aboar

v. 1 Forma prostética de boar por voar. Do lat. volare. Cf.: «Tenho uma pena em meu peito / dá-lhe o vento, não aboa» (do cancioneiro popular micaelense); «[...] anda a modos que no ar, a aboar por esses ares fora [...]» (Dias, 1943: 247). Também se diz, com o mesmo sentido, boar e avoar. Estas três formas (boar, aboar e avoar) não são exclusivas dos Açores. 2 Arremessar; atirar, lançar pelo ar (na linguagem popular de S. Miguel). Trata-se, provavelmente, do mesmo vocábulo descrito em 1, tomado em acepção diferente. A passagem do verbo a transitivo poderia decorrer do deslizamento do sentido de voar para o de lançar pelo ar (imprimir voo a, fazer voar). O sema pelo ar autoriza esta hipótese. Mas também se poderia relacionar aboar (significando arremessar, lançar pelo ar) com abondar, ouvido por José Leite de Vasconcelos ao povo de Chaves na expressão «Abonda cá esse pau!» (Vasconcelos, 1985: 45). O açorianismo seria um metaplasmo deste provincianismo transmontano com síncope do d (abõar) e desnasalização do o (aboar). Neste caso, procederia do lat. abundare (como provavelmente abondar) e não do lat. volare. Haveria de se ter em conta, também aqui, um acentuado desvio de sentido.

O termo aboar, em qualquer das acepções supra, não tem nenhuma relação etimológica com o regionalismo minhoto aboar, derivado de bom, que significa melhorar, tornar-se bom (o tempo). O mesmo relativamente ao arcaico aboar, derivado de boas (em português antigo: bens, propriedades) - do francês antigo bonne, evoluído de bodne, com origem no galo-romano bodina) - que significava delimitar, demarcar, estremar (terras). O termo, em qualquer destas acepções, é desconhecido nos Açores. Eduíno de Jesus (Out.1997)

Bibl. Dias, U. M. (1943), O Mr. Jó. Vila Franca do Campo, Tip. de A Crença. Vasconcelos, J. L. (1985), Opúsculos, vol. VI: Dialectologia, parte. II. Lisboa, Imp. Nacional-Casa da Moeda.