abarbar

 v. 1 Prender, unir, ligar (etimologicamente: pela barba). Neste sentido, o seu emprego na linguagem popular da ilha de S. Miguel circunscreve-se principal ou quase exclusivamente à gíria amorosa. Emprega-se, de um modo geral, na voz passiva, com o auxiliar estar, ficar ou andar, e com objecto indirecto regido pelas preposições a ou com. Cf.: «Of´reci-te um Solimão / contra todo o mau olhado / p´ra ver se o teu coração / ao meu ficava abarbado» (do cancioneiro popular micaelense); ou: «Abarbado com elas tanto estou que [...]» (Ataíde, 1974: 65). O povo em S. Miguel diz que um rapaz «anda abarbado a uma rapariga» quando o supõe «preso a ela por fortes laços de amor» (Ataíde, 1974: 268). Há também a expressão «abarbado à casa de Fulana» usada em S. Miguel a respeito do rapaz que fica autorizado (ou comprometido) a frequentar a casa de uma rapariga pelo facto de a ter pedido em casamento (Vasconcelos, 1983: 593). Veja-se ainda o adjectivo verbal abarbado, que, em certos contextos, pode equivaler a apaixonado. Assim vem, por exemplo, em Ataíde (1974:88): «[...] a seu lado, os rapazes, abarbados, gracejavam, brejeiros [...]». 2 No falar dos camponeses açorianos, abarbar, referido a trabalhos da lavoura, significa também, em sentido restrito, chegar terra ao pé de uma planta. Diz-se, regra geral, falando do milho, cujo *abarbo, por norma, é feito na altura da segunda e última sacha. Aliás, é frequente ouvir o povo dizer abarbar o milho por sachar o milho quando se refere a sachar o milho pela segunda e última vez. Neste caso, o termo abarbar abrange na sua significação não só, propriamente, a ideia de chegar terra aos pés dos milheiros, mas todos os mais trabalhos da sacha, como seja revolver superficialmente a terra em que os milheiros estão plantados, desbastá-los e cortar as ervas daninhas à volta (fazer a barba ao milho, como também se diz em S. Miguel). De resto, abarbar o milho ocorre frequentemente com o mesmo sentido de sachar o milho, não só quando se trata de sachar aquele cereal pela segunda e última vez (como em S. Jorge), mas também em geral (em S. Miguel e noutras ilhas). J. Almeida Pavão (1982: 134) regista ainda as formas abrabar e barbar ouvidas em S. Miguel com o mesmo significado de abarbar. Elsa Mendonça (1961-62:58), por sua vez, encontrou em Santo Antão, na ilha de S. Jorge, o termo aterrar em vez de abarbar (ou sachar) relativamente aos trabalhos da segunda e última sacha do milho. 3 Na gíria agrícola dos Açores, abarbar também significa começar a deitar pragana. Emprega-se com referência aos milheiros, quando as barbas-de-milho começam a sair das maçarocas. Pás de abarbar, s. Pás que, em alguns lugares da ilha de S. Jorge (Santo Antão, Topo, etc.), se colocam na claveira em vez das sachas (quatro ao todo) para claveirar o milho pela última vez.  Eduíno de Jesus  (Out.1997)

Bibl. Ataíde, L. B. L. (l974), Etnografia, Arte e Vida Antiga dos Açores. Coimbra, Biblioteca Geral da Universidade, III. Vasconcelos, J. L. (1983), Etnografia Portuguesa. Lisboa, Imp. Nacional-Casa da Moeda, VI. Mendonça, E. B. L. (l961-1962), Ilha de S. Jorge. Subsídio para o Estudo da Etnografia, Linguagem e Folclore Regionais. Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira, XIX. Angra do Heroísmo. Pavão, J. A. (l982), Aspectos Populares Micaelenses. Angra do Heroísmo, Secretaria Regional da Educação e Cultura.