a sua favorita e terrificante frase: - Um fogo te abrase!» (Costa, 1949: 346). A mesma expressão, com o objecto directo expresso na primeira pessoa, também se emprega para caucionar uma jura ou qualquer declaração que se pretenda fazer aceitar como verdadeira sob palavra: «Ele assegurou-lhe batendo no peito: - Um fogo me abrasa (sic) se isto não é assim» (Dias, 1943: 77). O teor maléfico da praga pode ser intensificado substituindo-se o artigo indefinido um pelo adjectivo mau (pronunciado geralmente, neste caso, má): «Má fogo te abrase!» Nesta expressão, fogo está por raio de fogo ou por, simplesmente, raio, equivalendo a praga a raios te (ou me) partam!, corrente no português continental e igualmente vulgar nos Açores: «[...] maos raios me partam, grande lapareiro, se não vás pagar as favas todas [...]» (Ataíde, 1974: 316). Eduíno de Jesus (Out.1997)
Bibl. Ataíde, L. B. L. (l974), Etnografia, Arte e Vida Antiga dos Açores. Coimbra, Biblioteca Geral da Universidade, III. Bem, M. (1907), No Íntimo, In Insulares. Lisboa, Parceria António Maria Pereira. Costa, J. (1949), Saltapiada ou a Casula Negra. S.l. Dias, U. M (1943), O Mr. Jó. Vila Franca do Campo, Tip. de A Crença.
