abeiro
«Chapéu de palha, rústico, de grandes abas», assim referido no romance histórico de Faustino da Fonseca Os Bravos do Mindelo (Fonseca, 1906: 28). Originário da ilha do Pico, aonde a respectiva indústria esteve por muito tempo confinada, é conhecido nas outras ilhas também por chapéu do Pico ou chapéu de palha do Pico. A sua expansão começou pelo meado do século xix, tornando-se típico da indumentária dos camponeses das ilhas dos grupos central e ocidental. Segundo Ernesto Rebelo (1885: 132), «a palha destes chapéus [era] muito ordinária e grosseira» e a sua confecção pouco esmerada; não obstante, exportavam-se em grandes quantidades para a América.
O povo dos Açores usa o termo abeiro unicamente como substantivo; todavia, a sua ocorrência como adjectivo, embora confinada a uma linguagem mais selecta, não se perdeu de todo; assim vem em Roberto de Mesquita: «Tu, lembro-me ainda bem, vestias de riscado, / e adornavas graciosa o teu chapéu abeiro / com flores que colheste» (Mesquita, 1973: 190); e em Nunes da Rosa: «O melro [...], com o chapéu abeiro de palha derrubado para a nuca [...]» (Rosa, 1978). Não obstante, é mais frequente, em geral, o seu emprego como substantivo. Assim, de facto, se encontra em Florêncio Terra: «Em volta, todas as raparigas que se tinham ido aproximando, uma agora, outra logo, os rostos afogueados na sombra dos lenços e dos abeiros [...]» (Terra, 1942: 47); em Vitorino Nemésio: «Ti Amaro entesou-se na barba, deitando para trás o seu abeiro amarelo comido da ressalga [...]» (Nemésio, «Uma Taberna de Baleeiros», MTC); em Dias de Melo: «Vêm [...] de abeiro de trança de palha de trigo ou de centeio atirado para a nuca» (Melo, 1958: 25), etc. Eduíno de Jesus (Out.1997)
Bibl. Fonseca, F. (1906), Os Bravos do Mindelo. Lisboa, Viúva Tavares Cardoso. Melo, D. (1958), Mar Rubro. Lisboa, Orion. Mesquita, R. (1973), Almas Cativas e Poemas Dispersos. Lisboa, Ed. Ática. Rebelo, E. (1885), Notas Açorianas. Arquivo dos Açores, Ponta Delgada, VII. Terra, F. (1942), Contos e Narrativas. Lisboa, Parceria António Maria Pereira.
