abóbora
HISTÓRIA NATURAL Fruto de várias plantas pertencentes à família Cucurbitaceae, distribuídas pelos géneros Cucurbita e Lagenaria. Também se dá esta designação à aboboreira. Localmente, as abóboras têm designações várias, como:
Abóbora-cabaça Nome vulgar de Lagenaria siceraria. Anual, vigorosa, com flores brancas, frutos de forma diversa (piriforme, estrangulados a meio, alongada, aclavada, arredondada e outras), de pele muito dura e polpa branca. As cabaças foram usadas nos Açores ainda no início deste século no transporte de leite. Escolhiam-se frutos muito grandes e eram curados ao fumeiro para a pele ficar bem dura. Uma cabaça podia ter capacidade de 12 litros ou por vezes mais. Existem ainda numerosas fotografias de leiteiros transportando o leite em cabaças.
Abóbora-carneira Nome vulgar de Lagenaria siceraria. Anual, fruto esbranquiçado de pele cinzenta e forma um tanto arredondada, utilizada quase exclusivamente na alimentação de suínos.
Abóbora-gerimú Também por vezes chamada abóbora-gerimoa. São nomes vulgares de Cucurbita moscata. Anual, produz flores amarelas e frutos de tamanho médio, ovóides ou oblongos, polpa cor de laranja, doce e pele cor de laranja e verrucosa. Amadurece no Outono. É muito apreciada para a confecção dos bolinhos de abóbora.
Abóbora-gila Nome vulgar de Cucurbita ficifolia. Vivaz, trepadora, com flores amarelas e frutos ovóides, verdes, riscados de branco. Muito usada na confecção de compotas e doces variados.
Abóbora-menina Nome vulgar de Cucurbita maxima. Anual, flores amarelas, frutos pequenos achatados, por vezes assumindo outras formas. Polpa alaranjada e doce, pele alaranjada, por vezes também acinzentada. Colhem-se no início do Outono. Quando se cozia no forno caseiro, no fim da cozedura do pão, metiam-se no forno estas pequenas abóboras cortadas a meio, depois de extraídas as pevides. Comiam-se com uma colher, servindo a própria casca de taça.
Abóbora-porqueira Nome vulgar de Lagenaria siceraria. Anual, flores esbranquiçadas, fruto grande de forma alongada ou aclavada, de polpa esbranquiçada, pele cinzenta e verrucosa. Usada quase exclusivamente na alimentação de porcos.
«Abóbora-cabaça», «abóbora-carneira» e «abóbora-porqueira» pertencem todas à mesma espécie botânica. Estas designações vulgares estão relacionadas com o seu aspecto exterior.
CULTURA Destinavam-se geralmente para a cultura das abóboras «os cabedulhos do milho», por vezes também chamados de «cabeceiras do milho», ou seja, as zonas situadas entre as folhas de milho e as paredes. Por vezes cultivava-se apenas o cabedulho junto do caminho, outras circundavam-se completamente as folhas. Esta prática permitia afastar os bovinos do milho duma forma tão eficaz que se podia fazer a cultura no meio dos pastos sem qualquer prejuízo. Fazia-se a sementeira logo a seguir à do milho, nas terras baixas ou terras de pão. Quando se praticavam os sachos e mondas de milho, as abóboras também beneficiavam desses amanhos culturais. O mesmo acontecia com as adubações de cobertura.
CULINÁRIA Tem lugar destacado na culinária, estando associada à matança do porco. Era servida cozida, a acompanhar a sopa de feijão com bofe e outras miudezas, ou seja, a «sopa de dentro», como era popularmente conhecida. Ainda hoje acompanha frequentemente as sopas de feijão. Os bolinhos de abóbora, fritos e polvilhados de açúcar e canela, são também muito apreciados.
INTERESSE ECONÓMICO A abóbora foi uma cultura de grande interesse económico, pois constituía a base da alimentação do porco. Na ilha Terceira, engordavam-se porcos não só para o consumo doméstico, como também para enviar para S. Miguel, nos iates. As freguesias dos Altares e Raminho foram as que mais se dedicaram a esta actividade. Hoje, a engorda de porcos com abóboras está praticamente abandonada e a produção muitas vezes não chega sequer para satisfazer a procura. Já raramente se vêem as abóboras sobre os telhados onde geralmente eram colocadas para secar. No entanto, ainda subsiste um bom número de Cucurbitáceas em cultura. Raquel Costa e Silva
MEDICINA POPULAR As suas sementes (pevides) são usadas para fazer expelir a ténia e outros vermes, do seguinte modo: colocar as pevides, temperadas com sal e pimenta, num tabuleiro e levar ao forno para torrar. Moer, num almofariz, um punhado de pevides torradas, até reduzi-las a pó. Num recipiente de barro ou de porcelana fazer uma infusão com o pó obtido. Tomar três vezes ao dia durante três dias, com um pouco de mel. Menos usada, pelas pessoas com diarreia, do que a abóbora-menina Cucurbita maxima, assada ou cozida; preparada em puré ou sopa para estômagos débeis. Utilizada em compota para os que têm prisão de ventre. Francisco Dolores (Mar.1996)
Bibl. Palhinha, R. T. (1966), Catálogo das Plantas Vasculares dos Açores. Lisboa, Sociedade de Estudos Açoreanos Afonso Chaves: 118. The New Royal Horticultural Society Dictionary of Gardening (1992), Londres, MacMillan Press Ltd., I: 777, II: 437-441. Thierry, C. (s.d.), Plantas que curam. 2ª ed., Lisboa, Biblioteca Agrícola.
